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Maria Filomena Mónica. “Sou de esquerda porque, quando me apercebi de que havia pobres, fiquei indignada”
Nasceu em Janeiro de 1943 e durante 14 anos viveu “numa redoma” criada pela mãe

Maria Filomena Mónica. “Sou de esquerda porque, quando me apercebi de que havia pobres, fiquei indignada”

Nasceu em Janeiro de 1943 e durante 14 anos viveu “numa redoma” criada pela mãe António Pedro Santos Joana Azevedo Viana e Vítor Rainho 30/08/2015 11:06

A segunda parte de uma entrevista com a escritora que garante que nunca votaria na direita.

Falou de Passos Coelho e de Sócrates. De Seguro diz que era um totó. E António Costa?
Está a fazer uma campanha desastrosa. Nunca leio programas, não preciso, prefiro que me digam nos jornais ou na televisão como é que eles vêem o mundo. E não vejo uma visão muito diferente, no caso do António Costa, da visão do Passos Coelho. O que acontece é que, no meio da crise, o que eles têm é de gerir. Mesmo assim, o António Costa deveria dizer ao seu eleitorado socialista o que o preocupa genuinamente e o que vai fazer. Não é dizer ‘vou criar não sei quantos postos de trabalho’, depois afinal já não é criar, é uma estimativa. Isto são coisas pequeninas que fazem as pessoas desconfiar. A cena dos cartazes em si até nem tem uma grande importância, suponho que em todos os países se arranjem cartazes lá na instagram ou como se chama.

Nos bancos de imagens.
Isso. Simplesmente aquelas eram particularmente infelizes porque diziam ‘Eu sou desempregada’. E depois aquilo ficou assim tudo numa névoa, num pântano. E agora ele aparece no cartaz cor-de-rosa! Não percebo o que lhes passou pela cabeça para fazerem aquele cartaz! Não acredito que o António Costa tenha a menor vergonha em assumir que tem sangue indiano, até porque ele tem orgulho no pai. Fazem-no branco para quê? E os jornais não falam nisso porquê? Porque têm medo de serem apelidados de racistas? Não tem explicação! Não me tem atraído, não me convenceu ainda a votar nele.

Nem noutros candidatos?
Não, na direita não voto, nunca!

Referia a esquerda.
Não, porque a esquerda é como o Syriza e o Podemos, sonham com um mundo que já não existe, que é um mundo, como disse, das classes trabalhadoras, provavelmente com uma ditadura do proletariado, esse mundo desapareceu. Hoje em dia há a globalização, há fenómenos absolutamente novos como o desaparecimento da classe operária, e portanto o mundo do Bloco é um mundo anacrónico. A única deputada que respeito é a Mariana Mortágua, porque desempenhou um óptimo papel e porque mostrou aos portugueses o que é ser deputado, é uma mulher que vai para casa e que prepara as coisas e portanto interroga. Até votava na Mariana Mortágua se ela fosse do círculo da Lapa e se não fosse do BE e eu não tivesse que pôr a cruzinha no BE. Imagine que havia círculos uninominais, como acho que devia haver, e que a Mariana se candidatava. Fiquei com confiança nela, porque percebi que ela trabalhava. Os outros estão lá e nem sei os nomes deles. Levantam-se, sentam-se, levantam-se, sentam-se. Pff. Não me interessa.

Vê-se que a Mariana estudou o dossier e que sabe do que fala, mas não haverá mais gente assim que não vemos na televisão? Não estaremos a ser injustos?
Não, não estamos a ser injustos, leio três jornais diários e todos os semanários, e deixei de ver o telejornal, deixei de ver televisão portuguesa completamente, agora desde que estou doente só vejo séries à noite quando paro de trabalhar. Não considero que haja políticos que estejam a fazer coisas maravilhosas e que nunca tenha dado por isso, não.

Mas e criar, acha que Mariana, se estivesse no poder, conseguiria criar?
Não sei, por isso digo que não votaria nela do ponto de vista ideológico, porque ela sonha com uma sociedade e com acção política para uma sociedade que não existe. Portanto eles podem querer o que quiserem, isso desapareceu. Por exemplo, acho que o Rui Tavares é um homem inteligente, mas o modelo na cabeça dele da sociedade portuguesa não é o que existe.

E para a sociedade real, que propostas é que deveriam ser feitas?
Olhe, têm de discutir a Europa, alguma vez viu a Europa ser discutida? Não, nem fazem ideia. A globalização? Zero. A concorrência dos chineses, a escola pública, há imensas matérias sobre as quais eles poderiam ter uma opinião. Só para dar um exemplo, deve ou não o Ministério da Educação subsidiar escolas privadas que são frequentadas por meninos ricos, nomeadamente escolas católicas cujos pais têm dinheiro? Para que é que o Estado está a subsidiar? Concordam ou não concordam? Perguntas concretas! Você é ou não a favor dos numerus clausus nas universidades? Como devem ser determinados? Mantendo-me ainda no domínio do ensino, que é o que conheço melhor, acha que o acesso às universidades deve ser feito por um computador como é feito agora, com base nas notas dos exames, ou as universidades devem dar-se ao trabalho, porque são preguiçosas, de elas próprias escolherem os alunos como deve ser? Os problemas concretos não são discutidos no parlamento nem na campanha. Andam a discutir a porcaria dos cartazes porque é a única coisa que veio ao de cima. A impreparação total do ponto de vista técnico impede o PS de montar uma campanha decente. Os outros, como diz o Marcelo Rebelo de Sousa, estão todos a fazer de mortos e se continuam a fazer de mortos até às eleições vai haver uma enorme abstenção. Porque as pessoas olham para aquilo e cresce uma coisa que me apavora, que é a raiva contra os políticos, que acaba sempre mal. Felizmente estamos na Europa, porque senão isto podia acabar muito mal.

 

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