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Cat Power. “Ainda gosto de digressões, mas seria fantástico passar um ano entre unicórnios”
Cat Power é o nome artístico de Charlyn Marie Marshall

Cat Power. “Ainda gosto de digressões, mas seria fantástico passar um ano entre unicórnios”

Cat Power é o nome artístico de Charlyn Marie Marshall Stefano Giovannini Miguel Branco 10/10/2015 18:44

Vem a Portugal para dois concertos: 31 de Outubro no CCB e 1 de Novembro no Hard Club. Mas quis falar de outras coisas.

Abusemos da máquina do tempo para nos fazer regressar ao Super Bock Super Rock do ano passado. Cat Power combatia as terríveis condições climatéricas em palco, o público nem dava conta da encomenda que São Pedro tinha feito. Eis senão quando a cantora anuncia que tem de parar por ordens da organização. Nesse momento prometeu voltar e aí está: a 31 de Outubro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e a 1 de Novembro no Hard Club, no Porto. Sobre o tal incidente – do qual está isenta de culpas –, Chan Marshall pede perdão. Desculpas aceites que servem de início para uma conversa onde vale tudo menos música. A recente maternidade, o cansaço das digressões, o desgosto pelo país – e pelo mundo em que vive –, o momento em que viu Aretha Franklin a cantar “Amazing Grace” na televisão e percebeu que queria ser cantora. Tudo isto numa entrevista que mais parecia um desabafo perante um desconhecido, conversa de divã para eliminar os demónios do pensamento. O discurso obsessivo--depressivo de quem só queria isolar-se numa ilha por um ano e fazer amizade com unicórnios. Como todos nós. 

A última vez que esteve em Portugal, no Super Bock Super Rock, o seu espectáculo foi interrompido devido à chuva e às condições de segurança...
Lembro-me perfeitamente, mas não saí porque queria...

Certo. Mas percebeu a desilusão do público? Conheço pessoas que choraram quando saiu do palco...
Estás a gozar, só pode. 

Não estou. 
Não tinha essa noção, isso entristece-me profundamente. Peço desculpa, é por essas e por outras que prefiro tocar em salas, os meus próprios concertos para os meus fãs. Quando tocas em festivais, há cerca de 20 pessoas que não são músicos à tua volta, sempre preocupados com leis e com a segurança, todas essas merdas para que tudo corra bem. Que fique claro que eles não me deixaram mesmo tocar, disseram--me que havia o risco de alguém ser electrocutado. Os festivais são mais perigosos, quase selvagens, há muitas componentes que não controlas. Gostava de ter consultado Deus para ver se ia chover, mas não deu. Ele é o verdadeiro culpado. 

Teve esse incidente em consideração na preparação destes dois concertos?
Uma das minhas fraquezas – ou forças, ainda não descobri bem – é que sou sempre honesta. Não assumo as diferenças entre as audiências. Quando toco numa sala ou clube, é o público que se envolve comigo, a minha responsabilidade é tocar, é fazer o público passar um bom momento. Onde quer que toque, seja em África, na China ou em Portugal, vou sempre dar tudo o que tenho, dar mais do que tenho. Sei que querias que dissesse que, por esse incidente, vos ia dar o melhor concerto do mundo, mas tenho de ir para casa e sentir-me bem comigo. Já tenho pressão que chegue com pessoas a dizerem-me para tocar desta forma ou doutra. Não vou vos enganar. 

Parece justo. E no que...
Desculpa se estou a ser chata, estou a dar entrevistas há umas horas e tive de chamar amigos para cuidarem do meu filho. Agora posso relaxar. Força, força. 

Vamos a isso: é pessoa de mudar coisas de um concerto para outro ou precisa de ter tudo organizado? 
Quando era mais nova e tocava com gente como oSteve Shelley e assim, era muito mais de improvisar, a música também o pedia. Actualmente, preciso de estar muito mais concentrada, de ter tudo planeado ao milímetro. Vou dar o mesmo concerto no Porto, em Lisboa e em Londres. Mas não é por ter as músicas ordenadas num papel que vai ser tudo igual. Como disse, consigo tocar entre 29 músicas e 35, dependendo de uma série de factores. Quando me apresento a solo, quero criar intimidade, a existência de comunicação, por isso tento manter-me fiel à minha setlist. 

Ainda gosta de estar em digressão ou tornou-se uma necessidade?
Sabes... tornou-se mais do mesmo. Quando era nova, o mais do mesmo relacionava-se com perguntas do género: como vou ter tempo para comer? Onde vou dormir? Como vou chegar à Suíça? E o momento em que chegava ao palco era quando podia dar descanso à minha cabeça, estar em comunidade com aquelas pessoas, quase como se entrássemos numa nave espacial e fugíssemos da dimensão em que estávamos. 

O que mudou?
Agora, o mais do mesmo é outro. Tenho de apanhar o avião, tenho de ter a certeza que o meu filho vai ficar bem, que vou ver os amigos que fiz à volta do mundo. Qualquer que seja a nossa profissão, penso que todos gostaríamos de passar um ano a viver isolados numa ilha onde fiquemos amigos de unicórnios e afins. Mas não temos essa opção. Portanto, sinto que é algo que tenho de fazer para as pessoas conseguirem sair de si e das suas preocupações. Pelo menos é o que faço quando canto. Ainda gosto de andar em digressão, mas seria fantástico se pudesse passar um ano entre unicórnios. 

Foi mãe em Abril. Quando o anunciou nas redes sociais, colocou um vídeo dos protestos contra o racismo em Ferguson. 
Ah, viste isso? Fico sempre emocionada quando penso nisso... a comunidade afro--americana, tal como outros emigrantes, ou simplesmente pessoas sem poder de compra, nunca foram apoiados. Este sistema é uma fachada. Na minha família, por exemplo, só o filho da minha irmã é que andou na universidade, o resto teve de trabalhar para sobreviver. Sou americana, cresci neste país, mas quando vejo estas imagens mete-me nojo. Este sistema não faz outra coisa que não segregar grupos étnicos. Os seus bairros sempre foram construídos à margem, este país sempre soube o que estava a fazer. Estamos em 2015, isto é inacreditável. 

Imagino que a preocupe ser mãe numa sociedade que tanto critica. 
Claro, essa foi a razão que me fez colocar o vídeo. É importante para mim ter um filho, é importante para o mundo? Não. Mas espero que muitas mães o tenham visto, é isto que se passa no mundo. Gente que usa máscaras para obter uma espécie de vitória de rua. Ignoram o facto de que nunca vão ter poder. Se tiverem, o país vai matá-los. 

Queria saber a sua opinião sobre as próximas presidenciais nos EUA. Presumo que não queira uma vitória de Donald Trump...
O Donald Trump não vai ganhar. Eles estão a fazer de propósito para os americanos passarem por estúpidos. Só o Trump e a Hillary [Clinton] é que têm atenção mediática, todos os grupos de media são pagos por políticos neste país. É claro que não tenho provas, mas é um dado adquirido. Só dão tempo de antena a estes dois porque a Hillary vai ganhar, é esse o objectivo, ainda ninguém percebeu bem como o George W. Bush ganhou duas vezes. Vão deixar a Hillary ganhar e o que me irrita é que o fazem à frente de toda a gente. 

Pretende fazer alguma coisa em relação a isso?
Eu devia vir a público manifestar o meu apoio a Bernie Sanders. Ele pode ser socialista, mas tem algumas posições fantásticas. Vive na realidade, ao contrário dos outros. Tem 74 anos, é velho o suficiente, na minha opinião, para não ser ganancioso. Até pode vir a ter mais 20 anos de vida, tempo suficiente para escrever alguns livros e ganhar algum dinheiro. Mas parece-me que a postura dele é mais “estou farto disto”. Isto é triste. Não há nenhum país em que acredite, não há nenhum país em que alguém acredite. É vergonhoso.
 
Regressando à música: recorda-se de algum momento que a tenha feito seguir esta carreira?
[risos] Houve um episódio que me fez querer cantar. Tinha uns 12 anos, tinha voltado da escola, era Janeiro. Lembro--me que estavam a cantar o hino americano, o meu pai mudou de canal para a PBS e estava a dar uma gravação de arquivo de um concerto da Aretha Franklin em 1964. Podia ser uma miúda, mas ouvi--la e vê-la a cantar o “Amazing Grace” fez com que percebesse quando a voz é uma dádiva. Tornei-me uma pessoa velha naquele momento. Foi como se a condição de tristeza que aprendi a ter em casa tivesse de ser libertada. Foi isto, tenho a certeza que foi naquele dia que me apercebi de que cantar livra-te do sofrimento, torna-te mais forte. 

Fazer cinema também a ajuda nesse sentido?
Não da mesma maneira, não tem essa dimensão. Era para ter feito um filme recentemente com o Nicolas Cage...

A sério? Cat Power e Nicolas Cage?
[risos] Sim, sei que parece uma loucura. Mas já estava grávida de seis meses, o filme só ia começar a ser rodado quando estivesse nos oito meses de gravidez, ou seja, perdi o papel para a Sky Ferreira, cujo trabalho adoro, por isso não foi assim tão mau. As experiências que tive com o Wong Kar Wai e com o Doug Aitken foram fantásticas e muito comoventes, os seres humanos têm uma capacidade de adaptação incrível. Vemos bailarinos a dançar, jogadores de ténis a jogar ténis e seguimos-lhe os passos, tentamos fazê-lo à nossa maneira. Acredito que todos podemos ser excelentes bailarinos, óptimos poetas, grandes matemáticos. Ninguém me disse na escola que podia ser o que quisesse. Não sabia.
 
Tenho quase a certeza de que nunca seria cantor...
Devias ter trabalhado com o Wong Kar Wai. Numa das cenas ele pediu-me que chorasse, mas fê-lo sem forçar, disse-me: “Vamos gravar isto até tu achares que conseguiste.” Foi ficando mais intenso e, à sétima vez, ele disse “corta”, veio a correr até a mim, deu-me um enorme abraço e disse: “És genial.” Aí senti-me como uma miúda, senti que se fiz aquilo posso fazer o que quiser na vida, toda a gente pode. Com isto fica dito que gostaria de voltar ao cinema, mas com alguém que fizesse sentido, com um projecto diferente. Até porque o Kar Wai nunca chegou a incluir aquela cena no filme. É uma merda, eu sei. 

Se toda a gente pode ser o que quiser, o que quer que o seu filho seja?
Ainda bem que me perguntaste isso, não tenho falado noutra coisa. Os meus amigos têm sugerido que seja bancário ou advogado, disse logo que não. Quero que ele aprenda ballet, banda desenhada, aprenda a cozinhar, a montar a cavalo. Quando era miúda, queria fazer tanta coisa e não tive essa oportunidade. Quero, se conseguir, dar-lhe a oportunidade de experimentar tudo. Depois é ele que tem de descobrir o que quer ser. Eu quero que ele tenha saúde, seja feliz e sentido de humor. Chega-me. 

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