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“Svetlana Alexievich escreve com uma sensibilidade incomum”
É possível admitir que exista um sentido político, mas será pura especulação entender este prémio como tal

“Svetlana Alexievich escreve com uma sensibilidade incomum”

É possível admitir que exista um sentido político, mas será pura especulação entender este prémio como tal Sergei Grits/AP Tiago Pereira 09/10/2015 15:29

Guilherme Pires, Editor da Elsinore.

 

 

O que distingue Svetlana Alexievich? O que terá convencido a academia do Nobel?

A academia terá atribuído o Nobel da Literatura a Svetlana Alexievich pela marca da escrita e a força histórica da obra da autora. Essa marca, relativamente incomum em obras de não ficção, é expressa sobretudo através do método da autora, a forma que dá aos assuntos sobre os quais escreve, distanciando-se enquanto narradora sem se distanciar enquanto jornalista, e escrevendo com uma sensibilidade incomum e uma força estilística evidente. São obras de não ficção trabalhadas de forma profundamente literária. No caso de “Vozes de Chernobyl”, o livro que a Elsinore publicará em 2016, o texto é apresentado quase exclusivamente na primeira pessoa, através de monólogos de mais de 500 pessoas que viveram o desastre nuclear de 1986 directa ou indirectamente. Esses relatos, que resultam de um trabalho jornalístico de fundo, não são uma mera citação contínua dos entrevistados, sendo antes transformados pela autora em textos apresentados na primeira pessoa, tecidos entre si com enorme sensibilidade e dotados de uma carga emocional e factual tremenda. Arrisco dizer que a autora se posiciona atrás desses relatos, desses monólogos: não é a narradora omnisciente que paira sobre o texto e as personagens, mas antes as mãos que colam essas vozes e as apresentam ao mundo, para que sejam ouvidas – lidas – e interpretadas. 

A academia fala de uma “nova forma literária”, além de um conteúdo totalmente distinto, nas obras da autora bielorrussa. Que forma é essa?

Especulando a partir da opinião da academia, essa forma será a soma da preparação e do trabalho jornalístico da autora – que entrevista centenas de pessoas in loco, de origens e enquadramentos por vezes muito distintos, quase contraditórios, para recolher os testemunhos com a maior verosimilhança possível e de perspectivas muito diferentes – com o traço estilístico que depois lhes confere, tratando-os, como referi na resposta anterior, com uma sensibilidade e força incomuns, e apresentando-os na primeira pessoa, urdidos entre si apesar da disparidade e dos contrastes brutais que, muitas vezes, são apresentados nesses relatos. Apresenta a realidade como um todo, incluindo os seus contrastes e contradições, e sempre da perspectiva do indivíduo, bebendo dessa fonte para lhe conferir força literária, mas sem nunca transformar o sentido. 

Face ao panorama político e social que a Rússia vive actualmente, face às políticas de Vladimir Putin, como é que encontramos Svetlana Alexievich?

E haverá um sentido político na atribuição do prémio? É possível admitir que exista um sentido político, mas será pura especulação entender este prémio como tal, e é certamente redutor apresentá-lo apenas ou principalmente dessa forma. Svetlana Alexievich não é caso único na apresentação ao mundo de realidades que os Estados, forças políticas ou personalidades poderosas procuram ocultar. 

A Elsinore publica no próximo ano “Vozes de Chernobyl” numa versão portuguesa. Que livro é este?

“Vozes de Chernobyl” é um livro focado não só no desastre nuclear de 1986 em Chernobyl, mas também no pós-desastre, na União Soviética e na Rússia contemporânea. Chernobyl acaba por ser quase um pretexto para apresentar um retrato pungente da União Soviética e da Rússia, ao representar a corrupção, a ocultação, a mentira, a irresponsabilidade ambiental e social e o desrespeito pelos direitos humanos, traços que marcam o regime soviético e russo. É uma obra muito abrangente no perfil das pessoas que a autora entrevistou: desde a mulher grávida que receia pela saúde do filho por nascer, por não saber do impacto que a radiação terá na vida da criança, até aos oficiais do regime que procuram ocultar as verdades incómodas para o Estado. Desta forma, as vozes apresentadas são extremamente polifónicas e múltiplas, emocionais (como a mulher grávida) e mais ou menos frias e distanciadas (como os oficiais). É através desses monólogos tecidos entre si, com raras intervenções da autora enquanto narradora distanciada, que o livro mostra os traços mais negros da União Soviética, e que sobreviveram até hoje. É, por isso, um livro extremamente actual e relevante. 

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