18/9/19
 
 
Infância. Brincadeiras que atravessaram três gerações

Infância. Brincadeiras que atravessaram três gerações

Brincar é uma linguagem universal. As brincadeiras podem ter mudado ao longo das gerações mas uma coisa é certa: não há quem se esqueça de como é ser criança.

1. Abreu. As bonecas e o instinto maternal
A avó Ilda gosta de ter tudo sob controlo. E essa característica já dava ares da sua graça nas brincadeiras de criança: “Só queria ser a professora, a mãe ou a madrasta, que era para poder mandar!”, atira entre sorrisos. E ainda hoje é assim: “Não gosto que mandem em mim!”

Aos 80 anos, lembra-se da infância como se tivesse sido ontem. O tempo em que brincava com as irmãs e as amigas no grande quintal da casa de Aljustrel está cravado na memória. “As raparigas batiam-me ao portão e iam para lá brincar. Fingíamos jantares ou brincávamos às professoras.” As bonecas de trapos e as cantigas eram outras das diversões da matriarca Abreu: “Há uma boneca que recebi no Natal que não me sai da cabeça. Era de celulóide e tinha um fato vermelho.” Apesar das dificuldades e da guerra que acompanharam Ilda nos primeiros anos de vida, o 25 de Dezembro nunca caiu no esquecimento: “Recebia lápis de cor, tabletes de chocolate ou alguma roupa.” Sabe que teve uma sorte que não assistiu a todas as crianças da época: “Eu sabia que havia pessoas da minha idade que não tinham prendas. Mas o meu pai era muito cuidadoso nisso”, recorda com emoção. 

Margarida já viveu num tempo diferente do da mãe. “Gostava de brincar aos supermercados, especialmente para ser a senhora da caixa. Fui também a senhora dos correios porque quando lá íamos elas tinham sempre uns carimbos que faziam muito barulho: eu adorava e também tinha uns iguais”, conta. Brincar às peixeiras, tal e qual via fazer, era outra das diversões de criança: “Brincava com a balança da cozinha e o meu peixe eram as molas da roupa.” 

Além desta componente de imitação do que via quando ia aviar recados, Margarida transportava também o seu instinto maternal para os bonecos: “As meninas sabem naturalmente brincar. Há sempre o instinto: eu passava isso para um careca que tinha e de que gostava imenso”. Esta característica foi herdada pela filha, Leonor, de cinco anos. “Olhar para ela a brincar com os bonecos é como um espelho. Ela faz aos bonecos aquilo que nós fazemos com ela.” 
Até aos três anos, Leonor passou as tardes com a avó. “Eu tinha 74 anos e pensei: se ela está com uma pessoa idosa vai ficar velha antes do tempo!” A preocupação deu lugar à memória. Ilda foi buscar tudo o que se lembrou da sua infância, especialmente as cantigas: “Queria que ela fosse uma criança alegre. Hoje é muito cantadeira, quando a vou buscar à escola vem sempre a cantar em inglês. Eu digo-lhe que não percebo, só sei cantar em alentejano!”, brinca. 

Já Margarida afirma que a filha tem “um upgrade de software”: “A minha componente mais tecnológica em criança era uma máquina de calcular! Ela brinca com o tablet e tenho o telemóvel cheio de jogos que ela lá põe.” Contudo, na hora de escolher, Leonor não tem dúvidas: “Gosto mais das bonecas.” E gosta mais de dar mimos ou mandar? “Gosto de mandar nelas!”, responde a rir. Quem sai aos seus… 

2. Gonçalves. Os cromos, o Spectrum e o basquetebol
O avô Gonçalves era um privilegiado no contacto com a natureza. Apesar de viver em Lisboa, tinha uma família muito ligada à agricultura pela parte dos avós: “Os três meses de férias eram sempre em Leiria ou no Cartaxo. Ia com a família fazer trabalhos de agricultura, era o meu devaneio de férias.” Hoje, diz com mágoa, “as crianças nem sabem como os alimentos são cultivados ou como se criam os animais, tirando os cães e os gatos”. 

Nos meses de aulas, Joaquim tinha um grande hobbie: os cromos. “Fazia colecções dos cromos dos jogadores de futebol com o meu pai. Também jogava ao berlinde e ao pião mas mais tarde voltei aos cromos de actores de cinema”, conta. Jogava na escola para tentar ganhar mais cromos: “Mas uma vez perdi uns que eram muito importantes. Levei uma tareia!”, conta a rir. Em casa, era a imaginação que dominava. Joaquim jogava futebol e as meias do pai faziam de baliza. Os brinquedos não abundavam e, talvez por isso, aos 74 anos ainda se lembra do primeiro que recebeu: “Foi um cavalo de cartão que o meu tio me deu. Como todas as crianças, a minha primeira atitude foi abrir-lhe a barriga para ver o que lá estava. Ficou estragado.” Mais tarde, recebeu um brinquedo “insuperável e lindíssimo”: uma camioneta de lata com pneus de borracha. “Era um sonho de brinquedo! Mas, ao lembrar-se do cavalo, a minha mãe guardou-o na prateleira mais acima que havia na despensa. Lá se foi o meu sonho!”, ri-se.
Depois, apareceu uma bicicleta: “Eu usava-a para engatar miúdas lá na rua e a minha mulher caiu na esparrela!”

Nasceu o Rui e, 44 anos depois, entende que as suas brincadeiras foram muito parecidas às do pai. “Mas a minha infância está dividida em duas partes: uma em que andávamos na rua a jogar à bola, a andar de bicicleta ou a fazer carrinhos de rolamentos e depois há um ponto de viragem quando aparece o Spectrum 48K.” Ao contrário de Joaquim, Rui não se lembra do primeiro brinquedo que teve. Apenas da “dificuldade que era conseguir tê-los”. Com a sua imaginação ou usufruindo do espírito de entre-ajuda que mantinha com os vizinhos da mesma idade, nunca faltaram actividades: “Tínhamos um espírito criativo que se perdeu agora nos mais novos. Isso dava-nos um grande desenrascanço!” Com o computador, as brincadeiras de rua foram substituídas pelas estadias em casa dos amigos a jogar.

Pedro, o mais novo dos Gonçalves, tem 12 anos acabados de fazer. Gostava de ter amigos na sua rua com quem pudesse brincar, tal como acontecia com o seu pai. Essa falta só é colmatada quando viaja até à terra natal da mãe: “Gostava que aqui fosse assim mas lá até vamos a casa uns dos outros. Aqui, os meus amigos são os da escola”. 
Para se distrair quando chega da escola, brincava com tudo o que encontrava numa grande arca do seu quarto. “Na infância não tinha PlayStation mas brincava com cromos de jogadores de futebol com as equipas de todo o mundo.” Hoje, o basquetebol é o desporto favorito de Pedro. O telemóvel fica na gaveta: “Nem o uso muito. Só mensagens e chamadas!”

3. Castanheira. A costura deu lugar ao computador
A palavra “infância” não fez parte do vocabulário da avó Rosete. “Eu não brincava, eu trabalhava. Tinha um irmão e os meus pais entenderam que as mulheres não eram para estudar.” Fez a quarta classe e depois o segundo ano na escola industrial. Deixou a escola. O irmão é que tirou o curso. Quando era mais nova também não ia para a rua brincar: “Só ia às vezes para o Jardim da Estrela mas com hora marcada para voltar. Ficava lá a ver os outros passear porque não estava habituada a isso. Ou então corríamos às escondidas ou íamos ao escorrega.” 

Aos 12 anos, fez da costura a sua vida. “Fui trabalhar e acartar sacas de carvão porque naquele tempo não havia electricidade a não ser nos sítios públicos. Para trabalharmos precisávamos de ter o fogareiro ligado todo o dia”, explica. Aos 86, Rosete não tem dúvidas: “Os meus filhos brincaram. Fiz tudo para que eles tivessem uma vida diferente. Jurei que os meus filhos iam ser mais do que eu.” 

Confirmou-se. Catarina tem 48 anos e relembra a sua infância como um tempo feliz. “Brincava em casa com as bonecas ou então com barquinhos de papel que depois ia vender ao portão. Ainda hoje não sei porquê, mas a verdade é que as pessoas mos compravam a um ou dois tostões. Era a minha forma de brincar na rua.” As bonecas eram outra das perdições da pequena Catarina. “Brincava imenso com elas e adorava dar-lhes banho mas a minha mãe ralhava comigo porque elas ficavam cheias de água lá dentro. Depois ia vesti-las para a cama e molhava tudo!”, conta com um sorriso. Influenciada pelo irmão, 13 anos mais velho, Catarina apaixonou-se pela leitura e pelos museus. Hoje, olha para a sua filha, também Catarina, e percebe que tem outros interesses. “Há a necessidade de sair que eu não tinha. E mesmo quando se entretém em casa há diferenças: eu lia e brincava com bonecas, ela estava no computador e a ver filmes.”

A grande influência que os computadores e os Sims tiveram na vida de Catarina, a mais nova da família, só se compara à das Barbies e dos Nenucos: “Quando era pequenina tinha esses bonecos e a minha avó costumava fazer roupas para eles. Também nos costumava dar bocados de tecido para fazermos casaquinhos.” O passado não ficou para trás.

Agora com 18 anos, Catarina entende que havia uma estranheza da parte da avó quando a via no computador: “No tempo dela não havia nada disso!” Quanto às semelhanças, essas são indiscutíveis. “Os tempos podem ser diferentes mas os nossos valores são os mesmos.”

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