20/6/21
 
 

Estudar não tem de ser levado muito a sério

A escola, as filhas, o lazer (através dos livros). Foi no meio deste ambiente tripartido em que se movia que a professora e investigadora universitária, Fernanda Carrilho, recebeu nas mãos uma das maiores fragilidades do ensino: a dificuldade que os alunos revelam para estudar. Pesquisou, colocou perguntas e, no final, publicou livros (dois, até agora) que servem de guia para o sucesso escolar.

Como se interessou por esta área?
Por coincidência, na escola em que a minha filha está neste momento. Tive um ano de licença sabática e nesse momento foi introduzido o Estudo Acompanhado. Não estive nessa fase e quando integrei aquela escola tive três turmas de terceiro ciclo com a disciplina. Tínhamos uns manuais que não explicavam quase nada. Era uma impotência perante aquilo, os miúdos esgotavam aquelas fichas em segundos. Sinal de que a disciplina não foi pensada da forma mais estruturada? Eram fichas com umas linhas para preencher, onde se perguntava se era cão se era gato... não dava. Senti necessidade de fazer os meus próprios materiais.

Preparou as suas próprias fichas de apoio?
Exactamente. Aula após aula, muitos materiais. A disciplina funcionava em co-docência, entre dois professores. Eu estava sempre presente e fazia com um professor de Inglês, outro de Geografia e um terceiro de Educação Visual. Eles delegavam em mim muitas das tarefas, eu também não queria massacrá-los e acabava por ficar com essa responsabilidade.

É por essa altura que tem uma conversa na sua editora sobre um livro.
Propuseram-me que organizasse um livro de apoio ao estudo. O livro nasceu assim.

Foi quase um acaso.
Sim, e depois fui-me interessando pelo tema. “Porque é que eles não estudam?”, “como fazem os resumos?”, etc. Porque eu sabia ajudá-los, mas não dominava as técnicas.

Já aí se apercebia de que os alunos, de uma forma generalizada, tinham dificuldade em estudar?
Sim. Por exemplo, quando se pede para sublinhar, ou não sublinham nada ou sublinham tudo. As meninas, como gostam muito das cores, acabam a pintar tudo e fica tudo igual, não há destaques.

E porque é que os alunos não conseguiam estudar? Falta de bases?
Faltava-lhes perceber o que é essencial e o que é acessório. É a falta de bases. Cada professor, em cada ciclo, diz que os alunos lhes chegam sem bases. E isso é verdade. Porque agora já não se escreve. Brinca-se, fazem-se formas. Cada vez se desculpabiliza mais nos primeiros anos e, por isso, em vez de trabalhar, brinca-se.

E onde é que a solução pode nascer: no primeiro ciclo?
Penso que sim. Deve haver uma consciencialização em todos os ciclos, mas mais regras e uma maior consciencialização logo de início. Mas não é dos professores. É o próprio sistema de ensino. Tudo tem o seu espaço e os alunos têm de saber que o espaço da sala de aula é para aprender e que lá fora poderão brincar.

O problema é mais lato do que simplesmente saber estudar.
É também o saber estar.

Isso envolve mais intervenientes, além dos professores e dos alunos. Envolve também os pais, por exemplo?
Sim, sim. Envolve todo o sistema educativo.

E os professores estão sensibilizados para a necessidade de, desde os primeiros anos, ensinar a aprender?
Nunca estive no primeiro ciclo. A formação de cada professor e a forma como ensinamos está muito ligada ao ciclo de ensino em que nos encontramos. A pedagogia varia muito e tem variado muito ao longo do tempo. Penso que os professores sempre estiveram sensibilizados para este tema, mas eles próprios sentem que não estão a ensinar. Os mais antigos ensinavam mais porque o sistema os obrigava mais. E eles gostavam de sentir que estavam a ser úteis.

Nas tais aulas de Estudo Acompanhado, deparava-se com muitos alunos com dificuldades?
A disciplina era muito aberta. Havia alunos que estudavam, por exemplo, História. Mas também havia quem fizesse jogos. Cada um via a disciplina como queria e dava aquele tempo como queria.

Faltavam parâmetros mais claros para a disciplina?
Exactamente. Por vezes, os professores, na véspera de um teste, diziam-lhes: “Amanhã há teste de História, por isso
estudem a matéria.” E os miúdos começavam a remexer-se nas cadeiras e a perguntar-se: “Mas estudo como? Empresta-me o teu caderno, dá-me os teus resumos”. Era uma impotência.

Há um manual único para estudar ou cada aluno deverá adaptar a si a sua forma de estudar?
Cada um tem a sua técnica. Há pessoas que memorizam lendo em voz alta – eu não consigo, mas a minha filha mais velha [Joana, de 19 anos] faz isso mesmo. Há pessoas que têm uma memória mais visual, outras mais auditiva. Tem tudo a ver com o tipo de pessoa. Agora, uma coisa é certa: os esquemas funcionam sempre muito bem. Têm ali tudo muito resumido, entra pelos olhos e a pessoa fixa a informação. Mas quando se decora tudo corre-se o risco de, ao perder uma pequena parte da informação, bloquear e perder tudo o resto.

E há erros que não se podem mesmo cometer?
Não me ocorre nenhum. Se me der um exemplo...

Estudo de véspera?
Em cima da hora é falível. Cheguei a fazer isso para umas cadeiras de que não gostava nada e sabia que estava a decorar aquilo para esquecer a seguir. Era uma motivação imediata – fazer aquele teste – e depois esquecia tudo.

Por contraponto, o estudo regular é amigo da boa prestação.
A informação fica gravada.

E é importante planear o estudo?
A planificação do estudo é muito boa porque ajuda-nos a organizar o nosso trabalho. Há situações que fogem da rotina, situações inesperadas, mas se tivermos uma planificação feita, isso ajuda-nos a cumprir muito melhor as responsabilidades. Falamos da planificação do aluno, dos pais, de toda a família. Se tenho duas filhas e se elas ainda estão comigo, não posso ir para qualquer sítio e esquecer-me da vida delas.

Numa turma, ainda para mais com trinta alunos, há ritmos muito diferentes. É possível equilibrar a balança, dar-lhes a todos as mesmas capacidades de estudo e atenuar as diferenças?
É complicado. Dou-lhes um exemplo: dar português a estrangeiros, alunos que não diziam um “olá”. Equilibrar isso quando estavam em turmas com outros alunos era complicado. É um desafio.

E consegue-se?
Que remédio! Mas requer muito trabalho, muito dinamismo na aula e fazer com que eles nunca parem. E há outro problema: quando os pais se apercebem de que há crianças com necessidades educativas especiais. Há pais que aceitam bem, outros nem tanto e sublinham que não querem que os filhos fiquem para trás. Tem de se dar apoio àquelas crianças e jovens e garantir que os restantes não fiquem para trás.

E é possível recuperar os alunos em qualquer idade?
Às vezes, com muita conversa e muita palmadinha nas costas. Num dos livros digo que a motivação é a mola fundamental, fazê-los perceber a importância do estudo e que não estão na sala para rebentar o fundo das calças nem para fazer o jeitinho à mãe ou não deixar o pai triste. Há que fazê-los pensar onde o estudo pode levá-los. O que têm em casa e que um dia mais tarde querem fazer diferente e o que é preciso fazer para chegar lá. Por exemplo, na Amadora. Havia miúdos que não dormiam à noite porque tinham andado à facada ou porque havia tiroteio na rua deles. Um aluno que chegava 10 minutos atrasado porque tinha ido levar um irmão à ama e o outro irmão à escola, que chegava tarde porque tinha feito o papel de mãe – eu ia marcar falta a um aluno assim?

Tudo isto requer uma sensibilidade muito grande por parte dos professores.
Sim, esse miúdo já tinha uma história de vida. A mãe saía às seis da manhã de casa e voltava à meia-noite e ele ainda estava preocupado se o irmão chegou ou não e com o que tinha de ir fazer para o almoço. Vou estar a penalizá-lo?

Uma criança ou jovem que venha de um contexto social mais complicado tem obrigatoriamente mais dificuldades para estudar que outro vindo de um ambiente mais protegido?
Não é linear. Às vezes, um “menino da linha” tem tudo e não precisa de lutar por nada. Um bom emprego? Para quê? O pai arranja. E o contrário pode acontecer: uma criança motivada porque não quer que a avó passe fome, não quer que o pai ou a mãe passem fome. Soube de casos assim. Em casos desses, a motivação é fundamental.

Já lidou com casos de alunos com insucesso crónico?
Um ano de acompanhamento dos alunos nem sempre é suficiente para fazer esse diagnóstico tão absoluto, mas não me recordo de nenhum caso assim.

Sentiu sempre que houve evolução com os alunos com que trabalhou?
Penso que sim. Entre começar, estimular, conseguir... O tempo que estamos com eles, um ano, é muito pouco. Seria diferente se fosse um ciclo inteiro. Dei aulas de Latim e nessa altura cheguei a estar três anos com eles e conseguia ver o percurso que faziam. Nos alunos com quem estive apenas um ano, notava pelo menos uma predisposição diferente.

Como é que foi acumulando conhecimento nesta área?
Fui fazendo pesquisa, lendo bibliografia. E fui-me apercebendo de que muito daquilo que se vai vendo nos livros –nomeadamente, em métodos de estudo – vai buscar informação ao primeiros estudos que já foram feitos.

E que estão desactualizados.
Exactamente. E depois é cópia de cópia. Não se parte de dados e de pesquisas actuais, como fiz para o último livro. Comecei a perceber que tudo é de autores ingleses, autores americanos, que não estão na nossa realidade e é tudo muito antigo. O que havia antes não tem nada a ver com a realidade actual.

Estudar tem de ser uma coisa séria?
Não! Estudar pode ser até uma coisa descontraída. Estudar não tem de ser levado muito a sério nem tem de ser uma coisa muito pesada. Estudar tem de fazer parte da vida como comer, jogar à bola e passear. Se a pessoa integrar tudo isso na tal planificação consegue fazer tudo. Se reservarmos um tempo para tudo isso, fazemo-lo com mais prazer, com maior utilidade, sem ser pesado e conseguimos resultados muito superiores.

Mas é importante que o estudo se transforme num hábito?
Sim, manter uma rotina é extremamente importante. Tenho de dar o exemplo da Leonor [a filha mais nova, de dez anos]. No ano passado, ela não fazia trabalhos de casa, porque a professora não mandava. Como é que, este ano, põe na cabeça que tem de fazer trabalhos todos os dias se, até ao ano passado, nem ao fim-de-semana os fazia? É muito complicado. Eles tinham de trazer nem que fosse uma cópia de três linhas. A escola tem de exigir um bocadinho de tempo em casa. Na cabeça daquelas crianças não há trabalhos de casa porque a escola não implica trabalho fora da sala de aula. Mas implica! Nem que seja passar os olhos por aquilo que estiveram a fazer.

É mais difícil levar os alunos a concentrarem-se no estudo com a multiplicidade de estímulos que existem hoje?
Hoje é preciso muito cuidado para canalizar a atenção dos alunos. É difícil porque há muita motivação, há muita coisa gira lá fora. É preciso dizer que é tudo muito giro mas que a escola também é importante. O resto pode ser muito mais giro e melhor, muito mais útil e muito mais aproveitado se a matéria estiver em dia. As gargalhadas com os amigos vão ser muito mais estridentes.

Exige maior acompanhamento dos pais?
Sim, por vezes tem de haver mesmo uma proibição. E eles sabem isso. Eles notam nos pais e nos professores. Notam e agradecem. Falo como mãe e como professora. Logo a seguir percebem o benefício e são capazes dizê-lo.

Que dicas há para aprender a estudar?
Há várias. Ter um bom local de estudo. O ideal é ter uma biblioteca, um local só para nós. Mas nem todos têm essa possibilidade. Um cantinho só para nós, onde gostemos de estar – na sala, no quarto –, onde ninguém nos incomode e onde consigamos ter o material necessário, para não nos dispersarmos. Com a televisão e os telemóveis desligados. Depois, nem ter um ambiente muito rígido, quer quanto à cadeira, quer quanto à temperatura, nem muito confortável, porque também se cai no sono rapidamente.

E o tempo de estudo?
A planificação é muito importante. Ter tudo muito bem estruturado e não fazer horas a menos nem horas a mais. Porque se se prolongar demasiado o tempo de estudo e não se fizer pausas para ir à casa de banho, ir à janela, não se tem tanto aproveitamento.

E saber estudar?
Sim, não basta ler, é preciso fazer uma leitura activa. Ir sublinhando, mas não em demasia, fazer uns resumos e estudar a partir deles, fazer esquemas, confrontá-los sempre com o texto e perceber se está lá tudo. Fazer uma boa preparação para os testes e, com isso, reduzir aquela ansiedade que vem sempre com as avaliações. Claro que há sempre pessoas mais ansiosas que outras.

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