20/6/21
 
 

Como se saem os nossos alunos?

Patrícia Dias lembra-se de ser estudante e ter colegas que, durante as aulas, enchiam os cadernos com desenhos enquanto o professor falava. “Parecia que não estavam atentos, mas depois ouviam qualquer coisa da matéria e participavam ou faziam uma pergunta sobre isso.”

O exemplo serve à professora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica para explicar que as dificuldades que encontra nos seus alunos hoje não serão maiores do que aquelas que existiam quando era aluna. São apenas diferentes.

Falamos, neste caso, do multitasking: hoje muitos estudantes estão nas aulas a fazer várias coisas ao mesmo tempo – seja a tirar notas, a pesquisar no telemóvel ou computador ou até a conversar no Facebook. Mas a professora de Comunicação e Marketing não olha para esse fenómeno como um problema recente: “É verdade que os estudantes têm hoje um maior leque de opções. Mas sempre existiram alunos dentro da sala a olhar pela janela, não são os telemóveis e computadores que mudam isso.”

Ainda assim, reconhece que agora “é mais difícil prender a sua atenção durante um período mais alargado de tempo”, opinião partilhada por Rosa Vasconcelos.

A presidente do conselho pedagógico da Escola de Engenharia da Universidade do Minho diz que os alunos que entram nas suas aulas têm “muita dificuldade de concentração”. “Às vezes basta uma coisa pequena para dispersarem logo.” Mas para ela, ao contrário de Patrícia Dias, as tecnologias são as principais responsáveis. “Até já lhes disse que vou propor um inibidor de sinal na sala de aula”, brinca.

Não é fácil generalizar a apreciação que se faz dos alunos portugueses. “Não podemos falar em todos por igual, são diferentes uns dos outros”, ressalva Isabel Vieira, professora de Economia da Universidade de Évora, acrescentando que as dificuldades sentidas são mais acentuadas no 1.o ano da licenciatura.

A média de entrada no ensino superior, por exemplo, é um bom indicador da forma como se vão orientar no curso.

“Normalmente, os alunos com boa média têm boa capacidade de escrita, expressão oral, organização… É muito raro haver surpresas – pode existir um escorregão inicial, mas geralmente acabam por recuperar.”

 

ESCRITA Os bons alunos estão normalmente bem preparados. Já os estudantes com notas inferiores, principalmente os rapazes, têm um vocabulário “pobre”, “não são muitas vezes capazes de escrever o que querem dizer” e alguns até utilizam nos testes “a mesma linguagem que usam nos SMS.”

Patrícia Dias e Rosa Vasconcelos acrescentam mais uma fragilidade: muitos caem na tentação da cópia. “Em vez de reflectirem sobre a matéria, limitam-se a reproduzir aquilo que lêem ou que ouvem nas aulas, por vezes sem critério”, conta a professora de Comunicação e Marketing. “Não será a maioria mas, não raras vezes, estou a corrigir um exame e leio frases que tenho nos meus slides. Fico na dúvida se terão copiado ou decorado.”

Rosa Vasconcelos partilha um problema ainda mais complicado – o copy paste –, assegurando que tem alunos que fazem plágio sem sequer perceber que o estão a fazer. Já em relação à capacidade de construir textos e estruturar ideias, o desempenho dos estudantes é positivo. Patrícia Dias assegura que os seus alunos não têm grandes dificuldades nesse campo (ao nível da escrita, quem é de Comunicação “está em vantagem”). Mas isso também não é um handicap em Engenharia, avisa Rosa Vasconcelos. Apesar de alguns erros ortográficos, “não notamos grandes dificuldades”. “Mesmo aqueles que fazem copy paste sabem estruturar esse copy paste – têm uma boa capacidade de estrutura mental, talvez por serem de Engenharia.”

 

ORALIDADE A professora da Universidade do Minho recorda o caso de um aluno que, acabadinho de chegar ao 1.o ano, teve de fazer uma apresentação oral: conseguiu fazê-la, mas sempre de costas para o público. Mais tarde, já no 5.o, tornou-se um excelente orador.

Este é um dos exemplos que a leva a acreditar que todas as dificuldades podem ser trabalhadas durante os cursos – a timidez com que os alunos chegam à universidade é uma delas.

Patrícia Dias corrobora: “Mais do que terem dificuldades em articular o discurso, a maior barreira é a vergonha de falar para uma turma.” E alguns, principalmente os mais fracos, mostram ainda pouca capacidade de improviso. “Como muitas vezes não se preparam devidamente, não conseguem fazê-lo”, esclarece a professora Isabel Vieira.

 

INTERPRETAÇÃO “Comente a seguinte afirmação.” Só esta frase já seria suficiente para muitos se espalharem ao comprido num teste. “Alguns não percebem que comentar implica tomar uma posição e justificá-la”, diz a professora de Economia. Interpretar é também o grande problema identificado pela professora de Engenharia: “Notamos isso nos textos e nos testes. Perguntamos-lhes alhos, respondem-nos bugalhos. Muitas vezes têm resultados fracos não porque não saibam a matéria, mas porque não perceberam a pergunta.”

Patrícia Dias prefere destacar a falta de profundidade das respostas dos alunos nos testes e trabalhos académicos. “Noto que muitos têm dificuldade em analisar temas em profundidade. Trazem informação da Wikipédia, lêem o resumo de um artigo, mas não o artigo, lêem uma review mas não o texto… E se na licenciatura isso talvez possa ser suficiente, no mestrado não.”

São estes alguns dos desafios que estas professoras identificam hoje nos seus alunos. Mas viremos a pergunta do avesso: e os docentes, como são hoje? Estarão a ficar menos exigentes? As exigências de hoje não são as mesmas de antigamente, dizem-nos. “Se confrontasse os alunos de hoje com um teste de há dez ou 15 anos, provavelmente chumbavam – e o mesmo aconteceria se fizesse o inverso”, garante Isabel Vieira.

“Em algumas coisas seremos mais exigentes, noutras menos. O importante é que esta exigência esteja adaptada àquilo que os alunos têm de saber para entrar no mercado de trabalho.”

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