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Eduardo Barroso. “Eu e Marcelo ajudámo-nos muito até em crises pessoais”

Eduardo Barroso. “Eu e Marcelo ajudámo-nos muito até em crises pessoais”

José Fernandes José Cabrita Saraiva José Paiva Capucho 17/10/2015 19:11

Com a idade da reforma a chegar, Eduardo Barroso já tem uma ideia do que quer fazer: “Escrever uma autobiografia”

Eduardo Barroso saiu em directo do programa “Prolongamento” na TVI24 na passada segunda-feira “por não aguentar mais a indignidade” de conviver com o comentador do Benfica Pedro Guerra. Depois de seis anos a defender intensamente as cores do Sporting, o director da Unidade de Transplantação Hepática do Hospital Curry Cabral em Lisboa conversou com o i sobre o seu Serviço, “um dos melhores da Europa”, do seu “querido amigo” Marcelo Rebelo de Sousa e do ministro da Saúde Paulo Macedo: “o melhor ministro desta coligação”, nos últimos quatro anos.

No final do programa Prolongamento com Bruno de Carvalho dirigiu-se a Pedro Guerra com alguma fúria. Tentou agredi-lo?
Houve uma troca de palavras. No programa anterior os meus 5% de marialvismo vieram ao de cimo com aquela criatura e eu disse-lhe baixinho que lá fora falaríamos. Só que no fim o Manuel Serrão disse “Ó doutor, vamos mas é embora”. E assim foi. O certo é que no intervalo do programa em questão esse senhor me chamou cobarde, porque tinha estado lá fora à minha espera e eu não apareci. E isso deu-me vontade de mostrar que não era cobarde. Cresci para ele com um tom ameaçador, e arrependo-me. A situação estava completamente fora de controlo, tinha de sair, e devia ter saído logo nessa noite.
Como é possível duas pessoas adultas chegarem a esse ponto?
Mas qual ponto? De uma discussão? 
De quase se agredirem.
Não é isso que está em questão. Temos de ser precisos com as palavras. O que está em questão é cometer-se um excesso. Nunca teve esses problemas no dia-a-dia? Eu tive. Às vezes exalto-me. Mesmo aqui no serviço – nunca quis bater em ninguém, mas exalto-me. Se vocês assistissem às reuniões… Eu grito, entusiasmo-me – os meus colaboradores já sabem. E alguns até levantam a voz para mim e eu reajo. “És uma besta!”. Qual é o problema? É a minha maneira de liderar.
Já fez coisas de que se arrependesse?
Logo quando entrei aqui fiz as coisas à bruta, porque queria mudar o modo de funcionamento desde o primeiro dia, e tive de fazer um pedido de desculpas público. E durante a minha vida estive várias vezes à beira de andar à pancada. Uma vez no estádio de Alvalade envolvi-me lá numa situação e andei ao murro. Há trinta anos.
O que se passou?
Foi por causa do tabaco. O meu filho era pequenino e começou a afastar o fumo com a mão e houve um sócio que começou a dizer “Eduque a criança”. Ele provocou-me, excedemo-nos os dois e pronto. Mas depois fizemos as pazes.
Voltando a Pedro Guerra. Alguma vez tinha detestado uma pessoa com esta intensidade?
Não sei se pode dizer detestar. Eu não gosto de muita gente, mas ele é dos seres humanos que eu conheci mais… Não quero adjectivar.
Não o conhecia antes do programa?
Nem sabia que ele existia. Estava de férias no Algarve com a minha mulher – três semanas sagradas no Hotel do Alvor – e recebo um SMS do meu filho a dizer: “Pai, vi na internet que o Seara vai sair, substituído pelo Pedro Guerra. Não vás sequer ao primeiro programa”.
Logo nesse primeiro programa, em que estava no Alvor, houve uma escaramuça.
Pois. E aí eu pensei: “Se eu estivesse no estúdio o que fazia?” Foi um erro. Trágico. Vocês sabem o que é passar a ouvir os doentes a dizer: “Sôtor, o senhor envergonhou-me”? Houve dois doentes que me disseram isto! Tenho um prestígio a defender. Este serviço onde estamos é a unidade de cirurgia e transplante do fígado mais activa da Europa continental. Fizemos este ano 110 transplantes hepáticos, nenhum centro Europeu fez o número de transplantes que nós fizemos, tirando os ingleses. Sou professor universitário, chefio 108 cirurgiões… tenho que me dar ao respeito! 
Teve muitas reacções à sua saída?
Muitas. Recebi emails e mensagens que nem imagina. Houve grandes benfiquistas que me deram os parabéns e tive telefonemas de presidentes de outros clubes que me disseram “O senhor é um homem íntegro, um homem digno”.
Pinto da Costa?
Não posso dizer quem foi.
Quando se vai embora diz “Livrei-me disto”. Foi um alívio sair do programa?
Quando me despedi para ir para esse programa – depois de jantarmos um frango assado magnífico – ia com uma angústia total. O meu filho deu-me um beijinho e pediu-me: “Pai, sai hoje”. Estavam com medo. Depois daquilo cheguei a casa muito deprimido. Bebi um whisky, fumei um charuto e fiquei até às três da manhã para rever aquilo. E achei bem.
O programa tirava-lhe o sono?
Sim, tirava. Tinha de tomar alguma coisa para dormir, e a minha mulher ficava acordada a beber uma água das pedras ou um chá de camomila com um ar de angústia. Este homem, além de prejudicar o Benfica, prejudicou a minha vida. Porque é que aquilo me saiu na rifa?
A sua saída foi por impulso ou já estava planeada?
Eu estava ali no limite da indignidade sem me aperceber. Para ser eficaz tinha de lhe responder na mesma moeda. Mas se eu fizer da mesma maneira os meus alunos cospem-me. Perante o que se estava a passar, eu disse “É já hoje. Não posso ouvi-lo mais”. Desde o início que muita gente me criticava por ir a programas de futebol. O meu tio Mário Soares, quando comecei, dizia “Ó Eduardo, futebol? Isso é abaixo de cão”. Quando comecei os Donos da Bola a minha mãe e o meu pai, na altura ainda vivos, não gostavam. Mas nunca tinha tido um problema.
Uma vez teve um momento em que se exaltou e gritou com o Fernando Seara.
Não me exaltei nada. Disse: “Cale-se, deixe-me falar”. Porque as pessoas acham que não, mas ele era combativo. No fim pedi-lhe desculpa e ele disse “Não tem problema nenhum”. Às vezes era quentinho, fazia faísca, mas nunca deixei de levar o Serrão ao hotel no fim do programa. E íamos a conversar no carro: “Ah, ah, hoje exagerámos, ó doutor”. Uma vez disse que ele era indigente mental… Tivemos ali picos de agressividade, mas também tivemos momentos de rir à gargalhada.
Se você próprio diz que não devia ter ido ao primeiro programa com Pedro Guerra, o que acha de o presidente do clube ter ido?
Fez pessimamente. Pessimamente. Disse-lhe isso antes, durante e depois do programa. Mas estou incondicionalmente com ele.
Como vê o estado actual do Sporting?
Está num período de afirmação fantástico. O presidente salvou aquilo da débâcle total. Quando era presidente da Assembleia Geral tive em casa os presidentes dos bancos a jantar, a dizerem-me isto. Em minha casa. E a nível desportivo está a mudar a auto-estima e o orgulho. Isto do Jesus foi uma coisa fenomenal. 
Está satisfeito com Jesus?
Conheci-o num almoço e fiquei horas a falar com ele. Ele explicou-me as tácticas – eu, que não percebo nada de tácticas, achei aquilo espantoso. E nessa altura eu dizia-lhe “Ó mister, você devia era vir para o Sporting”. E ele respondeu-me: “Eu estou muito grato ao Benfica, já tenho uma costela benfiquista. O Benfica deu-me protagonismo e independência económica”. Isto revela o carácter. Já estávamos mais ou menos na intimidade, ele podia ter-me dito outra coisa. Tenho provas de que ele foi de uma fidelidade, de uma gratidão ao Benfica impecáveis.
Mas a verdade é que saiu.
Quando se percebeu que ele podia não ficar no Benfica achei que era ir buscá-lo. Não tive influência nenhuma, mas lembro-me de jantar com o Bruno de Carvalho e com os meus filhos – eu levo os meus filhos a essas coisas – e ele dizer-me que havia essa possibilidade. E eu disse-lhe “ Não percas a oportunidade”. “Mas é caro”. “É caro? Por esse preço compra-se dois jogadores medianos”.
Têm uma relação pessoal, portanto.
Sim.
Mas não o conhecia antes.
Não! Conheci-o um dia às sete da tarde em que a minha mulher vai à porta. Pensei que era um doente enganado, porque tenho um consultório na porta ao lado. Ele apresentou-se: “Sou o Bruno de Carvalho, vou-me candidatar à presidência do Sporting, dá-me meia hora?” Estivemos a falar até às cinco da manhã. Perguntei-lhe tudo, dissequei-lhe a vida toda, nem sei como é que ele aturou aquilo. Mas houve empatia e saí de lá comprometido a ser presidente da Assembleia Geral dele. 
Como foi essa experiência?
Uma tragédia. Não imagina o que eu e o Daniel Sampaio sofremos nesses dois anos. A nossa amizade ter-se fortalecido foi um milagre.
Este ano o Sporting pode ser campeão?
Fomos buscar o treinador ideal. Se num ano consegue logo ser campeão, isso não sei. Temos é de nos manter lá em cima.
Mas esta época já teve dissabores.
Quais?
Falhar a Liga dos Campeões, por exemplo.
O Sr. Blatter e o Sr. Platini é que têm de explicar isso. Foram cinco erros de arbitragem! Bastava uma decisão a nosso favor. Acha normal que num jogo haja cinco lances polémicos? Golos validados com o braço, penáltis não marcados… Os árbitros têm-nos um pó monumental.
Quando vai ao estádio insulta os árbitros? 
Insulto o arbitro, levanto-me, faço tudo aquilo que não devo.
Como é enquanto adepto?
Irracional, completamente.
Diz asneiras?
Digo asneiras.
E também vai ao estádio dos adversários? Vai ao próximo Benfica-Sporting?
Não, aí não entro. 
Porquê? Teve alguma experiência desagradável?
Não… Mas a certa altura, na SIC, eu e a Cinha Jardim – veja lá as coisas que eu fiz na vida – fomos comentar um Benfica-Boavista. Foi a única vez que eu comentei um jogo. E quando o Boavista empatou fiquei contente e à saída houve uma certa animosidade. Mas tenho a certeza que se for ao jogo ninguém me toca.
Vou fazer-lhe uma provocação…
Mas olhe que já é uma e um quarto e tenho uns doentes para ver!
É uma pessoa competitiva e que não gosta de perder. Como concilia isso com o facto de ser adepto do Sporting!?
É um amor fantástico… Claro que gosto de ganhar, mas gosto mesmo é de ver o Sporting, ganhe ou perca. O meu filho só viu o Sporting ser campeão ao fim de 15 anos de vida. A noite do título do Inácio, ao fim de 18 anos, para os meus dois filhos e para mim foi uma coisa homérica. Não tem explicação. Aliás tive aí um grande conflito com a minha prima Isabel, porque o meu filho tinha um teste no Colégio Moderno, e eu passei-lhe um atestado médico e ela telefonou-me: “Isto é um atestado falso!”. E eu respondi-lhe: “Não, isso é o atestado mais verdadeiro que eu passei na minha vida! Ele não está em condições psicológicas físicas e psíquicas para fazer o teste”. Fomos às 6 da manhã para casa, ele não podia ir fazer o exame. Eu ainda fui operar para o Amadora-Sintra, com a camisola do Sporting…
E estava em condições para operar?
Estava só cansado. Ouça, de outra vez aconteceu-me estar a jantar com os meus irmãos – até a falar de coisas do nosso pai, era um jantar nostálgico, que puxava à bebida e ao fumo – e de repente recebo um telefonema a dizer que a GNR trazia um fígado do Porto e dali a duas horas estavam em Lisboa. O meu irmão levou-me a casa, tomei dois cafés, um banho quente e depois um duche. Fiz o transplante e correu muito bem. Era uma jornalista de Macau e ainda está viva. Foi há mais de 20 anos.
Voltando ao Sporting. Como nasceu essa paixão?
Eu via muito pouco o meu pai, ele foi para a Índia quando eu tinha um ano, e o que me lembro dele é o futebol.
Iam ao futebol juntos?
Sim, o meu pai fez-me sócio quando eu nasci, sou o sócio 461. Fui a tantos jogos com ele… Lembro-me de irmos ver um Sporting-Benfica, quatro golos do Lourenço – fomos para a lateral, o meu pai devia estar um bocado teso. A seguir fomos ao Nicola e o meu pai disse-me “o futebol é um jogo de inverno”. Depois percebi que isso era uma coisa que o meu avô dizia. Uma vez, na Tapadinha, chovia tanto que éramos os únicos que não abandonámos a bancada. Saímos de lá a escorrer, mas eu achava graça! O meu avô morreu no dia de um Sporting-Sporting da Covilhã. Era suposto ele vir-me buscar de táxi e não apareceu. Eu chorei de fúria, “O avô não cumpriu”, mas depois lá me disseram que o avô tinha desaparecido.
Disse que o seu pai foi para a Índia quando você era muito pequeno. Ia lá visitá-lo?
Íamos nas férias de Verão. A última vez foi no ano da invasão, 1961. A minha mãe dizia que o meu pai não queria que fôssemos porque ele tinha lá as suas vidas [risos]. 
Como era a viagem?
Íamos pela TAIP – Transportes Aéreos da Índia Portuguesa. 36 horas seguidas, Lisboa-Tunes ou Malta; Malta-Beirute; Damasco; Carachi; e Goa. Num DC4 de 36 lugares. Bururururu [imita o barulho do avião].
Tinha medo?
Tinha terror. O Solano de Almeida, pai de grandes pilotos da TAP, pilotava com a escotilha aberta e o cotovelo de fora, como se fosse a conduzir um carro. Às vezes o avião ia tão pesado que tinham de mandar as pessoas mais pesadas para trás para aquilo levantar. Eram umas cadeiras horrorosas... E depois não havia comida a bordo, parava-se para abastecer e comia-se nos aeroportos. Jantávamos sempre em Beirute, íamos à gare comer e voltávamos para o avião. Depois obrigavam-nos a aterrar em Damasco, mas era só para pagar uns carcanhóis. Lembro-me da primeira vez o meu a chegar aos saltos na pista.
O que fazia o seu pai na Índia?
O meu pai era médico de toda a gente, um monumental “tachista”.
Tachista, de tacho?
Sim. Chegava a ter quatro carros parados à porta dele para o levarem aos diferentes empregos – ao aeroporto, à embaixada… O meu pai era um homem especial, conservador, podia ter sido um médico brilhante, tinha muitas namoradas, jogava no casino. Como não guiava, porque tinha um problema de vista, um glaucoma, muitas vezes pedia ao último doente que lhe desse boleia para o casino. E morreu de enfarte depois de uma ida ao casino. Eu também gosto muito de jogar, está no gene. Quando ele morreu, fechámos a capela e fui para o casino, convencido que ia encontrar os tipos que vendem as fichas. O meu pai era médico deles todos. E eu presumia que tinha deixado dívidas. Já todos sabiam que ele tinha morrido e não houve um único que tenha dito que ele lhes devia alguma coisa, e eu tenho a certeza absoluta que havia dívidas. Nesse dia ele tinha perdido 2 mil contos, era impossível não haver.
Isso no Casino Estoril?
Sim. Nessa noite joguei os números dele: 0, 3, 7, 17, 27, 31. Gastei para aí 100 contos. Perdi tudo. Estava convencido que ia ganhar, mas perdi.
Quando foi a última vez que entrou num casino?
Entrei na Austrália, num congresso, mas há uns 14 anos que não entro para jogar. No outro dia fui ao Casino Lisboa, e temos lá dois croupiers transplantados ao fígado. Um deles, tenho a certeza que se ele lá estiver, a bola vai parar nos meus números. Quando acompanhei o Sampaio a Moçambique, fui ao casino no Polana, mas ir de propósito não. Foi uma promessa que fiz a mim próprio e a uma filha nossa que desapareceu, e tenho cumprido.
Qual foi o maior disparate que cometeu numa sala de jogo?
O dia em que perdi mais foi talvez no Algarve. Os meus filhos estavam a pedir uns ténis especiais e fui um mãos-largas. Eu não tinha o direito de perder 300 contos, ou coisa parecida, e estar ali com forretices. Eles tiraram a conclusão contrária: o pai deve ter ganho. O meu avô, em Macau, ganhou tanto uma vez que alugou um avião e voou para as ilhas da Polinésia. 
Alguma vez cometeu uma extravagância dessas?
Não, mas também já tive histórias giras. Entrei para os quadros dos hospitais de Lisboa com 29 anos, o que é uma coisa inacreditável. Éramos 62 candidatos e passávamos por três provas públicas. Eu era o mais jovem e fiquei em segundo – muitos dos que concorreram eram meus mestres e não ficaram. Nessa noite fui ao Casino Estoril com o Daniel de Matos, que é médico da presidência há 30 anos. Ele é testemunha disto: pus tudo no número dois e saiu o dois!
Na roleta?
Na roleta. De outra vez, na África do Sul, havia um secretário da embaixada, que hoje é embaixador, muito simpático, que soube que eu gostava de jogar blackjack.
Isso foi quando o seu primo estava a convalescer do acidente de aviação na Jamba?
Sim, uns 12 ou 13 dias depois de eu ter chegado. O casino era enorme, de forma que só uma parte é que estava aberta. Fui dar uma volta e vi roleta 23, que era o número da cama onde o João estava. E pedi 500 rands emprestados. Pedi para abrirem aquela roleta, eles abriram e pus tudo no 23. Vvvvvv [som da roleta a rodar]… 23! Fiquei rico! Tirei as fichas e não joguei mais. À saída pediram-me a identificação e eu não tinha nada. Mas lá explicámos e deixaram-me sair com o dinheiro, uns montes de notas. Deu para comprar colares de ouro e marfim para a minha mulher e a minha filha, e nem tive tempo de gastar tudo.
Quanto tempo esteve na África do Sul?
Dois meses. Fui chamado às 4 da manhã pelo meu tio, a dizer que o meu primo tinha tido um desastre de aviação, mas eu percebi de viação. Pus uns sapatos sem meias e vesti umas calças, acho que nem relógio tinha, e meti-me no carro. Às sete da manhã estava a embarcar para Frankfurt, sem passaporte nem nada. 
Deixaram-no embarcar sem identificação?
O meu tio era Presidente da República, caramba! Chegámos a Frankfurt e expulsaram umas pessoas da primeira classe para nós entrarmos. Eu parecia um pedinte: barba por fazer, sapatos sem meias. Mal chegámos fui para o hospital com a minha tia. Passámos pela cama do João e nem o conhecemos. Parecia um autóctone, estava muito inchado, com os lábios muito grossos.
Teve alguma intervenção na recuperação dele?
Foi das coisas bonitas que fiz, ele deve-me a vida. Aquilo é na altura em que o Mandela estava para sair da prisão. Tinha havido um êxodo de médicos. Quem tratava do João era um cirurgião pediatra, não havia um de adultos. Tive um papel decisivo. E mais não digo.
Costuma fazer o papel de médico de família?
Sim, agora temos mais uma prima, uma filha do João que é médica. Quando a minha tia [Maria Barroso] caiu, eu estava a jantar no Sete Mares. A Isabel telefonou-me e passado um quarto de hora estava em casa deles. Vi o grau da queda, percebi que tinha sido violenta mas ela estava muito bem.
É inevitável perguntar: como está o seu tio? 
O meu tio… [pausa] lá está. Enfim, não o tenho acompanhado muito agora, sobretudo em termos médicos, zangámo-nos. Desde o internamento no Hospital da Luz, aquela crise, em que infelizmente eu não estava em Lisboa e desde aí que não falamos sobre assuntos médicos. É um assunto tabu para os dois, porque queremos manter uma relação cordial. O que se passou foi muito grave e será um dia explicado.
Ao longo da sua carreira tem recebido várias distinções…
Sim, tenho a medalha de ouro do ministério da Saúde e duas condecorações. Mas essas não contam.
Porquê?
Do Mário Soares eu era sobrinho, não tem valor nenhum. O Sampaio trato-o por tu, é meu amigo – não tem valor nenhum. Gostava de ter tido uma do professor Cavaco Silva e ele também queria, mas alguém o informou que eu já tinha as outras e então fez uma coisa muito engraçada: exigiu que fosse eu a responder quando homenageou os transplantadores aqui há dois ou três anos. Mas essa ficou-me atravessada, porque me permitia dizer: “Esta é a prova de que não é por ser sobrinho ou por tratar o presidente por tu”. E agora até vou tratar outro [presidente] por tu. Por tu não, por “querido”... Fazia algum sentido, quando já estivermos os dois gagás, que ele me oferecesse uma comenda? Seria ridículo.
Refere-se a Marcelo Rebelo de Sousa. Já falou com ele desde que anunciou que é candidato à Presidência?
Ainda ontem almoçámos. Tive de lhe explicar isto [a saída do programa Prolongamento] em pormenor. Eu queria falar de outras coisas e ele divertidíssimo. Ria-se, com aqueles gestos. “Ahh!”. E sabe o que eu lhe disse? “Tu tens isto ganho por mérito. Não estragues”. Na minha opinião ele tem de ser igual a ele próprio. 
Estava à espera que Marcelo anunciasse a candidatura?
Diria que foi uma surpresa total. Soube duas horas antes. Ele telefonou-me e disse: “Olha, às seis da tarde vou fazer isto”. Eu até fiquei um bocado ciumento – porque sou ciumento. “Este malandro só me diz em cima da hora”. Gostava de lá estar na primeira fila, porque desde os meus dez anos que digo que ele vai ser Presidente da República. E afinal não foi ninguém com ele, nem família, e ele fez aquilo muito bonito.
Conhecem-se desde a escola primária?
Conhecemo-nos quando ele tinha 17 e eu 16 meses. Costumo dizer que não há pessoas vivas que ele conheça há tanto tempo como a mim. O irmão, o António Jorge, nasceu três anos depois – eu já lá estava! E o Pedro nem se fala.
O facto de ele ser do PSD não lhe provoca um conflito interior? 
Isto não é uma questão de esquerda ou direita. Nunca votei PSD na vida, acho que votei uma vez CDS por protesto, porque o meu tio era cabeça-de-lista para a Europa depois de ter dito que não se metia na política. Aqui não é esquerdas ou direitas. É escolher o contente, o generoso, o afectivo, o preparado, o professor, o incorrupto – tudo! É escolher a personalidade que eu adoro. Acho que o país ensandeceria se não escolhesse o Marcelo Rebelo de Sousa. E digo isto com algum cuidado, porque ontem apresentou-se à presidência da República uma mulher em quem eu votaria se não fosse o Marcelo. Se fosse contra qualquer outro candidato eu votava Maria de Belém.
Já fez uns dez elogios a Marcelo.
Faço todos.
E, conhecendo-o tão bem, que defeitos lhe aponta?
Às vezes fala de mais. Adoro o Marcelo. Mas às vezes nos meus anos ele toma conta da festa [risos]. Quando fiz 62 anos houve uma festa na tia Matilde, e eram só amigos muito chegados – 62 anos, 62 amigos. Ele arranca com um discurso que fez chorar toda a gente. “Habituei-me a acreditar nas pessoas porque conheci o Eduardo”. Fiquei tão comovido com aquilo!
Há quem diga que Marcelo também aprecia a intriga política.
Não gosto da política, não estou metido nessa parte da política. O que posso dizer é que temos 66 anos e 64 anos e meio de vida em que nos conhecemos. Nunca me fez nenhuma maldade. Foi solidário comigo, como eu fui solidário com ele nas alturas em que tivemos de ser, ajudámo-nos muito até em crises pessoais. Eu perdi uma filha, a que chamava a minha filha inglesa. Viveu vinte anos comigo. O Marcelo foi de uma solidariedade inexcedível. E também acompanhei a vida dele e as crises dele.
Quais?
As normais. Fomos separados, divorciados, reconstruímos a nossa vida. Desabafamos, falamos dos problemas, dos filhos… Ainda no outro dia tivemos na conversa na minha cozinha até às quatro da manhã, com a minha mulher a dormir sobre a mesa. Acompanhei as coisas dele. As vezes que a gente discutiu se ele devia ser candidato à presidência da República!
O que lhe dizia?
“Se não fores tens de levar duas chapadas”, esse tipo de coisa. “Se não fores por ter medo de perder vais ser um traidor a ti próprio “. Espicacei-o do pior, mas do pior mesmo! E faço o que posso para convencer as pessoas. Sinto que tenho a missão de provar que votar em Marcelo Rebelo de Sousa não é trair os nossos ideais de esquerda. Isto não é esquerda nem direita, é eleger a pessoa que acho que pode ser a melhor para o país. E sou um aval nestes 65 anos não tenho uma coisa a apontar.
Nas eleições autárquicas de 1989 teve de optar entre amigos: Marcelo de um lado e Sampaio e João Soares do outro.
Ainda ontem o meu primo João foi lá a casa e estivemos a recordar isso. Estava no Algarve a estudar e recebia dez telefonemas por dia. Aí não votei. Na véspera da eleição, o Marcelo jantou, foi jantar a minha casa, era só ele, eu e a minha mulher. Eu tinha acabado de mudar de casa e havia ainda coisas dos anteriores proprietários que davam um ar mais luxuoso – e ele dizia-me “a coisa está-te a correr bem. Mas sabes uma coisa que eu sinto, estou a ir da direita para a esquerda. Tive agora contacto com a realidade do país, estive em muitos bairros de lata, temos de ter uma preocupação social muito maior”. Depois dizia para mim: “E tu estás a ir da esquerda para a direita. Qualquer dia cruzamo-nos” [risos]. Nesse jantar disse-me outra coisa importantíssima sobre o debate que ele tinha tido com o Jorge Sampaio. Eu não tinha visto porque estava em África. “Tive uns gajos a aconselharem-me e levei um banho monumental. Eduardo, sê sempre igual a ti, não te preocupes se falares demais. Comete erros, mas nunca mudes”.
Anda a fazer campanha?
Só na brincadeira. Ainda agora perguntava aí: “Ouçam lá, quem é que votou na coligação?”. Fiquei surpreendido que estes malandros andaram-me a dizer que não votavam na coligação e depois votaram. Quando fiz a mesma pergunta há seis meses não se levantou uma mão. Agora perto as coisas já estavam mais equilibrado. Fiquei surpreendido com esta mudança.
 

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