17/6/21
 
 

Onde nos leva o domínio de uma língua estrangeira?

Quando chegava o momento das votações das propostas – sobretudo das gregas e das alemãs –, Rui Tavares ficava particularmente atento, sentado no seu lugar, no Parlamento Europeu. Ouvia o que diziam na sua língua de origem outros eurodeputados e, com o tempo, expressões como “aprovado” ou “rejeitado”, ou mesmo o número das propostas a votar, foram ficando gravadas na memória. “Sempre tive vontade de aprender línguas”, conta o ex-eurodeputado, que, entre o domínio completo de umas e “rudimentos” de outras, dá uns toques em meia dúzia de línguas estrangeiras.

Mais que a necessidade profissional, a origem do interesse por outros modos de falar encontra-a Rui Tavares no início
da adolescência. “A minha mãe não sabia outras línguas, mas ajudava-nos, a mim e aos meus irmãos, nos trabalhos
de casa e sempre me incentivou a aprender mais, sempre me incutiu a ideia de que era fácil”, recorda. Essa semente
deu frutos. No final do curso, o agora dirigente político já fazia traduções de Molière, Voltaire e Balzac – de francês
em português, claro.

Quando, em 2009, chegou a Bruxelas, as várias línguas que se atropelavam nos corredores do PE já não lhe causavam estranheza. “A maior aventura foi quando me pus a aprender húngaro”. Nessa altura tinha em mãos um relatório sensível sobre o respeito pelos direitos fundamentais na Hungria. Consciente do isolamento linguístico do país, no pouco tempo que teve dispôs-se a aprender algumas expressões-chave, “liberdade” e “direito fundamental”, por exemplo. Também aprendeu a apresentar-se formalmente. “Quando comecei um debate com o primeiro-ministro húngaro no Parlamento Europeu, fiz questão de dizer as primeiras palavras na sua língua, para que todos os húngaros soubessem do que estávamos a falar.” Nas entrevistas aos meios de comunicação social do país adoptou a mesma estratégia.

“Tudo o que aprendi, mesmo quando não passou de breves palavras, foi útil porque me permitiu estabelecer ligações com outras línguas”, refere.

A LEI DO INGLÊS Olga Borges nunca teve alternativa – no mundo das ciências o inglês é lei. “Para quem inicia uma carreira de investigação, é bom ter um forte domínio do inglês, ter uma boa base”, sublinha. Há poucos meses a investigadora da Universidade de Coimbra desenvolveu uma vacina nasal contra o antraz. O resultado desse trabalho – replicado na imprensa portuguesa e internacional – só pôde ser difundido no universo científico porque começou por ser escrito em inglês. “É sempre daí que parte a informação que vamos conhecendo cá, porque não temos revistas em português com relevância suficiente nesta área”, explica a investigadora.

Olga Borges – que admite nem ter “muito jeito” para línguas – já perdeu conta aos artigos que teve de ler em inglês. A tarefa é diária e não há maneira de ir buscar informação de outra forma. Por vezes nas aulas os alunos refilam. “Professora, isto está tudo em inglês!”, conta a investigadora. “Damos-lhes literatura em inglês e dizemos-lhes que estudem a partir dela. Mesmo os slides que apresentamos nas aulas são em inglês. Acabam por se habituar, percebem que não pode ser de outra forma.”

PORTAS ABERTAS Aos 35 anos, Miguel Pinheiro é gestor da categoria de impressão em WESA (o acrónimo inglês de Este, Oeste e Sul de África) e ainda para a África subsariana. O curso de Comunicação Social na Universidade Católica ainda não tinha chegado ao fim quando percebeu que, por muito que gostasse do jornalismo, as condições laborais que enfrentaria estariam longe do que desejava. Chegou a fazer um estágio no “Correio da Manhã”, mas depressa mudou a agulha, apontando-a a outras paragens profissionais. 
Pelo meio do curso, um ano de Erasmus em Valência. E esse primeiro contacto com o castelhano, informal, acabou por abrir portas que não imaginava vir a cruzar na sua carreira. Terminou o período de estudos em Espanha e seguiu directamente para a Costa Rica durante um mês, em passeio.

Voltou a Portugal e, de novo, um mês depois, chamavam-no de Itália – tinha sido escolhido para um posto na Alexander Mann Solutions, para fazer recrutamento de engenheiros informáticos para a HP no mercado ibérico.

“Precisavam de pessoas que falassem castelhano, português ou inglês”, recorda. Miguel já dominava as três línguas nessa altura. Ao fim de um ano recebia um convite para trabalhar para a HP em Madrid. Porquê? Pela boa prestação e porque tratava o castelhano por tu.

Mas não chegou a ir. Em vez disso, aproveitou outra oportunidade em Lisboa, na mesma empresa, e regressou a
Portugal. “Só fui contratado por ter conhecimentos em duas línguas”, garante.

“Assim que entro na HP, tudo muda, e se até aí trabalhava muito com a língua espanhola a partir dessa altura o inglês passa a dominar os dias, porque 90% da estrutura da empresa funciona nessa língua.” Hoje passa o dia ao telefone com clientes de uma série de países africanos.

“É difícil estar preparado para entender tantas pronúncias diferentes, sotaques e vozes que nos chegam da Etiópia, do Quénia, etc.” Ainda assim, não houve negócio que tenha ficado por fechar por falta de entendimento linguístico.


“Os portugueses têm muita facilidade em aprender outras línguas”, ensaia Rui Tavares. Nesta fase a veia política revela-se e o cabeça-de-lista pelo Livre à Assembleia da República arrisca dizer que “Portugal devia investir mais neste potencial natural". Como? “Qualquer jovem devia concluir a escolaridade obrigatória a dominar três línguas estrangeiras”, defende Tavares, apontando o inglês como certo, o francês ou o alemão como alternativa, em segundo lugar, e uma terceira língua opcional – mandarim, por exemplo, ou árabe, que está mesmo aqui ao lado.” Talvez assim se pusesse um fim ao habitual olhar desconfiado que alguém recebe quando se atreve a falar das línguas que
domina.

Hábitos portugueses.

 

PERFIL "BI"

NOME Rui Tavares

IDADE 43 anos

DOMINA Inglês e francês escrito, falado e lido. Espanhol, italiano e crioulo de Cabo Verde sabe ler e falar, só não se arrisca a escrever. É "curioso" numa série de línguas (russo, húngaro, alemão, etc.).

GOSTARIA DE APRENDER Quando for "velhinho", quer estudar latim e grego.

PERCURSO Começou como tradutor, é historiador, escritor, foi eurodeputado e um dos fundadores do recém-criado partido Livre.

 

NOME Olga Borges

IDADE 47 anos

DOMINA Inglês (ficou com um conhecimento intuitivo do francês estudado no liceu).

GOSTARIA DE APRENDER Alemão.

PROFISSÃO Investigadora do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra e docente da Faculdade de Farmácia.

 

 

NOME Miguel Pinheiro

IDADE 35 anos

DOMINA Inglês e espanhol (é "razoável" no francês).
 
GOSTARIA DE APRENDER Depois de viver um ano em Itália ficou com vontade de aprofundar o conhecimento da língua.

PROFISSÃO Foi gestor de recursos humanos e, já na HP, começou como Inside Sales Specialist, foi Account Manager, depois Gestor de contas em Angola e Moçambique e agora assegura contas em vários países africanos.

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