13/4/21
 
 
Vieira do Minho. Desde que a Altice comprou a PT só se fala nesta terra

Vieira do Minho. Desde que a Altice comprou a PT só se fala nesta terra

Quando Armando Pereira comprou a PT e decidiu instalar call centers em Portugal, só fez uma imposição: que um deles fosse na sua terra natal, em Vieira do Minho. Está a funcionar há dois meses e os cerca de 60 trabalhadores recebem no final de Outubro o primeiro salário, já com contratos assinados e depois da formação. Vão ser 120 ou mais. A vila já é outra e as pessoas também.

Em Vieira do Minho só se fala francês. “Isto agora é só avecs por aqui acima”, dizia alguém na brincadeira. Chegam da vila, das freguesias vizinhas e até de França. O centro de camionagem onde está instalado o centre d’appel da Altice é a alegoria perfeita, com autocarros que entram e que partem, agora mais vazios do que antes, com destino a outras paragens, tantas vezes para lá da fronteira. E o andar de cima, feito esqueleto com o passar do tempo e a saída das gentes, ganhou nova vida e espalhou ânimo pela terra, tão bonita quanto pobre.

Coincidência ou não, há três ou quatro vencedores do Euromilhões em Vieira do Minho, gente da vila que ficou rica e a quem os bombeiros voluntários pedem ajuda. “Podiam contribuir com alguma coisa, não era? Mas são os mais agarrados, enquanto esse senhor da Altice vai oferecer uma ambulância para o transporte de doentes”, conta Rui Vieira, telefonista no turno da noite no quartel local. “É mesmo uma pessoa cinco estrelas, devia haver mais gente assim.”

Antes, poucos sabiam quem era Armando Pereira, mas desde o início deste ano não se fala noutra pessoa. Virou super-herói quando, em Fevereiro, comprou a PT Portugal através da empresa francesa. Ele – como a vaga que ainda agora saiu – emigrou para França aos 14 anos de idade, à procura de uma vida melhor. “Enricou”, como por ali se diz, e veio investir parte desse dinheiro na terra onde nasceu.

Essa foi, aliás, a única condição que impôs à Randstad, a empresa contratada para abrir os call centers do grupo em Portugal. “Um teria de ser em Vieira do Minho”, diz Miguel Azevedo, branch manager da companhia. E este foi o Euromilhões que saiu ao concelho. Pelo menos é esse o sentimento daqueles cujas vidas, por um ou outro motivo, mudaram da noite para o dia.

Foi assim com Adelaide Ribeiro, que aos 55 anos teve o seu primeiro emprego. E um divórcio. “Fui para França com sete anos de idade e voltei com 19, fiz lá a escola até ao nono ano, que na minha altura já era um bocado. Voltei para Portugal e casei muito nova, 20 anos. Foram 35 de casamento”, conta. “Cheguei a esta idade, discórdias, divórcio. Em Portugal, sabe como é, não há pensões de alimentos para a esposa. Tinha de fazer qualquer coisa para ganhar a minha vida. Mas não era só isso.”

Foi o marido, há um mês ex-marido, da PSP, que a candidatou à Altice. Quando foi chamada tinha ido passar uns dias a França, para o pé da família, e uma afilhada foi saber pormenores no seu lugar. “Era preciso falar francês” – até aí tudo bem, mas o problema era a informática. “Não tinha grandes luzes, não nasci com um computador nas mãos como eles nascem agora, não é?! Mas depois, quando fui à entrevista, a Alexandra [coordenadora] disse-me que o francês é mais complicado de aprender do que manipular o rato.”

É que este call center dá apoio a “fregueses” que estão em França, clientes de uma das empresas do grupo Altice, a SFR, uma operadora equivalente à MEO, com serviço de telefone fixo, móvel e internet. Pessoas que não fazem ideia de que estão a falar com um assistente em Portugal. Nada muito diferente do que acontece quando alguém em Lisboa liga para a PT a pedir uma informação e é atendido por uma assistente num call center em Cabo Verde.

Por isso, ali é fundamental saber francês, afirma Miguel Azevedo. “Temos gente fluente e temos nativos.” Mas também há os médios, “chamamos--lhes os ‘je m’appelle/j’habite’. São os que acreditam que sabem falar francês e que, quando lhes perguntamos o que sabem, invariavelmente respondem: ‘Je m’appelle Maria, j’habite à Vieira do Minho’. Claro que as bases estão lá, mas é preciso dar-lhes muita formação”.

Adelaide entrou logo na primeira vaga. “Deram-me uma chance que foi a minha salvação, porque eu não sei onde poderia ter ido arranjar um emprego tão bom. Fiz as formações, a camaradagem é espectacular, adorei isto. E só pensava porque é que não comecei a trabalhar mais cedo. E disse para ele: ‘Olha lá, tu agora mandas-me trabalhar, porque é que não fizeste isto antes?’”

Adelaide já consegue rir. Mas houve tempo em que sofreu. “Não tinha cabeça, não tinha maneira de me concentrar, estava muito chocada. Foram muito compreensivos aqui na Altice. E eu dizia: ‘Vocês vão andando que eu apanho-vos em caminho.’” E apanhou. Hoje, Miguel Azevedo diz que esta é uma funcionária-modelo, uma espécie de embaixadora do projecto. “Mas chorei muitas vezes. Comecei pelas vendas. Antes do serviço de apoio ao cliente fizemos um serviço comercial de venda de um antivírus. E eu dizia a mim própria, és uma incompetente, não vais conseguir. E depois dizia, vais, vais, tens os filhos a apoiar, os amigos a apoiar, todos a apoiar. Sabe, eu venho trabalhar com alegria. Mas claro que não é tudo cor-de-rosa.”

E não é. José Gonçalves sabe isto muito bem. Até 1998 andou cá e lá, entre França e Portugal. Nasceu lá, em La Tronche, Grenoble, de onde veio com cinco anos e para onde voltou aos 13, sem vontade nenhuma de largar os amigos e tudo o que conhecia. Quando regressou, foi trabalhar como padeiro/pasteleiro, “uma profissão que sempre me encantou”. Mas depois foi para a construção civil e teve um acidente que o deixou paraplégico, “vai fazer no dia 13 deste mês 14 anos”.

O acidente foi uma queda de 2,5 a 3 m num alçapão onde viriam a estar umas escadas. “Recuei, caí e bati com a coluna. Tracei a medula numa pedra que estava lá em baixo”, recorda. Tem 36 anos, dois filhos, um com dez e uma com quatro anos, e não mora na vila mas é ali que a mulher trabalha há 15 anos. “É agente de viagens, trabalha com quase todas as famílias de Vieira do Minho”, diz. Fez o 12.o ao abrigo das Novas Oportunidades mas, numa cadeira de rodas e num lugar onde a emigração ainda é rainha, sobrava-lhe o voluntariado, que é o que tem feito nos últimos seis ou sete anos na freguesia de Guilhofrei. Isso e uma pensão de invalidez vitalícia. Valia à família o ordenado da mulher.

Quando apareceu a Altice, não pensou duas vezes. O francês estava lá e a informática não era um problema: “Uma das coisas que fiz ao longo deste tempo foi passar arquivos de papel para PC.” Inscreveu-se. Diz que deve ter sido quem telefonou mais vezes a perguntar se tinha ou não sido aceite. “Pensei que estava a demorar muito tempo. Telefonava a perguntar: ‘Porque é que não me escolheram?’ E diziam-me para aguardar mais uns dias.”

Tal como Adelaide, José estava, afinal, incluído no grupo dos primeiros 42 a entrar para o call center da Altice. E também ele começou por vender antivírus e passou pelas seis semanas de formação. Passam todos e esse é, talvez, o tempo mais difícil, porque estão sem receber.

Miguel Azevedo explica que a formação é feita em conjunto com o IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional, de acordo com as necessidades apontadas, e também por formadoras que vêm de França, de uma outra empresa contratada pela Altice para o efeito. E aqui está parte da arte do negócio. “A formação só é paga no fim e é preciso manter os potenciais colaboradores motivados.”

Este branch manager começou como assistente e fala nos “papa-formações”, que saltam de empresa em empresa, num mercado bastante concorrencial. “As empresas fazem um grande investimento em recursos humanos e têm de encontrar formas de segurar as pessoas. Pagar-lhes no final é uma maneira. Há pessoas que só se motivam com dinheiro, aqui não foi preciso tanto.” Os números indicam que a taxa de perda ronda os 25%. Ali, foi zero.

Entre assistentes, supervisores, técnicos de qualidade e formadores, estão actualmente no call center de Vieira do Minho 72 pessoas. Numa primeira fase poderão chegar a 120. Na sessão de esclarecimento realizada pela Randstad na câmara, em Fevereiro, apareceram cerca de 400 pessoas. 

Adelaide e José não conhecem Armando Pereira pessoalmente, apenas de vista. “Só o vi outro dia, na inauguração. Ele é de Anissó, eu sou de Cantelães. Agora sou de Vieira do Minho. Não o conheci, porque saímos por último, estávamos a trabalhar. Se o visse ia dizer-lhe: ‘Ó senhor, muito obrigada, salvou o resto da minha vida.’ Que espero que seja outro tanto”, ri Adelaide.

Diz que “o dinheiro é essencial, a gente tem de viver”, mas não é tudo. “O dinheiro que venho ganhar aqui, para quem praticamente nunca ganhou um salário, é uma fortuna. No fim deste mês é que vamos ganhar o primeiro salário, o mínimo nacional mais um cartão-refeição com 114 euros, que eu preciso de vitamina. Estou muito contente. Antes de vir para aqui punha-me a pé e chateava-me, chateava-me, chateava-me. Era uma vidinha triste, sem rumo, de cismas na cabeça. Agora não penso no que não devo, concentro-me no que devo e a semana voa. Quarta-feira estou de folga, vou fazer umas comprinhas [risos], agora já posso. Vou comprar sapatos e ver as minhas amigas. Depois, domingo, preguiça”, prevê. Além do salário, o emprego deu a Adelaide uma perspectiva.

“Sou outra pessoa, rejuvenesci dez anos, emagreci 15 quilos. Agora acho-me útil, sinto-me útil, já não sou aquela parasita, entre aspas, que andava lá por casa a arrastar os pés. Sou uma pessoa que trabalha, que se sustenta. Nunca pude imaginar que uma coisa destas [o divórcio] me acontecia a mim, é sempre aos outros, como os acidentes de viação. Achamos que o caminho está traçado e, de repente, percebemos que há muitas bifurcações.”

José teve a oportunidade de trabalhar em troca de um salário pela primeira vez desde que teve o acidente e pode agora ser ele a sustentar a família. Sobre Armando Pereira, sabe o que se diz. “O meu sogro e ele foram criados juntos na mesma quinta, da qual ele hoje é proprietário.

Ele conta que eram todos pobres, mas ele era capaz de ser dos mais pobres. E desconhecia que tínhamos alguém assim na terra, completamente.”

Não era só José que desconhecia este facto. Armando Pereira era um perfeito desconhecido para a maioria das pessoas da terra. Era um entre tantos emigrantes num concelho que já teve perto de 19 mil habitantes e que hoje ronda os 12 mil. E assim continuaria, não fosse ter feito fortuna, hoje avaliada, diz-se (e não foi desmentido) em cerca de mil milhões de euros.

Mas em Vieira do Minho do que se fala não é dos milhões do sócio da Altice. Fala-se dos empregos que pretende criar, da propriedade onde cresceu pobre e que já comprou. “E que, por acaso, em Julho ou Agosto sofreu um pequeno incêndio, que tivemos de ir apagar, mas foi uma coisa pequena, nada de grave”, conta Rui Vieira, o bombeiro voluntário que faz biscates nas horas vagas.

Fala-se da construção de um hotel e de um campo de golfe, um investimento de 100 milhões de euros que dará emprego a 200 pessoas. E do call center, que já está a mudar a vila.

Na Pastelaria Da Nova II, aberta desde 2006, Florbela Gonçalves diz que o movimento aumentou tanto que tiveram de contratar mais uma pessoa para ajudar nos almoços, porque “não temos mãos a medir”. Mas melhor do que isso é a animação. “O dinheiro traz trabalho e o trabalho traz felicidade”, diz, com os olhos azuis a brilhar.

A lanchar, o clínico geral Manuel Leite conta que são oito médicos no centro de saúde para todo o concelho. Faltam dois. E concorda com Florbela, o call center da Altice veio dar vida à vila: “Então não vê?”, diz, apontando para a fila de automóveis estacionados dos dois lados da estrada. “Isto antes estava tudo vazio.” Sobre os pacientes que atende, “não há novos, só velhinhos, velhinhos, velhinhos”.

Agora há esperança. Para Max Rodrigues, que tem dupla nacionalidade e vem todos os dias da Póvoa do Lanhoso com dois amigos, ora no carro de um, ora no carro de outro. Para Diana Sousa, que fez 18 anos e está a poupar para pagar a sua carta de condução. Para Lídia Vilaverde, que aos 48 anos teve coragem para arriscar trocar de emprego.

“Neste momento, os empregos não são estáveis”, diz. “Estive em França de 70 a 89 e voltei porque o meu pai teve um problema de saúde. Fui trabalhar para as Pousadas de Portugal, onde estive todos estes anos até Junho, na Pousada de São Bento.

Quando ouvi dizer que iria haver aqui um call center francês, pensei logo que adoraria trabalhar lá.” Lídia foi ganhar menos, mas o que perdeu em dinheiro ganhou em tempo para a família. Tem quatro filhos, o mais velho com 20, na universidade, a estudar Gestão, outro com 12 e duas gémeas ainda pequenas.

“Trabalhava aos fins-de-semana, feriados e, quando os filhos estavam de férias, no Verão, era quando trabalhava mais. Joguei-me nesta aventura. Na minha idade, não teria para onde ir. Trabalho das oito às 15h – o call center funciona entre as 7h da manhã e as 21 horas –, vou para casa ter com os meus filhos, janto com eles, coisa que fazia raramente. Nos dois primeiros meses, Julho e Agosto, foi mais difícil, sem ganhar. Agora já assinámos os contratos e esperemos que paguem sempre assim, direitinho.”

Este, em Vieira do Minho, é apenas um dos call centers da Altice em Portugal. Já são cinco: Guarda, Castelo Branco, Amarante e Fafe. Ainda este mês vai abrir o sexto, em Lamego, que já está a ter a ajuda de alguns colaboradores de Vieira do Minho. Até 2017, o compromisso da Altice é, segundo Armando Pereira, criar 4 mil postos de trabalho.

Miguel Azevedo explica como é feita a escolha dos locais. “Em primeiro lugar, a Randstad analisa todas as cidades ou locais onde há potencial de língua francesa, e isso é avaliado pelo efeito da emigração, que se faz sentir mais no norte do país. Entramos em contacto com o IEFP e com as câmaras e realizamos sessões de esclarecimento em que explicamos quem somos, o que queremos e as condições que oferecemos.

Nestes casos, a vontade é um handicap importante.” E não deixa de ser interessante ver como estas pessoas estão agora a conseguir emprego pelo facto de terem emigrado há anos. Mas, como dizia a tal senhora, “um destes dias, em Vieira do Minho só se fala francês. É só avecs por aqui acima”.

O José, outro dia, atendeu uma senhora Magalhães. E quando confirmava o seu nome, “Magalhães, Fátima”, para preencher a ficha de cliente, esta perguntou-lhe se ele era português. Respondeu-lhe que sim, mas não lhe confessou que não estava em Paris. “Sabe como é, xis postos de trabalho criados fora de França são xis postos de trabalho que não vão para franceses.” Mas falar em português é coisa raríssima. Até as despedidas, ainda em casa, já se fazem em francês, “para criar embalagem para atender o primeiro cliente do dia”.

Adelaide diz que quando chegou a Portugal, aos 19 anos, “pensava em francês e sonhava em francês, mas tentava falar português o mais possível. Agora, no meio da conversa, lá fora, saem-me palavras em francês e já estou a sonhar em francês outra vez”. Em Vieira do Minho, até o sonho passou a ser realidade. “É só avecs por aqui acima.”  

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