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Nuande Pekel.

Nuande Pekel.

Sara Sanz Pinto 26/10/2015 10:07

Era uma vez um menino que veio “lá de uma tenda em Maracaípe”.

Poderia dar palestras de auto-superação, oferecer coaching a mulheres com falta de amor-próprio, prestar serviços de consultoria de estilo e, por aí, resvalamos ao longo de uma lista infindável de aptidões que não interessa aqui enumerar. Passaram mais de dez anos desde que o vi pela primeira vez, recém-chegado a Portugal, e quanto mais o conheço mais clara fica a ideia: ele nunca mais acaba. Parece um pegamonstro, bonequinho superelástico já extinto, feito de borracha sintética, porque basta distrair-me um pouco e lá vai ele, de novo e ainda para minha surpresa, com os membros esguios estirados, lançar-se sorridente numa outra divagação artística. A última de que fiquei a saber foi a sua participação num videoclip do rapper Dengaz.

Dotado de um carisma muito genuíno e proporcional à finura das suas canelas, sempre bem hidratadas, porque “pele de negro é foda e quando resseca fica cinzenta”, Nuande ‘Pekel’ Silva veio “lá de uma tenda de lona em Maracaípe”, no Nordeste brasileiro, para hoje ser um dos mais conceituados sushimen do nosso país. Porém, e muito antes de abusar do seu charme perante Manuel Luís Goucha e em directo no “Você na TV”, este negão (como tantas pessoas carinhosamente lhe chamam), tinha apenas 14 anos quando, alimentado pelo sonho de um dia vir a tornar-se surfista profissional, deixou a família e foi viver para Maceió.

O impulso? Uma prova que ganhou em frente a casa entre os melhores da sua idade. Num dia  ia para a escola com 50 cêntimos que a mãe lhe dava, no outro “já tinha patrocínios, pranchas e dinheiro”. Aí decidiu “correr atrás para viver do surf”.

“Depois, quando eu tinha 17 anos, o Bernardo ‘Pigmeu’ (um dos maiores talentos da sua geração), que é como se fosse meu irmão, quis ir morar para Florianópolis, que era onde as coisas estavam a acontecer, e falou para eu ir junto com ele. O tempo foi passando, eu fui vendo ele cada vez mais próximo do World Championship Tour (WCT), com cada vez melhores resultados e eu sem conseguir apanhar-lhe o ritmo. E eu nunca quis ser ‘o amigo do Pigmeu’, sabe? Como aqueles caras que o Neymar pega, leva para casa dele e vivem a vida inteira na sombra dele...”, recorda.

“Sempre quis lutar pelos meus objectivos, fazer as minhas coisas. Comecei a fazer muitas finais nos campeonatos, todo mundo falando que eu surfava muito bem, mas isso não se traduzia em melhores patrocínios, o que me perturbava. Incomodava-me a minha imagem para aquele segmento não ser a que vendia. Uma coisa que só vim a entender completamente muito mais tarde. Mas é assim, existe um mercado e você para ser algo tem de ser um produto que venda. E eu, por ser negro, não era. Não queria voltar para o Nordeste, onde por ser mais conhecido poderia ter uma vida bacana, nem voltar à fase de índio, catando as frutas das árvores. Aí pensei: ‘Vou cair fora.’”

“Decepcionado” por ver que não ia realizar o seu sonho de infância por motivos que o ultrapassavam, ouviu os conselhos da mãe e meteu-se num voo sem regresso para Portugal. Chegou a Lisboa em 2002, com 19 anos, e sem pranchas ou “a ilusão” de tentar mais uma vez a carreira no surf. Um pormenor ainda, não fazia a menor ideia de que aqui tinha “altas ondas, bem melhores que no Brasil”. “Fui logo trabalhar nas obras. Achei óptimo, ainda estava com a moeda do Brasil na cabeça, o real estava quatro para um, e rapidamente consegui pagar o dinheiro da passagem que a minha mãe me tinha emprestado.” Passou quase um ano sem surfar até que a irmã, Nuala, lhe trouxe uma prancha velha que tinha. Na altura fazia limpezas nocturnas no Hotel Farol Design, em Cascais, e tinha “o dia todo para pegar onda”.

Depois de algumas surfadas na praia de Carcavelos, decidiu estrear-se na competição em Portugal, mais concretamente num WQS (World Qualifying Series, ou circuito mundial de qualificação) no Pico da Mota, em Peniche. “Acho que na primeira bateria fiz um 9 e um 7 e tal, e me deu aquela coisa! Eu falei ‘Caraca!’ Uma sensação que já não sentia há muito tempo!” Ficou em 9.o lugar e de lá foi direitinho para a fábrica do shaper Paulo Mandacaru, que lhe cobrou, a preço de atleta, 300 euros por uma prancha. “Fiz logo a conversão e pensei ‘Meu Deus! Que prancha cara!’” Chateado, adiou a compra, apanhou o comboio, fez lá o truque do costume para seu Nokia velhinho 3310 com a bateria viciada voltar a funcionar e, assim que o aparelho ligou, tinha uma mensagem de voz: “Daqui fala o Paulo Mandacaru, disseram-nos que tu surfas muito bem e estamos interessados em patrocinar-te. Três pranchas para começar está bom?” “Só pensei, pelo amor de Deus! Eu estava querendo fazer uma e agora estão me oferecendo três!”

Daí a mandar aéreos reverse sem problemas (manobra rara no panorama de então do surf português), Pekel foi ficando cada vez mais empolgado com os resultados e o feedback que estava a ter no circuito mundial de qualificação, apesar do fosso que o separava da maioria dos competidores. Entrava nas provas de directa, depois do turno no hotel, e o pouco dinheiro que ganhava era para se sustentar; os outros eram pagos para competir e nos tempos livres surfavam, treinavam ou curtiam. Pouco tempo se passou até esbarrar novamente noutra porta – a impossibilidade de correr o circuito nacional por não ter passaporte europeu. Daí pensou novamente: “Quer saber de uma coisa? Vou-me retirar dessa parada toda.” Embora ainda com alguma revolta pela forma como o processo de exclusão foi conduzido, Pekel admite que foi a “melhor coisa” que lhe aconteceu. “Acho que esse circuito acaba iludindo os atletas, sabe?”

Enquanto progredia na cozinha, redireccionou a sua carreira para o free-surf e com isso conquistou patrocínios e viagens pagas, e realizou o sonho de conhecer lugares como a Indonésia ou o Havai. E é hoje, aos 32 anos, um homem realizado nestas duas vertentes – faz questão de ir surfar todos os anos a Pipeline, a onda rainha do surf mundial, e conquistou a fama e a qualidade de vida que ambicionava como sushiman. Está à frente de um restaurante independente nas instalações do Hotel Farol Design e diz que a comida japonesa tem tudo a ver com o seu jeito de ser, “criativo e irreverente”

Voltando ao início, poderia ainda ensinar tácticas de Mindfulness, agora tão em voga, numa vertente exótica, virar poeta e ser muitas outras coisas que ainda vai ser. De um jeito muito único e sem traumas, aprendeu a suar para conquistar as coisas e a largar o que não era para ser seu naquele momento. Tudo a seu tempo. Como as pranchas, os patrocínios e os jornalistas que vieram ter com ele. “Tudo meio torto” porque, segundo me disse um dia, “a vida para fazer sentido tem de ser desse jeito”.

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