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João Miguel Tavares. “Não sei se algum dia deixei realmente de ser ateu”

João Miguel Tavares. “Não sei se algum dia deixei realmente de ser ateu”

Marta F. Reis 11/10/2015 11:44

Continuação.

O que mais acha incompreensível?

Ainda agora houve uma alteração básica: os irmãos terem prioridade nas escolas. Atenção: eu não posso dizer que sou liberal e depois querer todo o apoio do Estado para ter filhos. Agora a rede pré-escolar é uma vergonha e há outras pequenas coisas que ajudavam.

Por exemplo?

Diz-se que a saúde é gratuita mas a maior parte das pessoas tem de pagar para ir ao dentista. Não acho que deva existir abono de família para toda a gente, só para quem precisa. O que devia haver para toda a gente é os filhos passarem a valer mais no IRS. O facto de termos de ter carro para seis pessoas ser tido em conta no valor no selo. E no IMI. Não é igual ter uma casa como eu tenho de 200 metros quadrados para quatro filhos ou para viver sozinho.

Mas é por isso que não nascem mais crianças?

Claro que não, se fosse em África nasciam menos do que cá. Não é que não ajude, por alguma coisa França inverteu os indicadores. Mas acima de tudo acho que as pessoas não têm mais filhos porque a vida é impecável sem eles.

Mas não é melhor com os filhos?

Não é fácil responder a isso. É bom ter filhos? É incrível. Mas uma pessoa pode ser felicíssima sem eles. Quando chegas aos 40 ou 50, os filhos são um consolo: começas a ver que tens menos tempo para a frente do que para trás, há mais proximidade da morte e as crises existenciais que daí advêm e os teus filhos ajudam-te a encontrar o teu lugar no mundo. Agora nos 20 ou nos 30… Desde que tenhas uma vida e ordenado minimamente razoável, vamos mas é viajar e conhecer restaurantes. Com os filhos deixas de poder fazer isso e essa vida é magnífica. Mas eu sou sempre o gajo um bocado egoísta que acabou com quatro filhos sem saber bem como. Mas claro: adoras os teus filhos.

Foram planeados?

Nenhum foi. Por isso é que pensam que sou da Opus Dei. Foram aparecendo, só quer dizer que somos descuidados.

Mas qual foi a reacção do João Miguel egoísta ao primeiro, honestamente?

Fiquei contente. Entre os meus defeitos, tenho uma qualidade. Até hoje tenho acolhido bem o que me acontece. O que tem de ser tem muita força. A partir do momento em que a Teresa está grávida é para nascer uma criança. Esse lado de estares disponível e não te martirizares demasiado com o que a vida te traz é uma coisa boa. Claro que sempre dissemos que queríamos ter filhos, mas se calhar tínhamos pensado em ter mais tempo de “solteiros”.

A fama mudou-o mais do que os filhos?

Eu não sou famoso.

Tem um lugar mediático.

Faço um programa com o Ricardo Araújo Pereira, sei o que é ser famoso. Quando temos público, é só a ele que pedem autógrafos. Claro que na rua às vezes conhecem-me mas não sinto esse peso e ainda bem, não ia gostar nada.

Mas era um desejo ser mediático?

É-se famoso porque reconhecem o teu trabalho e nesse sentido sim. Agora se me perguntarem se gosto muito de fazer o “Governo Sombra”, gosto, por aquelas pessoas, mas não gosto muito de estar na televisão. Acho-me bem melhor a escrever.

Este território entre jornalismo, crítica e humor é fácil de gerir?

Sim.

Mas não dá para voltar para trás.

Sim, mas eu jamais quereria voltar para trás. Não sei, podia ser editor de cultura. Só me senti desconfortável quando fui editor de Sociedade no DN e já era colunista. Não é fácil, sobretudo com o meu estilo. Há pessoas com um estilo mais redondo, descomprometido, mas eu sou um gajo de direita e não ando a fingir neutralidades.

E entrar no registo do humor foi fácil?

Para mim os melhores sempre fizeram isso. O Eça, o Machado de Assis. Sigo essa regra de um texto bem fundamentado e humor inteligente até nos livros infantis, que é talvez aquilo de que mais me orgulho. Provavelmente já vem do meu pai, que é um indivíduo divertido, bem disposto e gozão. É daquelas terras em que o homens à noite iam para taberna basicamente picarem-se uns aos outros e apanhei isso.

No caminho para o mediatismo, Sócrates e o processo que lhe moveu por dizer que ele não tinha credibilidade para falar de moral na política foi um marco.

Sim, foi. Acho a personagem de Sócrates fascinante. Nele e nas reacções a ele está o reflexo de Portugal e mais os seus defeitos que as suas qualidades. E não é que haja um mérito muito extraordinário nisso, mas foi uma coisa que eu vi desde muito cedo. Não fui só eu mas ainda hoje me espanta como é que tanto colunista não viu e a maneira como foi defendido com a história da presunção de inocência. A figura jurídica de presunção de inocência faz sentido no espaço da justiça mas não pode ser importada como categoria pura para o espaço público. Isso significaria que só se poderia falar de qualquer assunto dez anos depois, após transitar em julgado.

Como vê esta aparente guerra entre Rangel e o Ministério Público?

Não sei. Acho que Rangel ser acusado de plágio, o que manifestamente fragiliza o acórdão, é outro assunto. A decisão sobre se a defesa já deveria ter tido acesso às provas é algo que não consigo genuinamente avaliar se está bem ou mal, mas admito que seja razoável. Por estares convencido de que o Sócrates é corrupto não quer dizer que tudo o que a acusação faz é bem feito e tudo o que a defesa faz é mal feito. Acredito que chegámos a um estado de desenvolvimento em que somos mais inteligentes do que índios e cowboys. Muitas vezes acusam-me de falar bem de Passos e depois falar mal. Como qualquer pessoa, tem vezes que faz coisas bem feitas e outras em que faz mal. Isto não é o Sporting-Benfica.

Mas não levanta dúvidas sobre a justiça?

O que me levantou muitas dúvidas sobre o funcionamento da justiça foi as escutas do processo Face Oculta e quando o presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República decidem que aquilo é para destruído sem haver recurso daquele tipo de decisão. Sócrates é fascinante porque mostrou todas as fragilidades das instituições portuguesas. O que me preocupa é estando este Sócrates mais ou menos arrumado – mesmo que seja inocente, acho que qualquer carreira política é impossível – o que acontece se temos o azar de ter outro José Sócrates.

Sendo tão assertivo nisso, não tem receio de lhe escapar alguma coisa em Passos?

Não há virgens na política portuguesa. As próprias suspeitas levantadas contra Marco António Costa também são graves. Mas a diferença de grau para Sócrates é enorme, mesmo acreditando eu que em Portugal ninguém chegou a um nível elevado da política sem ter estado metido em coisas manhosas ou ter tido conhecimento.

Festejou os resultados das eleições?

Eu digo publicamente em quem voto e disse que votava na coligação mas também disse que votava com o mesmo entusiasmo com que os comunistas votaram em Soares em 1986, ou seja, nenhum. Não engoli um sapo mas engoli uma rã. Costa nunca teria o meu voto porque o partido dele é demasiado parecido com o de Sócrates, mas podia ter tido o meu voto em branco. Não teve pela má campanha.

Que saída vê para o cenário da minoria?

Devo dizer que até me estou a distanciar dos meus amiguinhos de direita. Há gente a achar que se Costa se coligasse à esquerda era uma espécie golpe de estado. Não era, é a democracia. Se assim for, nada contra, bem pelo contrário. Quer dizer, preocupar-me-ia em termos de políticas mas não acho Costa um lunático e, se houvesse uma esquerda que se comprometesse com a governação, o país só tinha a ganhar isso. Assim um bloco à esquerda.

Como se passa de não politizado para tão politizado?

Eu estou muito fora da lógica dos partidos. Digo em quem voto, estou no espaço do PSD mas nunca na vida seria PSD e nem tenho nenhum interesse em ser secretário de estado ou ministro. Só me imagino a ir para a política activa se o país estivesse a acabar ou, como diria António Costa, se houvesse uma invasão de marcianos.

Não tem a ambição de passar do Governo Sombra para o governo a sério?

Não, jamais. Isso é a parte gira do Governo Sombra: nenhum de nós tem. E é triste ser tão raro. Podia ser o meu epitáfio: “aqui jaz João Miguel Tavares, nunca quis fazer parte de um rebanho”. Digo sempre isso aos meus filhos: não sejam ovelhas. Eu já na adolescência tinha a teimosia de querer ser diferente e acho que temos de respeitar a bênção da nossa inteligência. Ouvir as pessoas, estar atento, mas pensar por nós. Às vezes acho que o Técnico não me deu nada mas se calhar deu isto, este lado racional, de olhar para o argumento e não para quem o profere.

Será feitio ou vem com a maturidade?

Não sei. Não tenho grandes gurus para a vida mas tenho um verso de Borges de que gosto muito: “mesmo o mau poeta é capaz de um verso genial.” É uma frase optimista sobre a natureza humana, o esperar sempre o melhor mesmo de alguém por quem não dás nada.

Houve vezes em que foi complicado não ir atrás do rebanho?

Acho que não, é uma coisa que me é muito natural.

Quando todos fumaram ganzas…

Não, não fumei ganzas. Eu nunca bebi uma bica do princípio ao fim.

E gin? Não vai dizer que o fundador da “Time Out” não bebe gin…

Bebo mas nunca me embebedei. Às vezes parece que sou fundamentalista, mas não. Isso da bebedeira tem a ver com a dificuldade em perder o controlo.

Até hoje qual foi a sua maior perda?

Os meus pais estão vivos. Não tive uma grande perda, tive momentos duros com algumas pessoas mas há um trabalho de preservar a memória.

Mas assusta-o a morte?

Claro que assusta, então quando se pensa nos filhos… Mas existe por enquanto uma inconsciência de viver. Não sou dado a grandes estados de espírito de me amargurar, de sofrer por antecipação. Tenho um bocado aquilo de Clube dos Poetas Mortos, do Carpe Diem.

Tem uma biblioteca invejável. Já leu tudo?

Claro que não. Há uma frase do João César Monteiro que serve bem: “os livros são como os cães, servem para nos fazer companhia”. São para consultar.

Que livro recomenda?

Os livros têm de ser lidos na altura certa. É como os filmes. Há os clássicos mas não é a mesma coisa ver um filme que se sabe por antecipação que é extraordinário e ver o “Magnólia” pela primeira vez. Mas o livro mais marcante é a Bíblia.

Qual é o texto que o toca mais?

Talvez a parábola dos trabalhadores da vinha. Não é das mais conhecidas.

Aquela em que os trabalhadores que chegam no fim ganham tanto como os que chegaram de manhã.

Gosto muito da história. A história é interpretada pelo lado literal óbvio, converte-te à última hora e também tens o teu lugar no céu. Mas para mim é uma extraordinária lição moral contra a inveja.

Acha mesmo justo?

Só não é justo se os primeiros tiverem “maus olhos”, como diz Jesus. Se trabalhas 10 horas e te prometem um salário e se depois vem uma pessoa que recebe o mesmo numa hora, não é injusto. Aquilo que os primeiros combinaram foi o que receberam. É bom como lição para a inveja, para falar do mérito, para mostrar que a justiça é individual. Também dá para ser uma parábola liberal...

Portugal daqui a quatro anos, como vai estar?

Não sou pessimista, um gajo com quatro filhos não se pode dar ao luxo de ser pessimista. Acho que Portugal não está pior do que estava, está certamente melhor. E há uma característica dos portugueses que é o desenrascanço e quando têm de desenrascar são solidários e criativos.

O optimismo da coligação é genuíno?

Eu não sou um entusiasta da coligação – o meu problema é que ninguém criticou a coligação pelo que devia. Foram além da troika a cobrar impostos, mas ficaram aquém no importante, nas reformas. Não acho que tenha sido um grande governo: perderam uma oportunidade para reformar mais o país. Isto está preso por pinças. Se o preço do petróleo sobe, se os juros dispararam, é uma desgraça. As pessoas foram muito ajudadas por juros baixos, o corte nos salários foi compensado com a redução nas prestações ao banco.

De onde lhe vem mais rendimento?

Da televisão.

Neste momento consegue viver fazendo só o que gosta?

Neste momento sim, embora seja frágil porque estas coisas acabam. Enquanto der, dou-me ao luxo de estar em casa, a ler e escrever, que são coisas importantes para me preparar. Tem um lado mau que é gostar de estar com pessoas e liderar. De formar equipas e ter ideias. Acho que sou bom a fazer muitas coisinhas e não sou bom em coisa nenhuma em particular.

Sempre foi assim tão seguro de si?

No Técnico achava-me muito mau. Tenho consciência das qualidades que tenho e sei o que gostava de fazer melhor.

Tem receio de que acabe a mó de cima?

Estou com muitas coisas que em termos financeiros me sustentam e tenho receio que isso acabe. Mas os meus textos não estão tão bons como acho que podem ser.

Então ainda está a subir?

Uma pessoa não se pode convencer que está a descer! Tenho 42 anos, é cedo para entrar na decadência, só se fosse futebolista.

Um sonho?

Escrever um livro de fôlego. Estou a trabalhar na biografia de João César Monteiro. E gostava de continuar a fazer livros para miúdos.

E ir ao quinto filho?

Isso não, mas quem sabe… já comecei a adoptar gatos, qualquer dia começo a adoptar pessoas.

Neste momento, o que vem primeiro, a profissão ou ser pai?

A resposta óbvia é os meus filhos são a melhor coisa do mundo, estão à frente de tudo. Mas, para mim, a realização pessoal e familiar é tão importante como a profissional. Não quero ser um pai que só pensa no trabalho e os filhos que se lixem. Nem quero ser um tipo que os filhos são tudo e o trabalho que se lixe. E isto é uma luta. Até porque todos nós temos talentos e um papel a cumprir no mundo e não deves abdicar de ti só na entrega incondicional à família. Se fizeres isso, não respeitas os teus talentos. O que é outra parábola.

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