21/11/18
 
 
Abelhas. Que segredos esconde o escuro das colmeias?
O fumigador é um instrumento essencial da actividade apícola. Tem um depósito onde se coloca lenha miúda e, quando esta entra em combustão, juntam-se ervas aromáticas (eucalipto, rosmaninho, esteva) para fazer fumo

Abelhas. Que segredos esconde o escuro das colmeias?

Na Tapada de Mafra qualquer um pode vestir o fato branco e ser apicultor por um dia. Luís Estrela, um advogado que se dedica à causa das abelhas, é o anfitrião desta visita guiada e desvenda os segredos da colmeia.

Ao fim de 15 minutos de solavancos num veículo eléctrico semelhante a um carrinho de golfe, chegamos a um dos pontos mais altos da Tapada de Mafra. Do lado de lá do muro ouvem-se disparos provenientes de uma área afecta ao Exército. Ao fundo, nos dias límpidos, a vista alcança até às Berlengas.

O apiário fica a poucos passos daqui e Luís Estrela dá o sinal. “É melhor fecharmos os fatos.” Cobrimos a cabeça com o chapéu de aba larga e a máscara de rede e corremos o fecho éclair na zona da garganta. Vamos invadir o território das abelhas, por isso convém que estejamos bem protegidos.

As ferroadas mais dolorosas são as que atingem as “zonas mais irrigadas, como os lábios ou a ponta dos dedos”, explica Luís Estrela. “No nariz também é muito desagradável.” O apicultor de 46 anos sabe do que fala: “Tirando dentro da boca”, já foi picado em praticamente todas as partes do corpo.

Apesar de possuírem cinco olhos (dois facetados e três simples), as abelhas têm uma visão bem diferente da nossa – para pior. “Têm visão ultravioleta. Vêem quase uma espécie de negativo. O preto é para elas uma espécie de buraco negro.” E isso, curiosamente, atrai-as. “Prepare--se que elas vão andar muito de volta da máquina fotográfica”, avisa o apicultor. Essa predilecção pelos tons escuros faz também que as abelhas quando atacam pessoas se dirijam preferencialmente ao cabelo.

Luís Estrela convida-nos a colocar a boca do fumigador na entrada da colmeia e a apertar o fole três vezes. Ao contrário do que muitos pensam, o fumo não atordoa os insectos. “Estamos a dar o alerta de incêndio. As abelhas vão de imediato às reservas da colmeia para armazenarem o máximo de mel possível – têm a capacidade de guardar o mel dentro do próprio corpo – e ao fazerem-no deixam--nos trabalhar mais calmamente.”

Assim que se levanta a tampa metálica da colmeia, o zumbido torna-se mais intenso. “Este som para mim é terapêutico”, assegura o apicultor. Na realidade, o murmúrio relaxante é produzido por 50 mil obreiras a trabalhar febrilmente. Em quê? Em prol da colónia: a limpar, a alimentar as larvas, a criar reservas para o Inverno. As abelhas têm um ciclo de vida muito curto, por isso a colmeia precisa de se regenerar de forma permanente. Como escreveu o autor belga Maurice de Maeterlinck no clássico “A Vida das Abelhas” (1901), a vida na colmeia é encarada “como um grande dever comum e severamente repartido”.

A causa das abelhas

Licenciado em Direito, Luís Estrela continua a exercer advocacia, mas de forma cada vez menos dedicada. “A apicultura dá-me muito mais motivação”, revela. A aventura começou há cerca de 15 anos, quando herdou um conjunto de terrenos na região de Castelo Branco. “Alguns nem sabíamos onde ficavam. O objectivo era arrumar a casa e a partir daí decidir o que fazer com eles. A ideia da apicultura partiu da minha mulher.”
Seguiu-se o período de aprendizagem. “Tive um estágio de cerca de um ano no posto apícola do Instituto Superior de Agronomia, depois fiz mais uma série de formações e estive em Espanha a trabalhar com um dos maiores criadores de rainhas da Europa.”

Há “oito ou dez anos” começou a instalar as primeiras colmeias nas suas propriedades e em 2011 fundou a Apistrela, uma “empresa familiar” que se tem expandido a partir de Castelo Branco. Possui 400 colmeias, o que representa uma população total de aproximadamente 20 milhões de abelhas. Cada colmeia pode dar até 18 quilos de mel por ano, mas 2015 “está a ser muito mau para a produção”, revela.

Ameaças com asas

Uma das explicações das más colheitas é a meteorologia. Outra é o uso de pesticidas nas culturas agrícolas. E outro ainda dá pelo nome de varroa. “A varroa é um ácaro que vive dentro da colmeia”, explica Luís Estrela. “A abelha não o identifica como agente inimigo, é um parasita que vai debilitando a abelha, vai sugando as suas enzimas e o seu sangue. E o grande problema é que se reproduzem seis vezes mais depressa que as abelhas e levam rapidamente a colónia ao colapso.”

Mas a preocupação de Luís Estrela já é outra. “Além de ter uma proporção descomunal, a vespa-asiática é extremamente agressiva”, diz o apicultor, exibindo um espécime morto. O modus operandi deste predador passa por apanhar as abelhas fora, o que as leva a procurar refúgio na colmeia. A partir daí, as vespas montam o cerco. As abelhas acabarão por sair, mas já debilitadas, tornando-se uma presa fácil. “Quando as vespas percebem que a colónia já está bem menor, então entram na colmeia para o ataque final.”

A vespa-asiática chegou à Europa (França) há cerca de 35 anos, escondida num carregamento de bonsais, mas foi só há oito anos que entrou em Portugal, a começar por Viana do Castelo, encontrando-se neste momento “um pouco abaixo de Coimbra”, explica Luís. “A única forma de a combater é destruindo os ninhos, mas elas fazem-nos bem no alto das árvores e uma pessoa não se pode pôr a queimar uma copa, tem de ser com os bombeiros.”

Os danos podem ser minimizados, “aplicando umas réguas que impedem a vespa de entrar na colmeia”. “E também existe a águia-vespeira, mas não consegue dar conta de todos os ninhos.” Até ao momento, explica o apicultor, só houve um caso de êxito no combate a este predador. “No Japão as abelhas já estão a aprender a defender-se. Conseguem cobrir a vespa-asiática e produzem um calor tão intenso que coze a vespa, embora algumas abelhas também morram no processo.”

Por cá “os apicultores estão impotentes”, lamenta Luís Estrela. “A vespa-asiática é uma daquelas espécies que uma vez introduzidas não se consegue contrariar.” Por isso o advogado não vê com bons olhos as tentativas de introduzir em solo nacional uma nova espécie de abelha para a produção de mel. Originária do Brasil, a meliponídea não tem ferrão nem veneno, o que não significa que seja inofensiva.

Segundo o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, “podem ser muito incómodas devido a uma conduta agressiva que dá o nome vernáculo à espécie dita torce-cabelos; ou, de forma talvez ainda mais penosa, aglutinando-se às dezenas, se não centenas, sobre a cara e o corpo do viajante para sugar o seu suor e as secreções nasais ou oculares. Daí o seu nome vernáculo de lambe-olhos”.

Maomé e a montanha

Há três anos que Luís Estrela desenvolve a sua actividade profissional na Tapada de Mafra. “Percebemos que dificilmente conseguiríamos ter sustentabilidade se nos mantivéssemos só em Castelo Branco, por isso procurámos expandir-nos, mas tinha de ser para um local que respeitasse o modo de produção biológico. Aqui nos 800 hectares da Tapada não foi difícil encontrá--lo.” A empresa procedeu à instalação das colmeias, recuperou a casa do mel e iniciou ateliês diários sobre apicultura. “Depois temos actividades mais ambiciosas, como a experiência apícola”, em que os participantes vestem os fatos e são apicultores por um dia. E se a montanha não vai a Maomé vai Maomé à montanha: Luís Estrela e as suas abelhas também visitam instituições como escolas e lares.

Mas de momento estamos ao ar livre, com os fatos brancos vestidos, a saborear a experiência apícola. Luís Estrela, com o seu olho treinado, detecta um invasor na colmeia e resgata-o.

“Sempre que um insecto entra numa colmeia, as abelhas, não o conseguindo expulsar, vão mumificá-lo”, explica. Trata-se de um escaravelho, que seria coberto de própolis, uma pasta escura que as abelhas produzem a partir da resina das árvores. “Fica encerrado dentro desta pasta, como num túmulo. Ia morrer e apodrecer, mas não contaminaria o resto da colónia.”

Luís Estrela chama-nos também a atenção para uma abelha recém-nascida que força a saída do alvéolo. “Todas estas abelhas são filhas da rainha, que está sempre a pôr ovos. As amas, que têm a função de alimentar os ovos e as larvas, no primeiro dia alimentam o ovo com uma substância de grande concentração energética, a geleia real. Ao segundo e terceiro dias também. Ao quarto dia tomam uma decisão: se acrescentarem um pouco de mel à geleia real temos a certeza que desse ovo nascerá ou um zangão ou uma obreira. Mas se continuar a pôr geleia real teremos, em 16 dias, o nascimento de uma nova rainha.”

No final do processo, uma abelha varre a célula e “passa uma camada de própolis para que o espaço fique desinfectado e preparado para receber um novo ovo”. Ahigiene é uma preocupação constante.

Rainhas e parasitas

Ao contrário das obreiras, que só duram entre 60 e 90 dias, a abelha-rainha pode viver entre cinco e seis anos. Ao longo desse período sairá da colmeia apenas meia dúzia de vezes. A primeira delas será “oito dias depois do nascimento”, para o “voo de limpeza”, como lhe chama Maeterlinck, e “encher de ar os sacos traqueanos” para dar forma definitiva ao corpo.

Todos os seus recursos estão concentrados na reprodução: “A rainha vê o seu cérebro reduzido a nada em proveito dos órgãos reprodutores, e as trabalhadoras vêem aqueles mesmos órgãos atrofiarem-se em benefício da inteligência”, escreve o autor belga.

Depois dos primeiros voos de teste, a rainha “espera por um dia em que não faça vento absolutamente nenhum e vai voar até 800 a mil metros de altitude”, explica Luís Estrela. É o chamado voo nupcial. “Quando sai da colmeia lança uma feromona tão intensa que é capaz de atrair zangões a mais de 20 quilómetros.” Num processo de selecção natural bem afinado, só os zangãos mais fortes conseguem voar tão alto e fecundar a rainha – mas morrem no processo.

“Os que não conseguem acasalar tentam regressar à colmeia, mas as obreiras impedem--nos de entrar porque são apenas consumidores de reservas. Os que se encontram dentro da colmeia são expulsos e acabam por morrer ao frio e à fome”.

Tirando a fecundação das rainhas, os zangãos são absolutamente inúteis. “O trabalho de cinco ou seis obreiras não é talvez suficiente para alimentar a ociosidade voraz de cada um daqueles parasitas, que de incansável só têm a boca”, descreve Maeterlinck.

As abelhas, pelo contrário, não param. “A abelha tem pêlos em todo o corpo, até nos olhos, e por isso ao visitar as flores fica coberta de pólen. Foi feita para captar o mais pólen possível”, diz Luís Estrela. Depois o insecto “escova os grãos para os poder compactar em duas bolas que transporta numa covinha que tem nas patas de trás”.

A maior parte dos grãos de pólen transforma-se em mel, outros ficam retidos numa rede colocada pelo apicultor e são depois recolhidos em boiões para venda como suplemento vitamínico. Outros ainda ficam pelo caminho: são esses que fecundam as plantas e flores coloridas e perfumadas – o vento encarrega-se das restantes.

Segundo uma frase erradamente atribuída a Albert Einstein, “quando as abelhas desaparecerem, a humanidade terá apenas quatro anos de vida”. Maeterlinck era menos fatalista: “Estima-se que mais de cem mil variedades de plantas desapareceriam se as abelhas não as visitassem.” Outros ainda dizem que um terço de todos os nossos alimentos depende da polinização feita por estes insectos.

Seja como for, o desaparecimento das abelhas desencadearia uma reacção em cadeia de consequências desastrosas. É essa mensagem que Luís Estrela tenta transmitir quer nos ateliês da Tapada, quer nas visitas que faz às escolas. Até ver foi bem-sucedido com os filhos: Apolo e Diana já o ajudam na actividade apícola. E não serão algumas picadas que os vão demover.

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