28/10/20
 
 
Ricardo Costa 01/10/2015
Ricardo Costa

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Os pecados do candidato ao trono

Domingo será um dia imprevisível, mas nele se precipitarão os erros estratégicos “deste” PS de António Costa.

© Andre Kosters/Lusa

Amiudadamente referi aqui desde Dezembro a igual possibilidade de a coligação e o PS poderem ser os vencedores do próximo domingo. A probabilidade de um taco a taco sempre me pareceu demasiado provável, no contexto de recuperação eleitoral de uma coligação PSD/CDS. Hoje parece que estamos já para além dessa luta até à meta e o candidato a entronizar há um ano parece correr atrás dos prejuízos. E dos indecisos e abstencionistas.   

Porque afirmei e reiterei que as legislativas não eram assunto arrumado depois de se apear Seguro da liderança do PS? Fundamentalmente pela acumulação de erros estratégicos do partido desafiador. 

1) O PS de Costa era inicialmente o PS de Sócrates e pouco mais. Caindo Sócrates, a máquina do partido que restava e os estudiosos e leais dos tempos dos ministérios e da Câmara de Lisboa não chegariam para enfrentar a máquina de mobilização que uma coligação coesa poderia colocar em marcha se os tempos viessem a correr de feição. Costa ficaria demasiado só no seu valor intrínseco e isso poderia ser fatal.  

2) Costa e os seus conselheiros desenharam um discurso para um país afundado numa depressão profunda. Ignoraram os efeitos (mesmo que potenciais) na economia da ajuda do BCE e da descida do preço do petróleo. Ou pensaram que o médio prazo só seria em 2016, já a governarem o país. Negligenciaram o aumento do consumo (= confiança) no primeiro semestre de 2015 e o emprego sazonal. Falaram até há duas semanas para um país que, em parte, já não os ouve. E aquele que os ouve (o país ressentido, que ficou pior) poderia votar no PC e até no BE, em prejuízo do voto útil – um risco que nunca apareceu no Excel dos consultores do PS e que corre célere.

3) Torcer para mais resgates financeiros seria sempre um desastre político. E essa imagem do PS passou sem grande resistência. Desprezou-se por completo o efeito (desde logo psicológico) que uma saída da troika sem novo resgate ou programa cautelar produziriam. O PS apareceu aos olhos de muitos como uma espécie de filial do discurso do PC e do BE. Tudo para correr menos bem. 

4) Costa não conseguiu prever o dano que a colagem ao Syriza lhe infligiria na reputação. Quando viu na TV o desespero do povo grego, guinou, mas sem proveito. O mal estava feito. É o que mais se diz na rua para justificar um voto que há dois anos não era: não queremos ser a Grécia! No fim, o voto emocional da sabedoria “simples” ou “popular” faz-se destas conclusões lineares. Essa emoção foi continuamente ignorada por Costa e por alguns salões de Lisboa. 

Eram demasiados sinais de desorientação estratégica para deixar de lado, por fim, a união de Passos e Portas. Que tinham a esperança de haver um derradeiro eclipse. E ele veio: Costa deitará sempre abaixo um governo resultante de a coligação ser a que recolhe mais votos. Tudo o que não podia dizer – no pressuposto de que estará na liderança do PS para lá da derrota que esse cenário implica… – ao centro indeciso, à classe média e a esse “importante” eleitor que disse não mais votar PSD ou CDS mas que, se for votar, só votará, agora, na coligação. 

Mesmo com tantos erros “deste” PS – que absorvem os erros da coligação e os méritos do programa de Costa –, domingo é mesmo um dia imprevisível, com tantos milhares por decidir e tanto abstencionista que pode sair de casa. Um dia para a ciência política estudar e muitos concluírem que a vida – também na política – é feita acima de tudo das nossas opções e escolhas. Seja como for, há sempre uma maioria em democracia. Dela falaremos para a semana. 

Professor de Direito da Universidade de Coimbra. Jurisconsulto
Escreve à quinta-feira

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