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Hipocondria. Quando um tumor não passa de uma dor de cabeça
Ser hipocondríaco é viver numa angústia constante

Hipocondria. Quando um tumor não passa de uma dor de cabeça

Ser hipocondríaco é viver numa angústia constante António Pedro Santos Marta Cerqueira 10/10/2015 12:09

Os hipocondríacos até podem ter noção do exagero mas a dificuldade chega na hora de controlar o excesso de preocupação com a saúde.

Doenças como o cancro ou a sida estão sempre presentes na vida de Pedro. Em fases mais críticas, chegou a fazer mais do que um exame de HIV, a ler compulsivamente discussões sobre sintomas nos fóruns na net e a esperar pelo pior dias após uma relação sexual: “Apalpava sistematicamente as axilas e as virilhas à procura de nódulos ou gânglios inchados”, confidencia ao i.

Se o medo de ter sida condicionava os seus afectos, a obsessão com o cancro dava também azo a comportamentos muito pouco normais. Uma vez, pensou ter patéquias nas pernas – pontos vermelhos que, em casos extremos, podem indicar leucemia. Lá foi ele para um hospital privado exigir uma série de análises. De nada adiantou o médico dizer que esse seria o último dos diagnósticos. Teve de gastar 150 euros em exames e uma tarde inteira a ser examinado para afastar o fantasma. 

As supostas patéquias eram afinal marcas de sangue pisado provocadas pelo facto de usar calças demasiado apertadas. Estes comportamentos, ressalva Pedro, não acontecem todos os dias. É por fases que são mais ou menos críticas, conta. É por isso que não se assume como um verdadeiro hipocondríaco e nunca foi diagnosticado como tal. Mas as constantes idas ao médico e os exames regulares fazem com que Pedro se insira na primeira metade dos hipocondríacos: são aqueles que investem numa fiscalização sistemática da sua saúde. No lado oposto, surgem os que, estando convencidos de que estão doentes, fogem dos médicos e dos hospitais como o diabo da cruz com pavor da confirmação.

Seja qual for o lado desta doença, ser hipocondríaco é viver numa angústia constante, explica a psicóloga Ana Medina, adiantando que esse estado pode mesmo desencadear consequências físicas. “Se estiver ansiosa, o meu coração vai bater mais rápido, vou ficar com a garganta seca, vou focar-me nesses sintomas, ampliá-los e ficar ainda mais ansiosa.” É uma bola de neve, a rebolar sem controlo pela montanha abaixo.

viver com a doença Por estar normalmente relacionada com outras patologias, como a ansiedade ou a depressão, a hipocondria nem sempre é de fácil diagnóstico, mas os documentos médicos oficiais dão uma ajuda na definição: para ser diagnosticado como hipocondríaco, é preciso que o doente tenha durante pelo menos seis meses uma convicção persistente de que sofre de uma doença física grave, cujos sintomas tragam sofrimento e não atenuem com a confirmação médica de que não existe qualquer problema de saúde.

Do lado de quem tem que lidar com a doença no dia-a-dia, Pedro resume a hipocondria com a frustração de ter quem lhe diga constantemente: “Como é que tu, um gajo inteligente, não percebe a estupidez de tudo isto?” Não tem nada a ver com inteligência: “Antes tivesse”, responde. Daí que, apesar de ser algo que não controla no imediato, consiga racionalizar o seu comportamento à distância e ser capaz de rir de situações passadas, como quando foi a um centro de saúde porque julgava ter um nódulo no testículo. A médica, com os seus 60 anos, ficou a achar que Pedro sofria uma tara sexual e só tinha ido às urgências para ser apalpado.

Portugal hipocondríaco Os números sobre a hipocondria a nível global não são exactos. Nos Estados Unidos, por exemplo, a American Psychological Association estima que a doença afecte 5% dos norte-americanos. Em Portugal as estatísticas não deverão ser muito diferentes. A psicóloga Ana Medina aposta numa percentagem que fique entre os 3% e os 8%. “A maioria desses pacientes não têm diagnóstico só de hipocondria, ou seja, têm associadas perturbações obsessivo-compulsivas, ansiedade e sintomas depressivos”, explica. 

O lado oculto E, muitas vezes, a hipocondria esconde outros problemas, nem sempre relacionados com sintomas físicos. “Em Portugal, falar de doenças é uma forma de falar de afectos, até porque é mais fácil queixarmo-nos de uma dor no joelho do que admitir que nos sentimos sozinhos”. Não é um exagero, até porque o médico de clínica geral Pedro Lopes diz o mesmo ao defender que a insegurança é uma das principais características dos hipocondríacos. “Geralmente são pessoas com egos que exigem uma maior atenção”, explica, acrescentando, como que por piada, que quem vai às urgências e sai de lá com um diagnóstico de virose vem frustrado. “A maioria queria sair com algo mais grave, mesmo que o passo seguinte fosse queixar-se da má sorte.”

Alargando ainda mais o círculo dos hipocondríacos, Pedro Lopes até está convencido de que o prazer em falar de doenças é algo que ajuda a definir os portugueses. “Não há programa de day time que não tenha um segmento de saúde e as séries relacionadas com temas da medicina são algumas das de maior sucesso”, lembra. Ainda ligado à influência televisiva, o médico refere a taxa de sucesso da venda de medicamentos através de anúncios – “os calcitrin e os cálcios + desta vida” – que ocupam espaço na grelha dos quatro canais. “É incrível a tendência para a automedicação portuguesa - constata -, “toda a gente se sente capaz de avaliar situações clínicas e tomar medicamentos sem orientação médica”.

Em casos extremos e em pessoas que já se aproximam dos sintomas da hipocondria, Pedro Lopes já viu chegar ao seu consultório pacientes que tomavam três antibióticos por mês por causa de uma dor de cabeça ou uma tosse. Aliás, os números mais recentes do Eurobarómetro falam por si: 78% dos portugueses acreditam que os antibióticos têm sucesso em infecções causadas por vírus, tais como gripes e constipações, nas quais, de facto, são completamente ineficazes.

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