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Vasco Gaspar. “Estamos metade do tempo ausentes, distantes da vida”
Vasco Gaspar divide-se actualmente entre Portugal e São Francisco

Vasco Gaspar. “Estamos metade do tempo ausentes, distantes da vida”

Vasco Gaspar divide-se actualmente entre Portugal e São Francisco Manuel Vicente Marta Cerqueira 23/09/2015 12:04

Ser psicólogo só já não chegava. Vasco é há mais de dez anos especialista em mindfulness, que mais não é do que a capacidade de estarmos realmente presentes. E é isso que anda a ensinar aos executivos com cargos de topo.

Vasco tem 36 anos. “Mas sinto-me dez anos mais novo”, garante. Há uma década tinha mais 20 quilos e fumava 40 cigarros por dia. A meditação foi o ponto de partida para uma mudança radical. Começou a ler, a praticar, a querer saber mais. E, em 2014, a curiosidade deu frutos. Certificou-se no programa Search Inside Yourself da Google, tornando-se um dos 30 formadores em todo o mundo especializados em bem--estar organizacional e aumento da produtividade. Actualmente ensina a prática de mindfulness a executivos com cargos de topo, mas acredita que todos os que lidam com stresse podem beneficiar com a prática de meditação diária. Para que o mindfulness chegue a todos, lançou este mês o livro “Aqui e Agora”, direccionado a pessoas que “simplesmente querem ter um pouco mais de bem-estar na sua vida”.

Começo pelo básico. O que é o mindfulness?
Gosto de o ver como uma capacidade que nós já temos, ou seja, não é nada de novo que vamos buscar fora. É a capacidade de estarmos presentes no que está a acontecer no agora. É estar aqui, sem estar perdido em pensamentos do futuro ou lembranças do passado. Ter a mente e o corpo no mesmo sítio, algo que parece óbvio mas que não fazemos na maior parte do tempo.

É verdade que passamos metade da vida distraídos?
Há um inquérito feito para uma investigação da Universidade de Harvard que questionou 15 mil pessoas, através de uma aplicação, sobre aquilo em que estavam a pensar no momento. Os resultados foram surpreendentes: em 47% do tempo, as pessoas não estavam presentes.

Quase metade do tempo… 
Sim, estamos metade do tempo ausentes, distantes da vida. Passamos o dia a pensar no ontem e no amanhã, mas a nossa vida acontece no agora.

Mas não é inevitável que o pensamento fuja?
É, porque o nosso cérebro está preparado para prever problemas e reflectir sobre o passado. Fazemos isso desde o tempo que éramos presas e predadores. Isso tem a vantagem de acumular memórias e preparar o futuro, mas o problema surge quando deixa de ser uma ferramenta e nos tornamos escravos disso. E quando isso acontece, estamos noutro mundo, longe do aqui e do agora.

Como se tornou especialista em mindfulness?
Partiu da minha necessidade de lidar com problemas. Há sete anos tinha mais dez quilos e fumava 40 cigarros por dia, era a minha forma de gerir o stresse. Sentia um vazio e andava sempre à procura de o preencher com coisas exteriores a mim, até que decidi procurar dentro de mim. Comecei a praticar meditação, a ler sobre ciência, sobre budismo, tirei vários cursos. Mas é a prática que torna alguém especialista, até porque, acima de tudo, temos de ser especialistas em nós próprios.

Mas foi com a meditação que conseguiu perder peso e deixar de fumar?
Ajudou, sem dúvida. Comecei a perceber que o impulso para comer um doce não vem da fome, mas de um desejo. Percebi que o impulso faz parte de mim, mas eu não sou o impulso. O mindfulness passa muito por conseguir ver os pensamentos e escolher distanciar-se de alguns.

As pessoas têm consciência de que nem sempre estão presentes?
Não, ninguém tem. Mesmo quem pratica meditação não evita perder-se em pensamentos, a diferença é que se apercebe mais rapidamente dessa fuga e consegue voltar ao presente com facilidade. 

E como se consegue atingir esse nível?
Com prática. Ninguém vai tornar-se mais consciente só a ler o livro, a ver um filme ou a ir a um workshop, tem de se praticar. 

Mas na prática como funciona?
No contexto do mindfulness, a respiração é fundamental e é nisso que foco a minha atenção. Fico mais concentrado, apesar de as distracções serem inevitáveis. O objectivo é aceitar que a distracção é normal e faz parte do processo, e é quando aceito isso que posso voltar à respiração. É neste processo de concentrar, desconcentrar que posso reforçar partes do cérebro ligadas à atenção.

Ainda há muitos mitos sobre a meditação?
Muitos. As pessoas acham que tem ser uma coisa esotérica, ou que têm de acreditar em algo, ou que têm de seguir um guru dos Himalaias.

A meditação pode ser praticada em qualquer lado?
Eu gosto de aproveitar quando venho de comboio para Lisboa, por exemplo. Mas é claro que o ideal é ter um espaço com o mínimo de distracções possível. Nas empresas, por exemplo, há quem vá para a casa de banho meditar. É chato estar de olhos fechados num open space (risos).

Pratica todos os dias?
Sim, uma hora de manhã e 30 minutos ao deitar, apesar de ter consciência de que o momento mais benéfico para mim é o fim da tarde, para passar do stresse do trabalho à parte familiar. É quase como tomar banho ao chegar a casa mas, neste caso, um banho mental. A minha mulher também pratica e tenho até um amigo que é professor de Física, uma mente altamente científica, e que leu, experimentou e já não passa um dia sem meditar.

Uma pessoa que comece a praticar mindfulness deve esperar que alterações no dia-a-dia?
A calma é quase imediata, mas com o tempo são evidentes algumas mudanças estruturais em zonas do cérebro ligadas à atenção e ao stresse. O normal é terem as outras pessoas a estranhar a falta de reacções mais intempestivas. A directora de uma empresa com a qual trabalhei era conhecida por gritar muito e, depois de ter feito o curso, contou-me que o chefe lhe perguntou, preocupado, o que se passava, que já há muito não lhe ouvia os gritos.

É uma fórmula universal?
Não acredito muito em fórmulas universais, panaceias e soluções milagrosas. É uma ferramenta de higiene mental. Há quem prefira meditar meia hora, outros, cinco minutos, uns deitados, outros de pé, uns de manhã, outros à noite. Nós somos o nosso laboratório e temos de encontrar o que nos serve.

Há algum público-alvo?
Quase toda a gente que lide com situações de stresse beneficia com esta prática. Veja-se a minha avó. Sofria de tonturas e percebi que ela, devido a preocupações do dia-a-dia, começava a hiperventilar, o que leva à perda de visão periférica e, consequentemente, às tonturas. Ensinei-a a respirar e hoje medita todos os dias. Depois de ver este exemplo, de uma pessoa que não sabe ler nem escrever e que pode ter benefícios disto, vejo que o mindfulness é mesmo para qualquer pessoa.

Que ponto temos de atingir para saber que funcionou?
Há coisas que podemos medir, como a frequência cardíaca. Mas sem recorrer a aparelhos, é possível ter logo a sensação de calma, tranquilidade e paz de espírito. Mas é algo muito pessoal, cada um sabe quando chega lá. 
No livro conta episódios que lhe aconteceram, como o dia em que foi trabalhar com partes do fato de conjuntos diferentes ou a viagem de metro em que estava com meia barba por fazer... Era uma pessoa especialmente distraída?
O mais engraçado é que eu não me considero, nem considerava, uma pessoa cabeça no ar e, por isso, esses episódios serviram de wake-up call. Esse tipo de distracções acontecem a toda a hora a toda a gente. Ainda este Verão vi nas notícias que um casal se esqueceu da filha bebé numa estação de serviço e só se lembrou 150 km depois. Estavam claramente perdidos em pensamentos.

O livro funciona como um workshop?
Sim, são oito semanas de curso. A minha intenção com o livro é desmistificar o tema e inspirar a que comecem a praticar. Se a pessoa ler só o livro, não chega lá.

Como tem sido a receptividade em Portugal?
O sucesso dos livros de mindfulness prova que as pessoas já deixaram de o ver como algo esotérico. Já perceberam que há uma base científica e que podem tirar benefícios desta prática.

Trabalha mais em Portugal ou fora?
Em Portugal trabalho com empresas, em São Francisco como mentor do Search Inside Yourself da Google, e dou workshops em vários outros países. 

Em Portugal, o mindfulness já está integrado em que empresas?
Trabalho com o Santander, Isbam, Erikson, entre outras.

A Google é uma espécie de incubadora de ideias?
Acho que sim. É engraçado ver que são eles que criam os principais pontos de distracção, com o desenvolvimento de computadores, telemóveis e aplicações, e são também eles que dão impulso a práticas de meditação como o mindfulness. 

Encontra diferenças entre os trabalhadores e empresas dos diferentes países?
O stresse é transversal. Há cada vez mais trânsito, prazos mais apertados no trabalho, há mais pressão do mercado. Lá fora, o que sinto é uma maior abertura a estas temáticas.

No livro refere estudos que indicam que em pessoas com VIH, a prática de meditação abranda a velocidade com que o sistema imunitário se degrada. Em que outras doenças pode ser útil?
Em várias. Por exemplo, a diabetes, doenças cardíacas, e até já está provado que quem medita se torna mais resistente ao vírus da gripe. Um estudo feito com pessoas com psoríase dividiu um grupo que estava a fazer tratamento com ultravioletas. Metade fazia o tratamento enquanto ouvia meditações guiadas e os restantes estavam simplesmente em silêncio. Ficou provado que quem meditava durante o tratamento recuperava quatro vezes mais rápido que a outra metade do grupo. Ainda vivemos muito na ideia de que mente é uma coisa e corpo é outra, mas a verdade é que está tudo ligado.

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