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Carrilho da Graça: Lisboa. Uma relação para ver a escola
O arquitecto foi feito Grande-Oficial da Ordem do Mérito em 1999

Carrilho da Graça: Lisboa. Uma relação para ver a escola

O arquitecto foi feito Grande-Oficial da Ordem do Mérito em 1999 Helena Poncini Miguel Branco 23/09/2015 21:15

Foi inaugurada ontem no CCB a exposição que demonstra o ponto de vista de um dos maiores arquitectos nacionais sobre a capital do país 

Enquadramentos sociológicos à parte, há coisas que nunca mudam. A fila dos Pastéis de Belém chega quase sempre aos Jerónimos. Um pouco como as exposições – não é que tenham um mar de gente à porta e nem sequer são doces – que, invariavelmente, só estão prontas cinco minutos antes da inauguração, o que significa que, quando os jornalistas chegam ao local, ainda tudo parece um esboço. Felizmente estamos no território da arquitectura, onde os projectos – mesmo os que não saem do papel – são coisa muito mais valiosa que um mero rascunho. 

Na Garagem Sul do CCB tudo se ultima para a inauguração de “Carrilho da Graça: Lisboa”, que só viria a acontecer às 19h. Escadotes daqui para ali, tira lâmpada mete lâmpada, corta de um lado cola do outro... mostram que, vista desta forma, se assemelha a um processo inacabado – imagem bem interessante. A isto segue-se a rodinha da praxe, faz--se um círculo em torno de João Luís Carrilho da Graça, que trata de contextualizar e trocar os termos técnicos complexos da arquitectura por português acessível. “Há sempre duas linhas em qualquer topografia: as linhas da água e o seu oposto, as linhas altas, conhecidas como linhas de festo. São estas que compõem a estrutura de um território, coisa que se acentua em Lisboa, cidade muito complexa para se construir.” Dito isto, convém acrescentar que Carrilho da Graça não é pessoa para se deixar levar pela dificuldade: tem 27 projectos na capital. “Carrilho da Graça: Lisboa” está na Garagem Sul do CCB até 14 de Fevereiro de 2016, ou seja, tempo não lhe falta. 

O arquitecto começou a trabalhar nesta exposição há três meses, mas só depois percebeu que se queria cingir a Lisboa. “Queria, digamos, explicar bem a temática, se fosse incidir sobre todas as cidades onde trabalhei… provavelmente ficaria uma ideia geral, mas nada de muito profundo. Queria explicar a cidade de Lisboa a partir da estrutura da paisagem e do território, bem como da forma como foi sendo construída ao longo da história”, explica. 
Da explicação segue ao exemplo. Aqui há maquetas para todos os gostos, mas se existe alguma à qual devemos atribuir maior importância é àquela que nos permite ver Lisboa como nunca antes. Os projectos de Carrilho da Graça estão assinalados por entre a minicidade que, vista assim, assusta. A topografia lisboeta – isto não é novidade, é apenas o choque do confronto – é um pau de dois bicos. A luz é incrível, espaços únicos, como se sabe, mas plana... é que não é – ver esta exposição é também parar de criticar a preguicite e a falta de bicicletas na cidade.

A Escola Superior de Comunicação de Lisboa, a futura sede da EDP, o futuro Terminal de Cruzeiros de Lisboa, o Pavilhão Multiusos que nunca chegou a avançar (Carrilho da Graça não ganhou o concurso que deu origem à actual MEO Arena), o Pavilhão do Conhecimento, tudo isto está aqui para ser observado a outra escala. Provavelmente, o leitor não fazia ideia de que estas obras eram da autoria de Carrilho da Graça, mas este confessa que são quase sempre bem recebidas. “Os vários projectos que fiz, e até as obras, têm tido sempre uma boa recepção, mas não são muito explicadas, são diferentes do que existia antes e pronto. Lembro-me que quando fiz a primeira obra em Lisboa, a Escola Superior de Comunicação Social, um colaborador meu contava-me que ia num táxi e o taxista lhe disse: ‘Eh pá, isto é incrível.’ Ou seja, sendo aquele um estilo diferente, não é um ovni e, por isso, o taxista também gosta. Acho piada a isso”, conta. 

Diga-se ainda que o arquitecto, natural de Portalegre, vive em Lisboa há 45 anos, pelo que a relação entre ambos está perfeitamente consolidada. “Esta não é uma exposição sobre JoãoLuís Carrilho da Graça nem sobre a sua obra”, pode ler--se no texto de apresentação da exposição. Coisa que, naturalmente, se confunde: “Esta é a minha forma de ver Lisboa. Qualquer edifício, mesmo que seja completamente privado, uma casa, tem uma presença pública na cidade e, portanto, temos sempre essa dimensão de relação com o espaço público. Tento sempre utilizar cada projecto para, se possível, melhorar a cidade.” Nós avisámos. 

Exposição

Carrilho da Graça: Lisboa
Exposição do arquitecto João Luís Carrilho da Graça sobre o seu trabalho em Lisboa. Curadoria de Marta Sequeira e Susana Rato. 
 
Preço 4€ 
Até 14 de Fevereiro de 2016  

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