15/6/21
 
 
Refugiados na Grécia. Uma ponte para o céu, o inferno na terra
Mais de 50 mil pessoas entraram na Grécia nos últimos dias, o recorde de entradas numa só semana desde Janeiro

Refugiados na Grécia. Uma ponte para o céu, o inferno na terra

Um número recorde de pessoas fugidas da guerra chegou à Grécia nos últimos cinco dias. Estão desesperadas por chegar à Europa mas a maioria não sabe que as coisas no terreno estão a piorar todos os dias.

Ashraf enche o peito para anunciar que trabalhou com as tropas britânicas em Helmand, a província afegã que o viu nascer. “Era supervisor de limpezas, tinha oito pessoas a meu cargo”, conta, já ao cair da noite, na Praça Victoria em Atenas. Aponta para o amigo. “Ele foi soldado no exército afegão durante muitos anos, lutou pelo nosso país. Quando os talibãs chegaram lá disseram-nos: ‘Nós sabemos que vocês são infiéis, vamos apanhar-vos e cortar-vos os pescoços.’” Faz o gesto beligerante percorrendo a própria garganta com os dedos. Depois sorri e justifica: “É por isso que estamos aqui.” Ashraf e o amigo, que teme ser identificado, são duas das dezenas de pessoas que estão hoje nesta praça, onde até há bem pouco tempo se amontoavam tendas com as centenas de afegãos que diariamente vêm para aqui, assim que chegam à Grécia.

É nesta zona da capital grega que vive a maior comunidade de afegãos do país, o que justifica que os refugiados que desembarcam no Pireu, depois das perigosas travessias para as ilhas da Grécia vindos da Turquia, venham para aqui. Ao contrário de muitos sírios, explica Suzanne, uma holandesa que há um mês veio reforçar as hostes de voluntários que apoiam estas pessoas, quase nenhum afegão tem passaporte nem dinheiro. A maioria dos sírios apanha autocarros directos para a fronteira com a Macedónia no principal porto ateniense. A maioria dos afegãos fica aqui, na Praça Victoria, à espera de transferências de dinheiro dos familiares e amigos que ficaram para trás ou dos que os esperam já no Norte da Europa; há uma dezena de lojas da Western Union nos arredores. 

Muitos não sabem que desde o início de Outubro as autoridades gregas começaram a distribuir os refugiados por três campos improvisados, a fim de lhes dar os apoios necessários antes de prosseguirem viagem, a fim de os tirar das ruas de Atenas, onde a postura de muitas pessoas está cada vez mais extremada. A começar pela nossa anfitriã, Ersi, que não nos recebe mas que, conta-nos Maria, a sua empregada, está “revoltada com os refugiados, sempre a dizer ‘isto vai desvalorizar o meu apartamento’”. Maria tenta traçar um paralelismo entre a actual situação e “o que aconteceu nos anos 90, quando as mulheres de Leste, moldavas, que são muito bonitas, vieram aqui roubar-nos os homens. Os gregos são estúpidos, gastaram o dinheiro todo com elas”. Explicamos--lhe que já estivemos com milhares destas pessoas, na Sérvia, na Croácia, nas fronteiras, que na sua maioria são pessoas como nós, doces, mas que a força das circunstâncias debilitou, que estão profundamente agradecidas. Maria parece não se compadecer.

Nos últimos cinco dias, cerca de 48 mil pessoas entraram na Grécia, o número mais alto numa só semana desde Janeiro; para comparação, em todo o mês de Setembro chegaram 85 mil. Os refugiados vêm com pressa, querem chegar antes do Inverno e antes que mais algum país construa muros nas suas fronteiras, como fizeram a Bulgária e a Hungria, que disso eles sabem. Com as entradas na Grécia a aumentar, multiplicam-se também os ataques aos botes sobrelotados que partem de Esmirna ou Bodrum, na costa da Turquia, em direcção às ilhas de Lesbos e Kos. Nos últimos dias repetem-se os relatos de homens de caras tapadas em lanchas motorizadas a destruírem motores e a afundarem os pequenos barcos onde os refugiados viajam por preços exorbitantes. 

Diz um pescador de Lesbos que a Frontex, a agência europeia de patrulhamento, pouco ou nada faz para ajudar os que ficam à deriva. São eles, os pescadores gregos, que resgatam os refugiados, mas com o mau tempo a chegar também terão de suspender as operações, não têm máquinas capazes. A isto acrescem os ataques xenófobos e a crescente popularidade do Aurora Dourada; há um mês, nas eleições legislativas antecipadas forçadas pela demissão de Alexis Tsipras, o partido de extrema-direita redobrou o número de votos em Kos. É um cenário que tem encontrado eco em toda a Europa: das declarações islamofóbicas do presidente da República Checa – onde, segundo a ONU, os refugiados estão a ser obrigados a pagar pelas próprias detenções, ilegais à luz do direito internacional e das convenções de asilo – aos ataques incendiários de neonazis a centros de acolhimento na Alemanha e na Suécia. Mas disso os refugiados parecem não saber, só sabem que a Hungria não os deixa passar.

Olimpíadas humanitárias

Suzanne, a voluntária, pede-nos que a ajudemos a distribuir mapas impressos em folhas A4 com explicações em árabe para que os refugiados não passem a noite ao relento na Praça Victoria. Entre eles há homens de ar ameaçador, os seus olhares a queimarem-nos as nucas; um deles vem interromper a conversa com um grupo de rapazes que acabou de receber as instruções para o campo de Galatsi, afasta-os de nós a gesticular e a largar frases abrutalhadas. Podia ser um refugiado, podia ser um deles, mas provavelmente é um traficante. “Há colegas que me dizem que os traficantes estão a apertar o cerco às ONG que vêm aqui à Praça Victoria duas vezes por dia distribuir estas informações, comida e roupa. Alguns voluntários já foram ameaçados, mas a mim nunca me aconteceu”, conta Suzanne. “Acham que estamos a arruinar-lhes o negócio, querem ser eles a organizar as viagens para a fronteira com a Macedónia” – em autocarros que partem daqui perto, duas ruas abaixo de onde estamos. Se forem os traficantes a encher um autocarro, fazem negociata com o motorista e o dono da companhia para ganharem algum por fora.

Ashraf e o amigo ficam felizes quando lêem o papel que lhes estendemos. O panfleto em árabe desmonta os boatos que muitas vezes afastam dos campos até os que sabem que têm para onde ir temporariamente. “Podem entrar e sair a qualquer momento. Não têm de pagar por nada. Não têm de dar impressões digitais nem ser fotografados. Podem tomar banho, há comida e assistência médica. Apanhem o 608 e saiam na última paragem de Galatsi.” A parelha agradece-nos e corre para a rua onde se apanha o autocarro suburbano que os levará à arena olímpica de Atenas, construída para os Jogos Olímpicos de 2004 e que, até esta crise bater à porta da Grécia, esteve esquecida e ao abandono, como a maioria dos estádios em que Portugal enterrou milhões para o Europeu de Futebol nesse mesmo ano.

Os refugiados não pagam bilhete de autocarro para irem do centro de Atenas a Galatsi. Podem sair na última paragem, mas muitos saem na penúltima, do outro lado da auto-estrada, e atravessam uma ponte a pé até à entrada do complexo desportivo tornado acampamento. Quando chegamos somos recebidos por Giorgos, um grego com funções de porteiro que, montado na sua motoreta, conduz os grupos de refugiados que chegam a cada 30 minutos à recepção do campo. Pede-nos que aguardemos por Manos Eleftheriou, o responsável pelo campo e autarca de Galatsi, um homem alto com cabelo à Fernando Couto que vem dizer-nos que nunca deixa entrar jornalistas – “nem a CNN, para proteger estas pessoas” –, mas que pode dar-nos todas as informações que quisermos. Nem chegamos a fazer perguntas e já está a disparar dados.

Desde que abriram a arena para acolher refugiados, “há 20 dias”, só dorme três horas por noite. Diz que é membro da direcção da autarquia mas não é político. “Sou só um homem como estas pessoas são só pessoas. Os políticos são os responsáveis por esta situação, os governos dos países que não vêem que estas pessoas são só pessoas, a Europa que anda a fazer guerra nos países deles há anos e anos… E agora dizem que não vão fazer nada para os acolher. Eu passo aqui os meus dias, temos tudo o que eles precisam, ontem chegou aqui uma mulher que não se estava a sentir bem, suspeitámos de gravidez e levámo-la ao hospital. Foi aqui na Grécia que descobriu que vai ser mãe.”

“Isto é o céu”

Muhammad licenciou--se em Engenharia Industrial mas há mais de dez anos que não há nada para construir no Afeganistão. Nasceu e cresceu em Ghazni, uma província relativamente próxima de Cabul que agora é palco de lutas diárias entre o Daesh (o autoproclamado Estado Islâmico) e os talibãs, conta-nos. Passou os três meses de Verão à procura de emprego no Irão, sem sucesso; ali os afegãos não são bem recebidos. Como não queria voltar para o seu país organizou-se com o primo, um grupo de amigos da faculdade e um iraniano que conheceram no caminho para virem juntos para a Europa. Não consegue descrever o dia--a-dia do conflito entre os dois grupos islamitas armados, nem a pior parte da travessia até chegar à Grécia, quando se passa a fronteira do Irão e se entra na Turquia. “Nem quero pensar nisso, foi muito muito mau, de doidos, horrível mesmo. Isto aqui é o céu”, diz-nos quando o conhecemos na ponte que liga o lado deserto da auto-estrada à arena de Galatsi.

Desde que chegou, há dois dias, passa as tardes com o grupo de amigos ali, a beber sumo de laranja, a fumar cigarros e a planear os passos seguintes, à espera da chamada da irmã que vive na Áustria há dez anos e vai transferir-lhes dinheiro para poderem seguir caminho. Aqui está bom tempo, o Verão ainda não emigrou, mas nas próximas paragens, Sérvia, Croácia e no resto da rota a norte as temperaturas já estão baixíssimas e a chuva já é torrencial. Quando o mau tempo começou a chegar à Sérvia, muitos dos voluntários que mantinham a passagem de Šid organizada bateram em retirada. No início de Outubro tudo era fluido e a chuva só vinha de vez em quando. Em poucos dias só restam bolos de roupa e lama espalhados pelo chão e um punhado de novos voluntários acabados de chegar que não sabem para onde virar-se. Milhares de refugiados estão retidos ali, em Šid, à espera para passarem para a Croácia, outros milhares estão retidos do outro lado, no campo de Opatovac e na estação de Tovarnik, à espera para partirem para a Eslovénia, agora que a Hungria suspendeu o tráfego ferroviário que, até há duas semanas, levava os refugiados directamente à Áustria. Muitos mais milhares esperam, em condições sub-humanas, nos pontos de entrada na Eslovénia, um pequeno país de 2 milhões de habitantes que de repente se tornou vital na rota dos migrantes desesperados, mas que limita a 2500 as passagens diárias e já enviou tropas para a fronteira.

O cenário é negro e temos medo de o pintar quando Muhammad e os amigos começam a fazer perguntas sobre o que os espera no resto do caminho e para onde devem ir. Querem saber se será fácil entrar na Áustria e obter asilo e sentimo-nos na responsabilidade de lhes explicar que neste momento a Áustria, como a Eslovénia e outros países, estão a ponderar encerrar as fronteiras e limitar muito as passagens e a atribuição de asilo. Rematamos que a irmã dele poderá ser garante de alguma coisa. Mas ele já não ouve, está triste e cabisbaixo. Recebe o papel que lhe escrevemos com todos os pontos por onde têm de passar e fica a estudá-lo com o resto do grupo para decidirem o que fazer a seguir. Ainda agora estava no céu, e nós já o forçámos a descer à terra. Ninguém sabe se o inferno já acabou.

O que vem a seguir Na sexta-feira10 490 pessoas atravessaram a fronteira da Grécia com a Macedónia pela pequena aldeia de Idomeni. Mais de 90% dos que passam por ali diariamente vêm de Atenas. Dantes, quando entravam em território da República da Macedónia, cada pessoa, incluindo as crianças, pagava 6 euros pela viagem de comboio até à fronteira com a Sérvia, para chegar ao campo de Preševo e daí seguir para Norte. Agora os preços subiram para 25 euros à cabeça e muitos chegam aqui já sem dinheiro ou com muito pouco, prevendo-se que tenham de vir a gastar mais cerca de 200 euros cada um até chegarem à Croácia, o próximo país da União Europeia e do Espaço Schengen que vão pisar, onde para já as viagens continuam a ser gratuitas, até pelo menos à chegada à Eslovénia. Isto se, na sua aflição, não aceitarem pagar o que alguns taxistas ou traficantes cobram, às vezes 700 euros ou mais, para chegarem mais depressa ao destino.

No meio do desespero, Ahmed foi inteligente, a matemática das probabilidades jogou a seu favor. Sabia que, se assumisse que tinha dinheiro no bolso, o matavam no Irão ou já do lado turco, onde os traficantes abordam as pessoas a pedir-lhes 2 mil euros à cabeça para os levarem até à Grécia. Quando alguns dizem que sim, é quase sempre o que acontece, são mortos a tiro ou à facada. Ahmed trouxe roupa velha vestida e convenceu as irmãs, o irmão e a mãe a fazerem o mesmo, quando o pai – um empresário que levou a família toda para a Índia quando Ahmed ainda era um bebé – lhes ligou de Cabul a dizer que não voltassem para o Afeganistão, que seguissem para a Europa porque o país deles, onde todos nasceram mas onde Ahmed e os irmãos pouco tempo passaram, já não é seguro para a família. “O meu pai disse que a mulher e os filhos não iam voltar para o meio dos talibãs e do Daesh. Ele tem passaporte e visto, por isso há-de vir ter connosco. Andámos 15 dias a pé pelas montanhas, só com água, atrás de nós os soldados do Irão a disparar, à frente os soldados da Turquia a disparar, pelo meio traficantes que se virem que tens uma camisola ou uns sapatos mais caros te matam para te roubar a roupa.” Na fronteira dos dois países andaram “agachados como cães, num vale parecido com este”. Tiveram sorte, ninguém morreu. Quando chegarem à costa turca do mar Egeu, cada membro da família teve de pagar 2 mil euros para entrar no bote para dez pessoas que transportou 50. “Para ter a certeza que não morríamos, mais 500 euros cada pelos coletes salva-vidas.”

Agora estão em Idomeni, a poucas horas de começar uma minicimeira de dez países da Europa organizada pela Comissão Europeia para gerir a situação cada vez mais catastrófica na região. Quando domingo chega, o dia da reunião, os jornalistas em Bruxelas avançam que vai ser aprovado um plano de 16 pontos que prevê “a redução das entradas de migrantes”, o “reforço de autoridades nas fronteiras” e o “compromisso de não facilitar o movimento de refugiados e migrantes” sem luz verde dos países para onde eles vão. Estará o céu europeu prestes a transformar-se num inferno?

Esta reportagem foi feita no âmbito do projecto Aquele Outro Mundo que é o Mundo, promovido pela ACEP, CEsA, seisXX e Coolpolitics, com o apoio do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian.

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