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Ana Markl 25/09/2015
Ana Markl

opiniao@newsplex.pt

Repensar a infidelidade

Nem sempre quem trai está à procura de outra pessoa, não mais do que está à procura de uma outra versão de si mesmo.

"Uma traição pode ser um antídoto contra a morte" - quem o diz é a psicoterapeuta belga Esther Perel, uma das pessoas mais eloquentes a falar sobre amor nos dias que correm. Na sua recente Ted Talk "Rethinking Infidelity" (procurem no YouTube), Perel desconstrói com uma surpreendente assertividade cromática as zonas ambiguamente cinzentas deste assunto.

Ela é dona de uma sensatez apaixonada que me faz crer que haja grande conhecimento empírico por detrás do seu discurso. E não estou com isto a insinuar que Perel ande por aí a trair que nem uma doida - até porque ela não defende, mas também não condena, muito menos prescreve a infidelidade -, mas sim que tenha vivido amores intensos e inteligentes. 

Nesta Ted Talk, Perel tenta encontrar as razões por detrás da traição quando perpetrada por pessoas em relações felizes para que, quando consumada e assumida, a infidelidade possa ser transformada numa experiência positiva para a relação.

Porque ela acontece - de várias formas e cada vez mais - e nem sempre se deve a problemas entre o casal. Grande parte das vezes, o problema é o facto de as pessoas felizes sentirem que podem ser ainda mais felizes - ou seja, se antes a traição e o divórcio advinham da infelicidade conjugal absoluta, hoje advêm também da felicidade conjugal relativa. E ainda não sabemos bem se isto de irmos à procura de melhor é uma luta ou uma desistência.

Seja como for, talvez mais do que imaginamos - ou mais do que gostaríamos de acreditar - estamos sozinhos nestas contemplações e Esther resume essa solidão na perfeição quando conclui que nem sempre quem trai está à procura de outra pessoa, não mais do que está à procura de uma outra versão de si mesmo - talvez apenas uma versão menos previsível, menos "lá estás tu" (uma das expressões mais tóxicas para uma relação, digo eu).

No fim, pois claro, tudo vai parar ao buraco negro do pós-modernizamos - queremos ser mais, ainda mais, cada vez mais felizes - porque achamos que podemos sorver a vida mais sofregamente por sermos uns neuróticos desgraçados no que se refere ao tempo e à morte. Quero passar o resto da vida assim? Será que isto me chega? Haverá mais além disto? Daí o "antídoto para a morte". Mas agora não usem isto como desculpa, seus espertalhões.

Apresentadora, guionista, e porteira do futuro
Escreve à sexta e ao sábado


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