28/10/20
 
 
Fim do Verão, fim da Fonte da Telha?

Fim do Verão, fim da Fonte da Telha?

O novo Plano de Pormenor, a discutir nas próximas semanas, prevê a demolição de estabelecimentos e casas de moradores. Será este o fim da Fonte da Telha como a conhecemos? É aproveitar enquanto dura.

“Cure-se da coluna vertebral com o invencível Tarzan Taborda”, saudavam umas letras vermelhas e azuis pintadas no prédio branco da Estrada da Descida – e é esta a morada correcta para colocar no GPS. “Cure-se mesmo”, acrescentava-se à frente, depois dos números de telefone que, entretanto, já deixaram de funcionar. “Expriência [assim mesmo também, sem o “e”] e saber em mãos de veludo.”

As mãos de veludo e o saber de Tarzan Taborda já não estão ali desde 2005, quando o lutador e, mais tarde, endireita morreu aos 78 anos com um ataque cardíaco sem aviso, tanto que no dia anterior tinha ido ao estabelecimento Manuel dos Frangos, também na Fonte da Telha, “e nada deixava adivinhar que estivesse doente”, noticiou na altura o “Correio da Manhã”.

Do prédio branco onde morava o homem que também era duplo de cinema e chegou a contracenar com Brigitte Bardot e John Wayne só se conseguem agora avistar umas letras a dizer “Solário”, e o prédio foi pintado de cinzento escuro para que ninguém ali vá ao engano. Aos poucos, a Fonte da Telha vai deixando de ser o que era – e agora já nem estamos a falar de Albano Taborda Curto Esteves (era este o seu nome completo).

“Claro que me lembro do Tarzan Taborda, já faleceu há muitos anos. Era uma figura mítica aí da Fonte da Telha”, diz--nos Luís Martins na mesma Estrada da Descida, vendedor de toda a parafernália de praia que se possa imaginar. “Se o seu filho se esqueceu de um chapéu de praia, tenho aqui. Se não trouxe protector, também aqui tenho. Somos um apoio de praia como são os restaurantes e bares, até temos livro de reclamações, é pena é que não sejamos tratados da mesma maneira”, apresenta-se.

Não é que precisássemos de apresentações. Neste princípio de Outono com dias de praia melhores que em Agosto, ainda vamos a tempo de escolher uma toalha de praia da sua banca, das melhores que temos visto, onde emblemas do Benfica e do Sporting rivalizam com gatinhos, mulheres nuas e Bob Marleys – difícil a escolha.
Apesar de a época balnear estar no fim e o futuro da Fonte da Telha ser incerto, não há promoções a assinalar nesta banca perto da paragem dos autocarros: as toalhas estão entre os 10 e os 25 euros, conforme o tamanho que escolher para se deitar.

Da Fonte da Telha para o Colombo

“Saí da tropa a 5 de Maio de 1980 e a 12 de Maio já estava aqui. Na altura nem sabia o que isto era, mas foi um amigo que me trouxe”, conta Luís. Na “época de Inverno”, como lhe chama, está nos quiosques em frente à estação rodoviária do Colombo. “Enquanto houver sol, a gente vai estando por aqui”, diz, e a gente inclui mulher e cão.

O sol ainda promete durar umas semanas, mas talvez não vá nascer para muitos comerciantes no próximo ano. Pelo menos naquela praia. É o caso do Retiro do Pescador, um dos restaurantes mais emblemáticos da terra, onde pode agarrar o garfo com uma mão e tocar na areia com a outra – fica mesmo em cima da praia.

“Ainda não sabemos o que nos vai acontecer, mas disseram-nos que isto vai ser demolido”, diz o dono do restaurante que abriu há 50 anos como barraca de praia e cuja especialidade é o peixe grelhado e a caldeirada à pescador (28 euros para duas pessoas).

O novo Plano de Pormenor da Fonte da Telha, apresentado pela Câmara de Almada e a discutir nas próximas semanas, prevê a demolição da maior parte dos estabelecimentos comerciais para dar um novo ar à zona, e só três, os bares mais sofisticados e com consumo mínimo na esplanada, como o Rampa, ficam de pé. Com eles, vão também abaixo as casas dos locais.

Nos anos 80, os moradores e comerciantes já tinham assistido a demolições de casas ilegais (ao todo 576) e agora parecem levar a machadada final, mesmo no que diz respeito a terrenos privados. É o caso de Adriano Galinho, de 56 anos, que provavelmente será realojado num bairro social das redondezas. “A minha família vai ser toda separada. Não conheço nenhuma localidade em que uma profissão seja privilegiada em relação às outras. Só os pescadores no activo é que vão poder ficar aqui.”

Não é o seu caso nem o da sua filha de 26 anos, cabeleireira, nem do seu sogro de 80, pescador reformado. “Só o meu filho que tem 33 anos e é pescador pode ficar aqui.”

E mesmo os pescadores que vão ter direito a ficar ali, num novo bairro, estão insatisfeitos. “Isto vai acabar com a Fonte da Telha”, diz Fernando, que foi para o mar às três da manhã e ainda não dormiu – mas já vendeu carapau, a 2,5 euros a caixa (na praça vendem ao dobro do preço, diz-nos). “Já viu como é que está a Costa? O que fizeram para ali?”

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