15/6/21
 
 
Migração. A “máquina do juízo final” ia parir um novo caminho mas nada mudou
“Toda a gente nos tratou muito bem. Queremos agradecer a todos. Vais escrever isso em Portugal?” Aqui está, Zabih

Migração. A “máquina do juízo final” ia parir um novo caminho mas nada mudou

O mapa-mundo foi embrulhado e atirado para este trecho de terra batida com 300 metros, terra de ninguém entre a Sérvia e a Croácia por onde passam cinco mil pessoas a cada 24 horas.

Zabih é a adulta mais nova do grupo, mas é ela a porta-voz. Fala um inglês quase perfeito. Não lhe falta nada no vocabulário e quer explicar tudo, desde porque é que fugiu com a família de Cabul até quanto tiveram de pagar por cada viagem. Decidiram partir há alguns meses, mas esperaram até Setembro para que a bebé M. ficasse maior, para que a mãe dela, cunhada de Zabih, recuperasse do parto. Estão há 28 dias a saltar de país em país. Foram do Afeganistão até ao Paquistão porque não podiam atravessar o Irão. De Islamabade seguiram a pé durante vários dias até à costa do mar Arábico. Atravessaram o golfo Pérsico num pequeno barco de pesca para desembarcarem no Iraque. “Íamos no porão e, a dada altura, começou a alagar. Foi quando tive mais medo. Mas um dos nossos companheiros era pescador e sabia fazer remendos, deu para chegarmos à costa. Estávamos encharcados, perdemos a roupa toda”, conta, enquanto as duas meninas e o rapaz mais pequeno sorriem com bigodes de iogurtes oferecidos à entrada deste campo de trânsito. Já têm galochas novas e a bebé M. meias e um gorro branco de lã.

No Iraque pararam em quatro cidades até chegarem à Turquia. Descansaram em Uran, daí partiram para Ancara, depois para Istambul e até Salónica, já na Grécia, porque sabiam que a Bulgária construiu um muro a separá-la da Turquia. Há dois dias estavam em Preševo, cidade sérvia na fronteira com a Macedónia, onde pagaram 35 euros cada para embarcarem para aqui: Zabih, o irmão Benafsha (que “no Afeganistão era jornalista da televisão pública”, conta a irmã com orgulho), a bebé M., pendurada no marsúpio que o pai carrega, a mãe de M., escondida entre os lenços para se abrigar do frio, os três miúdos e a avó deles, que sorri complacente – só sabe falar farsi. Estamos em Šid, a última cidade sérvia antes da Croácia. Uma bandeira da União Europeia balança ao vento já ali à frente. Duzentos metros antes, uma tabuleta virada para a fronteira dá as boas-vindas a quem entra na Sérvia. O chão que pisamos aqui, entre uma bandeira e um sinal, entre um adeus e uma espécie de olá, não pertence bem a ninguém. 

Zabih e a família, como a maioria dos que aqui passam, querem ir para a Alemanha. “A nossa irmã e um primo vivem lá há muitos anos, em Munique, mas não nos importamos de ir para outra cidade.” A bebé M. vai fazer um ano no sábado, a festa de aniversário já vai acontecer dentro da União Europeia. É Zabih quem conta tudo isto, entre meia centena de pessoas divididas em duas filas. É um de dezenas de grupos de 50 pessoas que, durante todo o dia, são “trocados” entre a polícia sérvia e a polícia croata, um esquema bem montado. O agente do lado de cá observa tudo com um ar plácido, enquanto voluntários checos, sul-coreanos, alemães, polacos e australianos gerem estes 300 metros de passagem. Um voluntário grita por mais duas pessoas para completar o grupo, mas a meia dúzia que ali está não quer ir. “Confiem, daqui a pouco já se reencontram no campo.” Ninguém confia. Dois adolescentes iraquianos hão-de aparecer a correr vindos das tendas da roupa e de chai, a bebida que cheira a lar e que aquece o corpo e o coração. Juntam-se aos que aguardam e partem todos a dizer adeus e chukran (obrigado). 

Vai a família de Zabih, vão três irmãos somalis que nos sorriem com os dentes todos, vão iemenitas, eritreus, curdos iraquianos… Zabih quer dizer uma coisa antes de se despedir. “Toda a gente nos tratou muito bem. Queremos agradecer a todos. Vais escrever isso em Portugal?” Aqui está, Zabih. “Como se diz ‘boa sorte’ em farsi, Zabih?” Rimos todos porque não conseguimos repetir. Os jornalistas não podem atravessar a fronteira, não por aqui. A cada grupo que passa, os que ficam observam as pessoas com novas roupas e novas cores a aproximarem-se dos dois polícias croatas que lhes abrem a cancela. Um menino olha para trás antes de abandonar a Sérvia, é o único que o faz. A mãe afaga-lhe a cabeça, como que a dizer-lhe que o passado fica aqui, o caminho é em frente.

Lucro e desespero Quase todos os que aqui passam vêm de Belgrado ou de Preševo em autocarros. Nos vários pontos das viagens, há quem venda bilhetes ou água ao preço justo; outros inflacionam os preços para lucrar, chegam a cobrar sete vezes mais por garrafas de meio litro ou por viagens de algumas horas. Cada pessoa tem uma história. Zabih teve a sorte que outros não tiveram. Uma família de iranianos que entrou na Bulgária pela Turquia foi obrigada a dar as impressões digitais, o pai espancado pela polícia à frente da mulher e dos três filhos pequenos. A lei de asilo dita que os refugiados se registem no país onde chegam, que dêem o primeiro e último nome e o país de origem, mas não que cedam os dedos; isso é para onde quiserem ser acolhidos e onde os queiram acolher. O polícia que está hoje de turno em Šid é simpático, mas dois iraquianos conheceram outros polícias sérvios que usaram tasers e lhes roubaram o dinheiro todo nas margens do rio Tisa, quando os irmãos tentaram entrar na Hungria longe dos olhares das autoridades. A Hungria já engordou o historial de abusos, mas também há quem fale de um ou outro agente húngaro “tão doces” que fazem o que podem para ajudar os refugiados.

Assim contam muitos dos voluntários que aqui estão agora, vindos de outras fronteiras da região por onde, desde Janeiro, já passaram centenas de milhares de pessoas comuns que, de um momento para o outro, perderam a normalidade e a paz dos dias. Depois de a Hungria ter fechado a fronteira com a Sérvia, a maioria dos refugiados optou por esta rota alternativa. Nos primeiros dias de passagens em Šid, exaltaram-se os ânimos entre a Sérvia e a Croácia, arqui-rivais desde a guerra dos anos 90. Zoran Milanovic, o chefe do executivo croata, acusou os sérvios de estarem “a mandar” dezenas de milhares de pessoas para o seu país. Disse Milanovic que o governo sérvio de Aleksandar Vucic enviou para a Croácia 78 mil “migrantes” entre 15 de Setembro, quando a Hungria forçou o êxodo em massa de Horgos e Szeged para outras bandas, e 28 de Setembro. Dias antes do balanço, o primeiro-ministro croata tinha ordenado a suspensão das trocas comerciais com o país vizinho e avisado Vucic de que qualquer retaliação seria um ataque à UE. “É ridículo, até dá vontade de rir, a Croácia está na UE para aí desde ontem”, comentava há alguns dias Milos, um voluntário sérvio a ajudar os refugiados no centro de Belgrado. Ontem leia-se 2013. Para um dia fazer parte do mesmo clube, a Sérvia já implementou várias reformas, entre elas aprovar uma lei de asilo semelhante à Convenção de Dublin. Dantes, até 2008, não havia regulação.

Depois de dias de acusações e ameaças, uma acalmia. A Croácia voltou a abrir a fronteira e a transportar refugiados daqui até um campo nos arredores de Tovarnik. É para lá que vão todas as pessoas que passam por Šid. Na segunda-feira foram 4700. Na terça, 4100; na quarta, 4050. Hoje ainda não há saldo de passagens, mas deverá rondar o mesmo. Os autocarros param para largar as pessoas, que entram no caminho de ninguém num misto de cansaço, receio e alívio. Há tendas de médicos, tendas com pensos higiénicos e toalhitas de bebé, tendas com snacks e água, outras de roupa, uma banquinha de chai. A zona para as crianças é a última, montada ao lado de uma tabuleta onde alguém escreveu “Croácia – 150 metros”. Quem sabe falar inglês pergunta para onde vai. Todos querem garantir-lhes que o pior já passou, mas não conseguem obrigar--se a dizê-lo. Ninguém sabe o que os espera do outro lado.

Passa-se alguma coisa A meio da tarde, há um hiato de hora e meia sem novas chegadas. É tempo de fumar cigarros, arrumar as tendas, descansar um pouco. Iva, uma fotógrafa checa da agência Panos Pictures que veio de cobrir a guerra no leste da Ucrânia, guarda a máquina na mochila para varrer o caminho e recolher o lixo. Veronika, uma checa dócil e nervosa, oferece cigarros sérvios a toda a gente e questiona-se sobre a falta de humanidade de alguns. “No meu país também não é nada fácil, quem vai para lá é metido numa prisão, é um centro de asilo mas parece uma prisão. E agora inventam regras estúpidas para os refugiados, como proibi-los de fumar cigarros. É isto que faz o meu país, que tem a taxa de alcoolismo mais alta da Europa mas que se sente no direito de dizer que eles não podem fumar!” Discutimos a propaganda espalhada pelas redes sociais, a forma como quem tem poder o exerce gratuitamente sobre quem teve de pegar nas poupanças, deixar a casa e partir para o desconhecido.

Uma voluntária alemã discute com um fotógrafo brasileiro. Há uma hora, enquanto ele fotografava quem chega a esta fronteira, ela disse-lhe que os refugiados são pessoas. “Tu não sabes se eles querem ser fotografados e nem sequer lhes pedes permissão.” Ele começou a berrar-lhe que ela não lhe dissesse como trabalhar, que o que ele faz é captar instantâneos e que ela não sabe do que fala. Ela repetiu que estas pessoas são pessoas, incomodada com o facto de ele não respeitar a dignidade que lhes resta. Ele berrou ainda mais alto. “Diz à Merkel que pare de bombardear a Síria e o Iraque e estas pessoas já não têm de fugir. Diz à tua presidente.” Acha que saiu vitorioso. Ela põe-se à frente da máquina para o impedir de fotografar. Agora que não está a chegar ninguém, ela pinta um novo cartaz onde se lê: “Esta é uma zona segura. Nenhuma fotografia sem autorização.” Ele vai ter com ela para lhe dizer que é ridícula. Ela não chega a reagir porque dois voluntários vêm a correr da fronteira croata. “Passa-se alguma coisa.”

Um novo caminho? Todos correm para espreitar, no momento em que do nosso lado chegam mais dois autocarros. Começou a chover e o frio entranha-se pela roupa. Enquanto se distribuem capas impermeáveis e mantas aos que aterram, alguém comenta que chegou “a máquina do juízo final”. Há pouco, os dois agentes croatas pediam a um voluntário deste lado da fronteira que lhes tirasse uma fotografia. Agora tiram do caminho a tenda que os protege da chuva. Abrem espaço para uma máquina monumental, que vem cortar as árvores de um lado e de outro. Ninguém sabe o que se passa. A máquina avança com um barulho ensurdecedor em direcção às tendas, toda a gente tira coisas do caminho enquanto Robi, uma espécie de capataz do polícia sérvio, se gaba de que já sabia que isto ia acontecer desde a noite anterior.

Começa a correr o rumor de que, durante a manhã, as autoridades sérvias e croatas enterraram o machado de guerra e decidiram finalmente cooperar. Que a máquina está ali para abrir um novo caminho por onde possam passar autocarros. Assim, os refugiados já não têm de ir a pé até ao campo de Tovarnik. A alemã que há pouco discutia com o brasileiro lamenta o que está a acontecer. “Sou uma activista ambiental, isto dá-me dó”, diz enquanto vê as árvores serem arrasadas pela máquina do juízo final.

Tentamos perguntar ao polícia o que se passa ao certo. “Fala inglês?” “Um bocadinho.” “Isto foi um acordo entre a Sérvia e a Croácia?”, perguntamos a apontar para a retroescavadora. Ele ri-se a dizer “não esse inglês”, sem perceber uma palavra ou talvez sem admitir que percebe. Iva está desconfiada, diz que se fosse só para os autocarros poderem passar não era preciso arrancar árvores, só apará-las. Questionamos se o método escolhido não será só para acelerar o processo. Mais autocarros continuam a chegar, quem sai deles quer avançar e não entende o que se passa. Ninguém entende. Ao longo de uma hora, a máquina ceifa árvores enquanto o caminho fica sobrelotado. Crianças tiritam, mulheres agasalham-se, homens trocam os chinelos e sapatos por galochas.

Um homem enorme, de tez morena e barba preta por aparar, passeia-se entre as pessoas, não estava aqui antes. Estende a mão a toda a gente com uma manta às costas, chama-nos a atenção quando larga olás. “É de onde?” “Sou do Peru, mas vivo aqui na Sérvia com a minha mulher há sete anos.” Quando lhe dizemos que somos de Portugal, começa a falar português e grita pela mulher. “Claudiceia, portugueses!” Claudiceia vem a correr para nos presentear com abraços e com o mesmo guia que, com o marido, Manuel, distribui aos refugiados. Está em árabe. “Os meus filhos vivem em Braga! Nós viemos do Peru viver com esta amiga para Bačka Topola”, uma cidade a cerca de 70 quilómetros da fronteira com a Hungria. “E o que dizem estes panfletos?” “Somos evangélicos e queremos só dizer a estas pessoas que Deus está com elas, que Deus lhes quer bem, que Deus as vai proteger de todos os males, porque Deus protege toda a gente.” Iva olha desconfiada para o casal fluente em português, suspeita que tenham vindo distribuir propaganda religiosa.

Claudiceia não se incomoda. “Estas pessoas somos nós. Dantes estávamos em Horgos, mas depois a Hungria fechou a fronteira, então agora vimos a Šid todos os dias. Temos roupa e comida no carro, mas aqui está tudo tão bem organizado que estamos a guardar isso para quando faltar alguma coisa. E sabes, estas pessoas às vezes nem querem nada destas coisas materiais, só querem isto.” Ao dizer isto, abraça-nos e sussurra-nos que tudo vai ficar bem. “É isto que eles querem, um toque, um carinho. É isto que toda a gente quer.” No meio da chuva e do frio, o abraço é quase tão medicinal como um chai. 

A máquina continua a lavrar. A incógnita mantém-se. Será que amanhã os refugiados vão ter a vida mais facilitada neste pedaço de terra, a porta de entrada para o sonho europeu? Quando o novo dia chega, o caminho já está diferente, mas tudo o resto continua igual. Estão a chegar mais autocarros do que nos dias anteriores e prevê-se que à noite vá ser ainda pior. Agora, do outro lado, ao pé da bandeira azul com as estrelas do céu europeu, estão a faltar autocarros. Iva diz que ouviu dizer que “a Croácia agora está a mandar os refugiados de volta para a Hungria”. Quem chega a Šid pergunta para onde vai e ninguém consegue obrigar-se a dizer-lhes que vai tudo correr bem. Só Claudiceia.

 

Esta reportagem foi feita no âmbito do projecto “Aquele Outro Mundo que é o Mundo”, promovido pela ACEP, CEsA,seisXX e Coolpolitics, com o apoio do Instituto Camões e da Fundação Gulbenkian.

Ler Mais


Especiais em Destaque

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×