25/10/20
 
 
Nuno Artur Silva. “Sou um inadaptado mas convivo bem com esse estatuto”
“Cá sempre se valorizou mais a pessoa que se limita a ler o teleponto e a fazer um sorriso, do que o criativo”

Nuno Artur Silva. “Sou um inadaptado mas convivo bem com esse estatuto”

“Cá sempre se valorizou mais a pessoa que se limita a ler o teleponto e a fazer um sorriso, do que o criativo” MANUEL VICENTE Raquel Carrilho 03/10/2015 23:07

Durante 20 anos à frente das Produções Fictícias, assinou alguns dos melhores momentos do humor nacional. Desde Fevereiro faz parte da administração da RTP, o único cargo público que poderia aceitar.

Em 2010 disse que estava mortinho por ter uma reforma antecipada dali a dois anos. O que correu mal?
[risos] O que queria dizer era que me queria dedicar mais à escrita, mas a vida é o que acontece enquanto fazemos outros planos. Tinha esta ideia de que gostaria de voltar ao ponto em que estava quando comecei com as Produções Fictícias (PF), em que escrevia muito. E esse momento aconteceu. Foi no ano passado. Tinha--me desligado de muitas das funções que exercia nas PF e estava a focar-me no meu trabalho autoral. Estava a fazer um espectáculo chamado “Nuno Artur Silva, a sério?”, com os Dead Combo e o António Jorge Gonçalves, quando tive o convite para vir para a RTP. Ao longo da vida já tive várias reviravoltas. Esta foi totalmente inesperada.

E das mais desafiantes?
Sim.

Foi difícil aceitar?
Não. Isto é tudo uma grande ironia porque há uns anos, na penúltima administração, já tinha sido convidado para director de programas e não tinha aceitado porque isso iria pôr em risco a enorme actividade que as PF estavam a desenvolver com a RTP. Na altura estava na Associação de Produtores de Televisão e discordava frontalmente da orientação que estava a ser dada à RTP. Mas a anterior administração e direcção de programas praticamente terminaram a relação com as PF, por isso, de certa forma, podemos dizer que foi graças à acção da anterior administração que pude aceitar este convite. Foi a anterior administração que me permitiu aceitar este lugar. Mas quando fui convidado pensei que era para a direcção de programas, não para a administração.

Afinal, o que o levou a aceitar?
Quando o Gonçalo Reis [administrador da RTP] me ligou, tivemos uma grande conversa e percebi que o desafio era muito aliciante e tinha a ver com o construir uma estratégia para toda a RTP. Era um desafio irresistível para quem, como eu, há 20 anos trabalha nesta área e escreve sobre a RTP. Ao fim de umas horas de conversa, aceitei.

O seu nome foi aplaudido pela Comissão de Trabalhadores, o que, nos últimos anos, não era usual acontecer. Que ambiente encontrou na RTP?
Acho que a sensação era “oh não, mudou tudo outra vez”. Nos últimos anos houve demasiados planos, muitas vezes contraditórios, para a RTP. Privatiza ou não? Concessiona ou não? Quando chegámos, sentimos dos trabalhadores da RTP um sentimento de cansaço, descrença, incerteza e dúvida em relação ao futuro. Por isso, o primeiro mês foi para explicar o nosso projecto às pessoas. É preciso ver que nós fomos a primeira administração de sempre que não foi nomeada por um governo. Foi a primeira vez na história da RTP que há uma administração que não é nomeada directamente por um ministro, mas por um conselho geral independente (CGI). E é a primeira vez na história da RTP que há um conselho de administração que diz ao que vem. Isto é, ainda antes de sermos oficialmente aprovados, tivemos de apresentar um projecto estratégico que o CGI aprovou. Tornámos logo claro ao que vínhamos, mas internamente ainda estamos a tentar explicar a mudança às pessoas.

Existem anticorpos? Por vezes há a sensação de que, em algumas áreas, a RTP é uma casa ferida de morte, que o desgaste é muito grande.
Estamos a tentar trazer a esta casa uma alma nova. Estamos a tentar dizer que estamos a entrar num ciclo de estabilidade. Temos um mandato que depende do CGI e, portanto, está menos sujeito a flutuações políticas directas. Financeiramente, o modelo está estabilizado. É verdade que o dinheiro é pouco, mas não estamos dependentes de Orçamentos do Estado – o dinheiro da RTP vem 80% da contribuição audiovisual e 20% de receitas publicitárias, das quais apenas 10% vêm dos intervalos. O financiamento é pouco, mas está estabilizado. Depois, foram afastados do horizonte quaisquer cenários de privatização ou concessão. Para esta administração, isso está totalmente posto de parte. Não está no nosso projecto nem estamos mandatados para isso…

Se essa hipótese voltar a estar em cima da mesa, pode levar à demissão desta administração?
Seguramente não foi para isso que fomos nomeados.

Estava a falar do ciclo de estabilidade…
Sim. Por exemplo, fizemos algo inédito: cinco meses depois de entrarmos, fechámos um acordo de empresa com todos os sindicatos. E fechámos um acordo com todos os bancos portugueses para um financiamento de 80 milhões de euros. Além de tudo isto, retirámos do horizonte cenários de despedimentos colectivos. Isso não acontecerá. E dissemos que íamos reforçar a produção interna: os grandes programas são feitos internamente e o resto é produzido em articulação com a produção independente. Isso também pacificou a nossa relação com as entidades externas, como a Associação de Produtores de Televisão, os argumentistas, a Sociedade Portuguesa de Autores… É claro que a RTP está sempre no foco e que, depois, existe a agitação que tem a ver com os programas, com o que se escolhe ou não se escolhe. Mas a mudança de grelhas só começou agora, com a Antena 3, e durará até ao primeiro trimestre de 2016.

Disse que esta é a primeira administração não nomeada directamente por um governo mas, apesar de a nomeação ser do CGI, a aprovação final é da tutela.
Não. Fomos nomeados pelo CGI e só nos encontrámos com o ministro da tutela no momento da assinatura do contrato. Tinha falado com o ministro quando era da Associação de Produtores de Televisão, mas desde que fui convidado, tal como os outros elementos, até à assinatura não reunimos com o ministro. E todos os directores foram nomeados sem haver consulta ao ministro. Foram escolhas da administração comunicadas à ERC e ao CGI. E temos de fazer justiça ao ministro porque foi ele, Poiares Maduro, que desgovernamentalizou a RTP. O ministro foi escrupuloso nisto. Não houve qualquer contacto connosco.

E com o CGI?
Deve ter havido conversas. Mas o CGI nem soube dos nomes que estávamos a escolher para as direcções.

Desde que assumiu o cargo, tem falado muito com o ministro?
Não.

Poiares Maduro nunca lhe telefona?
Nunca. Cruzámo-nos duas ou três vezes e teremos falado cinco minutos em conversas de circunstância. Ele veio à RTP e nós fomos recebê-lo. Não trocámos nenhuma ideia sobre programação. A diferença entre este ministro e o anterior é radical. É uma diferença total de posicionamento. Este ministro defendeu um modelo semelhante ao da BBC, em que o governo só tem ligação através da parte financeira, mas retira-se de qualquer interferência nos conteúdos, e cumpriu escrupulosamente.

Curiosamente, está a falar de dois titulares do mesmo governo.
Mas de duas pessoas radicalmente diferentes. Não teria aceitado vir para aqui de outra maneira. Para vir para a RTP tinha de ter a certeza de que podia fazer o trabalho de forma livre e absolutamente alinhada com o que sempre defendi.

Não teria aceitado vir para a RTP com o anterior detentor da pasta, Miguel Relvas?
De maneira nenhuma! Estava completamente fora de questão. Seria absurdo.

(Continue a ler a entrevista aqui)

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