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Charlie Hebdo acusado de xenofobia por cartoon com a criança síria afogada
Homenagem ao pequeno Aylan na praia

Charlie Hebdo acusado de xenofobia por cartoon com a criança síria afogada

Homenagem ao pequeno Aylan na praia Associated Press Diogo Vaz Pinto 17/09/2015 18:17

Nova polémica com o jornal satírico expõe a estupidez que se indigna diariamente nas redes sociais e faz temer que a sátira e qualquer crítica sofisticada possam ser banidos no Ocidente.

Em França, não causou estardalhaço nenhum. Era apenas outra edição do semanário satírico “Charlie Hebdo” a cair nas bancas. O foco, como não podia deixar de ser, é a crise dos refugiados que tomou conta do Verão europeu. Na capa, lá estava o título consonante com os ventos de boa vontade que percorriam o velho continente: “Bem-vindos migrantes!”

Era o cartoon de Coco que lançava o primeiro remoque: um europeu de nariz vermelho, segurando uma cerveja, refastelado na poltrona e de pernas estendidas sobre as costas de um refugiado, que surge de quatro, no lugar de uma mesa de apoio. “Sintam-se em vossa casa!”, diz o europeu.

Até aí, nada que chocasse as boas consciências. Mas algures no interior, Riss, outro colaborador, cobre duas páginas com os cartoons que colocaram de novo o jornal na linha de fogo. A onda de indignação formou-se no estrangeiro depois de ter surgido nas redes sociais a caricatura que faz alusão à morte de Aylan Kurdi, a criança síria de três anos cujo cadáver deu à costa numa praia turca.

Uma montagem levou muitos a pensar que se tratava da capa do semanário. No cartoon, sob o título “Tão próximo do objectivo...”, ao lado do corpo da criança vemos um cartaz publicitário numa evidente alusão à cadeia de fast-food McDonald’s. Com o palhaço – mascote dos restaurantes –, surge o anúncio a uma promoção: “Dois menus-criança pelo preço de um”.

A crítica mordaz do cartoon assumia por estes dias um eco curioso, dado que em alguns dos jornais que noticiaram a polémica, o esquema de publicidade em sites como o do “Expresso” captou a referência aos restaurantes e colocou-os no espaço publicitário, num deslize inadvertido que evidenciava a ferida sobre a qual Riss pôs o dedo. A atenção e o mediatismo no Ocidente já não se livram do oportunismo das marcas.

O choque provocado pela imagem de Aylan, ao fim de semanas em que o afogamento de centenas de refugiados assaltavam os cabeçalhos, precisou de encontrar a imagem ideal, que finalmente lançasse de forma eficaz a campanha de solidariedade que galvanizou a Europa. 

Corpo de Aylan surge ao lado de cartaz que alude à cadeia de fast-food McDonald’s 

Na página ao lado, outro cartoon ironiza os argumentos que têm sido usados pelo governo húngaro e outros países do bloco leste europeu para rejeitar as quotas obrigatórias de refugiados propostas pela Comissão Europeia. Segundo Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, cabe à Europa zelar pelos seus valores cristãos, sob o risco de perder a sua identidade, diluída pelo choque multicultural.

“A prova de que a Europa cristã existe” – é esse o título do segundo desenho de Riss, e nele surge Cristo a caminhar sobre as águas enquanto, ao seu lado, um refugiado se afoga. Na legenda Lê-se: “Os cristãos caminham sobre a água, as crianças muçulmanas afogam-se”.

As redes sociais, que por estes dias parecem ditar as prioridades editoriais de tantos jornais, encheram-se com as acusações de que o “Charlie Hebdo” estava a promover o racismo, a xenofobia, incitando ao ódio racial. Numa inversão do que aconteceu em Janeiro passado, quando (depois do atentado à redacção do jornal em Paris com 12 mortos e vários feridos) todos éramos Charlie, agora muitas das críticas eram assinadas sob a etiqueta “Eu não sou Charlie”. 

Entretanto, a publicação que enfrentava sérias dificuldades financeiras antes do ataque terrorista ter garantido a sua continuidade – devido aos milhões que entraram nas contas não só com o aumento das vendas como com as doações –, pode vir a ser alvo de um processo judicial.

Organização britânica ameaça apresentar queixa no Tribunal Penal Internacional 

Peter Herbert, presidente da Sociedade dos Advogados Negros, uma organização multicultural britânica, diz que estava a considerar apresentar uma queixa ao Tribunal Penal Internacional por “incitamento ao ódio racial e perseguição”. No Twitter, Herbert acusa o “Charlie Hebdo” de ser uma publicação puramente racista e que representa a perda dos valores na sociedade francesa.

Lendo os comentários que surgem nos fóruns online, a maioria das acusações resvalam para uma indignação que parece incapaz de fazer um mínimo esforço de interpretação dos cartoons. Muitas vezes ficam-se pelo primarismo mais literal ao acusarem o semanário de “gozar” com a criança de três anos que se afogou. Apesar do tom cáustico que é seu apanágio, não podia ser mais evidente a forma como os cartoons em causa procuram exacerbar os estereótipos racistas e religiosos, denunciando-os.

É possível que a sátira se tenha tornado um género demasiado sofisticado para o regime de consumo imediatista que as redes sociais promovem. Mas até nisso, o gesto do “Charlie Hebdo” mostra ser útil, declarando guerra à efervescente sensibilidade que tem ocupado o espaço da reflexão crítica.

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