7/4/20
 
 
O princípio do fim do homem que fez o Brasil sonhar
Os ramos de Lula da Silva começam a quebrar

O princípio do fim do homem que fez o Brasil sonhar

Os ramos de Lula da Silva começam a quebrar Margarida Vaqueiro Lopes 27/08/2015 22:06

O líder carismático que pôs o Brasil no mapa da popularidade está a cair. E com estrondo.

Tinha tudo para ser uma das pessoas mais aplaudidas do Brasil e do mundo. E foi. Em 2009, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos da América, Barack Obama, disse uma frase que correria o planeta, ao encontrar-se com Lula da Silva numa cimeira do G20: “Adoro este homem. É o político mais popular do mundo.”

E durante uns tempos ninguém o pôde negar. Luiz Inácio Lula da Silva era a encarnação do self--made man num país em que os sonhos valem mais do que um prato de comida, porque muitas vezes são a única coisa que o povo tem para conseguir continuar a sobreviver. 

Nascido em 1945 na zona pobre do estado de Pernambuco, no nordeste brasileiro, Luiz Inácio da Silva – o nome Lula não é de nascimento – foi o sétimo de oito filhos de um casal de analfabetos. O pai, Aristides, abandonaria a família ainda Luiz Inácio não tinha nascido para tentar a sorte em Santos, no estado de São Paulo, onde os salários eram mais altos e as perspectivas melhores. Aí, Aristides optou pela bigamia e constituiu família com uma prima da mãe de Luiz Inácio, Eurídice. Quando esta se mudou para São Paulo com todos os filhos, corria o ano de 1952, deu de caras com o marido e a segunda família. A vida não melhorou.

Aos 14 anos, Luiz Inácio teve o seu primeiro trabalho com carteira assinada, que é como quem diz com um contrato válido. Não era coisa nova, essa de trabalhar. Mas antes do primeiro contrato ainda teve tempo para aprender a ler, a escrever e a pouco mais: era preciso ajudar mais no sustento da família e isso implicava não ter tempo de ir à escola. 

Aos 17 anos, depois de um curso de três, Luiz Inácio tornou-se oficialmente metalúrgico e conseguiria um emprego na Metalúrgica Independência. Aí, com apenas 18 anos, perderia o dedo mindinho, que ficou esmagado por um torno – o acidente e a imagem da mão esquerda com apenas quatro dedos foram apontamentos essenciais em muitas das campanhas políticas que encabeçou.

Com a indemnização que recebeu pelo acidente, Luiz Inácio conseguiu comprar móveis para a casa da mãe e um terreno para ela viver com alguma dignidade. Depois disso, passou cerca de três anos sem conseguir emprego fixo, e seria a implementação da ditadura militar no Brasil, em 1968 – através do Acto Institucional n.o 5 (AI-5) –, que levaria Luiz Inácio pelo caminho dos sindicatos. Não porque sentisse um chamamento pela causa, mas porque o irmão mais velho, Frei Chico, filiado no Partido Comunista Brasileiro, o convenceu. 

Foram precisos menos de dez anos para que a personalidade e o carisma de Luiz Inácio o fizessem líder do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Agora, quem falava era o sindicalista, e não mais o torneiro mecânico, que tinha gravada na pele e nos ossos a dureza da vida na metalurgia. Era ele quem lutava pelos salários mais altos, era ele quem se batia contra uma ditadura que oprimia o país. 

Prisão e novo nome
Entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80, Luiz Inácio foi preso várias vezes por liderar greves dos operários e por se bater pelos aumentos de salários da classe. É nessa altura que a política entra definitivamente na sua vida. Em 1980, plena época de ditadura militar, Luiz Inácio junta-se a vários outros sindicalistas, representantes de movimentos e intelectuais e forma o Partido dos Trabalhadores (PT). E muda de nome: Lula, até então uma alcunha, passa a constar oficialmente do seu Bilhete de Identidade (ou Registro Geral).

Na sua mente, sabe que ‘Lula’ é um nome que resulta nas campanhas. Não podia estar mais certo. 
Em dois anos, o PT estava presente em praticamente todo o Brasil, e em 1989 – quatro anos depois do fim da ditadura –, o pernambucano nascido em Garanhuns candidatava-se pela primeira vez à presidência da República. O Palácio do Planalto passara a ser o seu sonho, e não desistiria. Perdeu por pouca diferença para o candidato do Partido Trabalhista do Brasil, Fernando Collor de Mello, para cuja destituição por corrupção contribuiria em 1992.

Continuava a abrir caminho para a próxima candidatura ao Planalto, que aconteceu em 1994, e novamente em 1998. Nas duas corridas foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso, candidato pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).

Com três campanhas presidenciais e 20 anos de vida política de experiência, Lula não falha na quarta tentativa: em 2002 garante o mais alto cargo governativo da República Federativa do Brasil. O discurso radical tinha sido substituído por um tom mais sereno que prometia cuidado nas contas externas e alguma austeridade, o que lhe permitiu ganhar os votos da classe média brasileira. 

A seu lado, na Casa Civil, José Dirceu. Na pasta das Finanças, António Palocci Filho, que tinha sido também o seu director de campanha – e que em 2009 seria acusado por corrupção e enriquecimento ilícito, tendo saído inocente. Na presidência do partido que fundou, outro dos seus grandes amigos: José Genoíno – que seria preso por envolvimento no Mensalão. Na tesouraria do PT, João Vaccari Neto. Galhos de uma árvore que dão, actualmente, perigosos sinais de que estão a quebrar.

Um novo Brasil
Mas voltemos a 2002, o ano que, indubitavelmente, marcou o início de uma era para o Brasil. O torneiro mecânico do Nordeste era agora chefe máximo do país. “E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país”, diria no discurso de tomada de posse. A esperança era a mensagem da campanha e os programas sociais – à custa de um significativo endividamento interno – do governo petista (por pertencer ao PT) levaram-no a ser um dos presidentes mais populares da história do Brasil. 

À pobreza crónica de um país que há mais de 50 anos se debate com níveis de desigualdade assustadores, Lula da Silva respondeu com programas sociais intensivos e com orçamentos consideráveis. O mais famoso de todos, o Bolsa--Família, conseguiu arrancar da pobreza extrema milhões de brasileiros, através de subsídios directos. No entanto, para continuarem a receber dinheiro, as famílias são obrigadas a manter as crianças na escola até aos 15 anos e a garantir que têm as vacinas em dia. Lula também implementou um programa que permitiu levar luz a todos os brasileiros, sobretudo nas áreas rurais. Já o Peti, um programa de erradicação de trabalho infantil, pretendia afastar de actividades potencialmente perigosas as crianças até aos 15 anos. 

O esforço resultou: os índices de desigualdade caíram a pique, os brasileiros aplaudiram, o sonho americano, afinal, parecia ter sotaque pernambucano e o gigante sul-americano podia tudo. Lula e Palocci conseguiram, efectivamente, diminuir a dívida externa do país, e o Brasil começou a ganhar protagonismo no mundo. “Ele é o tal!”, dizia Obama, não sem um quê de verdade. 

O primeiro soluço e a reeleição
Em 2005, o primeiro escândalo abalava a figura do antigo sindicalista. Em Maio, a revista brasileira “Veja” trazia uma bomba na capa: o governo de Lula tinha montado um esquema de compra de votos no Congresso. 

Em Junho, o jornal “Folha de São Paulo” publicava uma entrevista com Robertto Jefferson, que na altura estava a ser investigado por um caso de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e que foi abandonado pelos antigos aliados petistas e do seu próprio partido, o Partido Trabalhista Brasileiro. E como diz o ditado, “zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades”. Na entrevista, Jefferson admite e explica como se processava a compra de votos de deputados. Mas Lula consegue passar incólume. Menos sorte tiveram José Dirceu, apontado como a cabeça de todo o esquema, e o próprio Jefferson. Os mandatos de ambos foram cassados.

E o antigo metalúrgico prosseguia. Voltou a conseguir uma vitória respeitável – mais de 60% dos votos – em 2006, depois de uma campanha em que basicamente desacreditou todo o processo de investigação do Mensalão. 

O segundo mandato, mais tranquilo, teve um abalo digno de nota: em 2009, a sua então chefe de gabinete e, segundo a imprensa brasileira, amante, Rosemary Noronha, começaria a ser investigada por corrupção e favorecimento de empresas através do governo. Antes de trabalhar directamente com Lula, Rosemary teve tempo de aprender, ao servir José Dirceu, durante 12 anos. As investigações só se agudizariam já no governo de Dilma Rousseff, mas Rosemary não ajudou à imagem do presidente. Ainda assim, o carisma ganha sempre: Lula da Silva conseguiu sair do Planalto, no final do seu segundo mandato, com um nível de popularidade superior àquele com que lá entrara.

O escândalo Lava Jato
Entre a saída do governo – onde conseguiu colocar Dilma, sua afilhada política, em sua substituição – e o ano de 2014, Lula da Silva viveu uma vida pacata. Viajou pelo mundo, deu conferências, foi consultor de negócios vários em construtoras diversas em muitos países do mundo. Chegou a vir a Portugal apresentar o livro de José Sócrates, com uma viagem paga pela Odebrecht, a maior empreiteira do Brasil. O líder continuava a reinar, o dom da oratória era mais rentável que nunca – chegou a receber 13 mil reais por minuto em conferências, e a vida era boa.

Até que, em Março de 2014, a Polícia Federal do Brasil dá início a uma das maiores investigações de sempre, centrada, pasme-se, nas elites do país. A operação Lava Jato investiga um esquema milionário de lavagem de dinheiro que envolve a Petrobras, a maior empresa estatal. O esquema funcionava da seguinte forma: vários dirigentes da Petrobras direccionavam os contratos da petrolífera para diferentes construtoras, mediante uma quantia acordada entre as partes. O núcleo económico do esquema sobrefacturava as obras, desviando parte do valor inflacionado para subornos. Esse dinheiro chegava então a um núcleo financeiro que, por seu lado, o fazia chegar aos empresários e a políticos. Esses políticos garantiam que os directores da Petrobras eram indicados pelos partidos envolvidos no esquema, de forma a terem a certeza de que não eram descobertos. Em troca recebiam uma percentagem da operação. 

Os de sempre na ribalta
Mas quem pensou neste esquema, em tudo semelhante ao do Mensalão?José Dirceu, naturalmente – que foi condenado e cumpriu pena por esse primeiro caso de corrupção. E que está novamente em prisão preventiva por envolvimento no Lava Jato. Tal como João Vaccari Neto, o tesoureiro do PT, que afinal também dá uma ajuda nestes pagamentos indevidos.

E onde é que Lula da Silva entra aqui? Mesmo no meio: documentos apreendidos durante as investigações puseram à vista a relação próxima que o petista tinha com directores e administradores de algumas das maiores empresas de construção do país. Lula – cujo nome de código utilizado pelos executivos da OASEngenharia era Brahma (curiosamente, o nome de uma das mais consumidas cervejas brasileiras) – fez várias viagens a convite de empresas e por diversas vezes defendeu publicamente a existência de “interesses financeiros”.

Enquanto presidente do Brasil, Lula chegou mesmo a levar empresários nas comitivas governamentais, em viagens pelo estrangeiro. Aliás, ainda durante o seu governo, o petista pediu à Odebrecht ajuda para que o Corinthians – um dos maiores clubes de futebol de São Paulo – construísse o seu estádio. 

Acordos preocupam
O presidente da OAS, Léo Pinheiro, até há pouco tempo amigo íntimo de Lula, não esperou muito tempo para acabar com a relação: preso desde Novembro de 2014, estará a preparar um acordo com o Ministério Público a quem entregará provas do envolvimento de Lula da Silva, avançava a revista “Veja” no mês passado.

João Vaccari Neto também já avisou o PT, por quem se sente abandonado, de que um “acordo de delação premiada” está na sua mira caso o partido não o ajude. 

Mas de quem Lula parece efectivamente ter medo é de José Dirceu. O antigo presidente recomendou mesmo ao partido que é preciso “dar atenção ao Zé”. Dirceu, que Lula da Silva abandonou desde que este foi condenado pelo Mensalão, sabe demais. O cerco começa a apertar-se em redor de Lula que, no entanto, ainda não é alvo de investigação.

No entanto, o Brasil deixou de lhe dar tréguas. A “Veja” desta semana escreve que o Instituto Lula, empresa que criou após sair do governo, arrecadou 27 milhões de reais em apenas quatro anos. Entre as seis maiores contribuidoras para este montante estão precisamente as mesmas construtoras envolvidas no Lava Jato. O ministro da Justiça de Dilma, José Eduardo Cardozo, pediu publicamente que fosse aberta uma investigação. E várias mensagens codificadas de Lula da Silva para amigos têm sido reveladas, durante os últimos meses, pelos meios de comunicação brasileiros, deixando antever algo que não precisa de descodificação: o antigo presidente sabe que pode estar preso por um fio – ou por um raminho de árvore que não quebre. Ele e o PT, que enfrenta os piores números de sempre em termos de popularidade. Para além de Dilma ter perdido totalmente o controlo da economia durante este segundo mandato, o governo não consegue lidar com as sucessivas revelações de envolvimento de líderes do partido em escândalos de corrupção e enriquecimento ilícito.

Se Lula da Silva se vir envolvido – se bem que a questão mais pertinente parece ser quando, e não se – no Lava Jato, uma coisa alguém devia lembrar--lhe. Que em 1993, quando era parte da oposição, gostava de bradar: “Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.” 

Ler Mais

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×