25/05/2022
 
 
Isabel Stilwell 10/10/2015
Isabel Stilwell

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Sozinha em casa? Cuidado com o que deseja...

Descobri como funciona o comando da televisão. Venci o medo de portas a ranger.  Mas uma semana de “home alone” revelou, também, que viver sozinha exige aprendizagem. Como é que levei 55 anos a dar por isso?

Quantas vezes teve vontade de fazer desaparecer o seu marido e filhos, genros, noras e até netos, e ficar sozinha em casa? Sozinha sem “Ó mãe, onde estão as minhas chuteiras?”, sem “Importas-te que mude o canal para o futebol?”, sem ter de explicar as suas escolhas, por e tirar a loiça da máquina, interromper o que gosta porque é hora de jantar, sem sentir que o tempo não lhe pertence, e se escoa, por vezes, em dias e noites coladas como se fossem um longo e cansativo mês? Sobretudo depois do Verão, do Natal ou de tempos em que rodopiou em torno dos outros...

Quantas vezes não imaginou o que seria se a Mary Poppins viesse buscar os seus filhos para os levar a dar um (longo) passeio no parque, sim mesmo que já sejam maiores, e simultaneamente a sua cara metade tivesse de partir em viagem de trabalho (comprovada, claro!), e o telemóvel caísse na banheira e deixasse de tocar? Confesse — eu confesso! —  que pensou em tudo isto, imaginando o que faria neste interregno-surpresa em que, por uma vez, ficaria sozinha em casa.

Até ao dia em que os seus desejos se tornam realidade. 

No primeiro, sente o alívio de trabalhar sem a ânsia de acabar tudo a correr para ir buscar os seus filhos à escola, sabendo que um segundo emprego a espera. É uma sensação de súbita liberdade, como se ninguém dependesse de si e pudesse, como os outros mortais,  beber café devagarinho e gastar meia hora com os mexericos mais suculentos do escritório. Mas, quando põe a chave à porta sente um baque, e o silêncio que encontra rapidamente se torna pesado.

Quer acender a televisão e lembra-se, de repente, que se recusou sempre a aprender como funcionam os quatro comandos que os homens da casa dizem ser fundamentais. Percebe que tem fome, mas quem é que tem paciência de ir para a cozinha no dia em que é livre de não por lá os pés? Portanto, não vê a sua série preferida e não come! Paciência, ao menos vai dormir. Mas também não dorme, porque subitamente parece que forçam a porta da rua, as janelas rangem, a cama está fria, e os quartos dos seus filhos vazios, que estranho, será que estão bem? Enfurece-se consigo mesma, desperdiça tempo, comporta-se como uma criança. Mas o sono não vem. O despertador toca, faz snooze mil vezes, sente que lhe passou um camião por cima, e desta vez não pode por as culpas em ninguém.

Passa o segundo dia, depois o terceiro, e finalmente ao quinto vai-se habituando, conquista “competências”, liga a televisão, sai para jantar, mas conta os dias para que voltem todos depressa. Viver sem eles não tem graça nenhuma, mas como é que é possível que tenha levado tanto tempo a fazer a experiência?

Dei uma vista de olhos às estatísticas: em 1960, ano em que nasci, as famílias tinham, em média, 3,2 filhos, ou seja crescia-se rodeado de gente, que incluía muitas vezes tias solteiras e avós. A mulher saáa de casa dos pais, habitualmente, para casar o que acontecia, em média, pelos 21 anos, nascendo o primeiro filho, em média, dois anos depois, aos 23 anos. Esperava-a, então, mais um ou dois filhos. Mesmo que se viesse a divorciar, dizem os números que em 88% dos casos ficava a viver com os filhos, ou seja, tudo menos sozinha em casa. Quanto àquelas que não casavam, era pouco provável que vivessem sozinhas, pelo menos enquanto os pais fossem vivos. 

Em 1981, por exemplo, eram 182 mil os agregados constituídos por um só adulto com menos de 65 anos, dos quase 3 milhões de famílias (6%), e em 2014, eram 407 mil, o que representa 10%, do total dos 4 milhões de famílias. É um número muito mais baixo do que o registado nos países nórdicos (na Dinamarca o total chega a 47%), mas  entre Erasmus e emigração, passando pela opção crescente de viver sozinha (sem ser, por isso, olhada com desconfiança),  suspeito que não haverá muitas mulheres a chegarem aos 55 anos com medo de portas que rangem ou do silêncio das quatro paredes. Parece um detalhe, mas faz diferença.    

21 - Idade média de casamento em 1981

Fonte: INE

Jornalista e escritora

Escreve ao sábado 

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