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O empresário que levou do râguebi as regras para o sucesso
"A austeridade para mim começou nos anos 70"

O empresário que levou do râguebi as regras para o sucesso

"A austeridade para mim começou nos anos 70" Imagens Grupo Pestana Margarida Vaqueiro Lopes 26/08/2015 23:00

Falou inglês antes de saber falar português e trocou a África do Sul pela Madeira já com mais de 20 anos. Ao longo dos últimos 40, construiu um império reconhecido mundialmente e acumula distinções na área do turismo. Acredita na produtividade, é um trabalhador incansável e garante que a austeridade que o mundo viveu nos últimos anos não o assusta. Afinal foi num Portugal devastado economicamente que o grupo Pestana conseguiu crescer, corria a década de 1970.

Tem quatro filhos, um casamento de vários anos e é o senhor de um império que se tem espalhado pelo mundo. Dionísio Pestana aprendeu a falar português depois dos 24 anos, e tem na Madeira a sua ilha de coração e residência, ainda hoje. Não perdeu totalmente o sotaque sul-africano, juntou-lhe o sotaque madeirense, e ganhou uma sonoridade inconfundível. Para trás ficou a África do Sul, país onde nasceu em 1952, e onde se licenciou em Gestão pela Universidade de Natal. Não sem ter deixado de ajudar o pai na loja de bebidas da família, em Joanesburgo. Era ele quem conferia inventário e facturas, além de atender os clientes que apareciam.

Chegou a Portugal dois anos após a Revolução dos Cravos, para encontrar na Madeira um ambiente totalmente oposto àquele que se vivia na África do Sul de então. Não havia desenvolvimento industrial, não havia economia a funcionar e tudo estava numa espécie de limbo num país que procurava perceber que coisa era esta de viver em democracia. Foi para a ilha com um objectivo claro: conseguir recuperar o negócio do hotel de 5 estrelas – o Madeira Sheraton – que o pai, Manuel Pestana, tinha inaugurado no Funchal dois anos antes e que agora atravessava diversas dificuldades devido à conjuntura.

Depois de analisar as perspectivas de negócio, Dionísio iria viajar pela Europa e dedicar-se-ia então à sua área de formação. Mas o desafio falou mais alto. A Madeira, tradicionalmente necessitada de turistas, estava a sufocar com a falta deles. Os estrangeiros, pouco atraídos pela instabilidade política, não viam com bons olhos as notícias que chegavam aos meios de comunicação social internacionais: Portugal aproximava-se do comunismo, as greves sucediam-se e a economia não descolava. Com tudo isto, o turismo perdia.

Dionísio entrou pela porta do hotel (então gerido pela marca Sheraton e que actualmente responde pelo nome Carlton Pestana Hotel) e só saiu de lá mais de uma década depois, em 1988, quando se casou com Margarida. “Era fantástico, ia para o trabalho de elevador. Tive de me adaptar a ir de carro, a preocupar-me com a casa. Não foi fácil”, contava em entrevista à “Up Magazine”, em 2008. Apesar de ter sido o pai, Manuel, a abrir o primeiro hotel, a verdade é que seria o filho, Dionísio, o primeiro da família a dedicar-se de corpo e alma à hotelaria, numa atitude que sempre se pautou pelo espírito de iniciativa e sobretudo pelo optimismo constante.

Havendo já investimentos feitos pela família, dentro e fora do país, reagir à crise pós-25 de Abril acabaria por ser um pouco mais fácil que para grande parte dos seus pares, que se viram a braços com nacionalizações e investimentos a fundo perdido. Vendeu alguns activos e comprou outros aproveitando os balanços do mercado, de onde quase todos fugiam. A preços melhores, conquistou unidades hoteleiras e aplicou-se a fazê-las crescer ao ritmo da economia. Nunca mais voltou a viver na África do Sul, para onde contava ir um ano depois de aterrar na Madeira.

Actualmente a gerir mais de oito dezenas de unidades com dez mil quartos, seis campos de golfe e as concessões dos Casinos da Madeira e de S. Tomé, Dionísio Pestana tem ao seu serviço cerca de 7 mil colaboradores. Em entrevista ao “Diário Económico”, há perto de três anos, desvaloriza os cenários fatalistas para o sector, afirmando que a verdadeira crise se viveu nos anos 70, década que o preparou para os anos seguintes. “Passei anos a tentar sobreviver e não perder o hotel.”

Baterias apontadas a Nova Iorque
É conhecido por ser um empresário discreto, considera o trabalho em equipa o ingrediente essencial do sucesso. Jogador de râguebi até aos 24 anos, acredita que essa prática o marcou profundamente: no rigor, no trabalho consistente e contínuo, no espírito de equipa, na atenção às oportunidades e até na disciplina e na resistência que o marcam e pede a todos os que com ele trabalham. Com dupla nacionalidade, Dionísio Pestana não duvida que a cultura sul-africana lhe proporciona um olhar diferente sobre as actividades económicas e que isso tem também marcado o seu trabalho ao longo dos mais de 40 anos de carreira.

Com um olhar global e atento, usa a diversificação para aproveitar as diferenças de ciclos económicos das várias geografias onde opera para compensar alturas menos boas deste ou daquele país. Foi o que aconteceu com Portugal, quando a crise se agravou e os credores internacionais puseram o país sob um programa de assistência financeira, há quatro anos. Aí compensou com a actividade no Brasil e no Reino Unido. E como o negócio não pode parar, prepara-se para entrar em Nova Iorque, uma das cidades mais procuradas pelos turistas de todo o mundo, já em 2017. O grupo vai investir 44 milhões de euros numa unidade junto de Times Square, com mais de 170 quartos, para “chegar à final da Liga dos Campeões e tentar ganhar. Ou pelo menos marcar um golo”, afirmou o empresário no início do ano aquando do anúncio da compra da propriedade onde nascerá mais um Hotel Pestana.

O optimismo, marcante no seu discurso, e o sorriso facilmente aberto estão sempre tão presentes como o bloco que guarda num dos bolsos para ir escrevendo as ideias que lhe surgem à medida que o dia passa. Despretensioso – é fácil apanhá-lo sem gravata ou fato completo, e faz conversa fácil com desconhecidos –, é um empresário acessível e próximo dos colaboradores. Capaz de reconhecer o mérito, é também conhecido por promover uma política de incentivos, desafiando sempre os trabalhadores a fazerem mais e melhor.

O presidente do grupo Pestana deixou as funções executivas do grupo em Março deste ano – passou--as a José Theotónio, que já era o responsável pela área financeira –, concentrando-se plenamente na presidência do conselho de administração. 

Mas nem por isso a sua agenda ficou mais livre. Os dias desdobram-se em reuniões de muitas horas ou viagens pelas várias unidades hoteleiras, além dos compromissos inerentes ao cargo.

Rigor e exigência
Diz quem com ele trabalha que por norma o empresário começa o dia às 7h30, para se dedicar ao desporto – cinco dias por semana –, chega ao escritório imperativamente às 9h (é muito rigoroso e exigente com horários), tenta almoçar em casa com a família e sair do escritório às 20h. Depois dessa hora está disponível, mas em casa. Em declarações aos jornalistas, há uns anos, Dionísio Pestana salientava que é a gestão do tempo que lhe permite ser quem é, sem falhar em nenhuma dimensão da vida. “O segredo de uma carreira de sucesso e uma família feliz é saber gerir o tempo. Consigo estar com os meus filhos e dedicar-me aos negócios.” É essa a razão pela qual o empresário não faz almoços de negócios – haverá excepções, como na vida de todos – e dedica os fins-de-semana à família. 

Nos entretantos, faz pelo menos duas viagens por mês ao estrangeiro para acompanhar as actividades do grupo, analisar novas oportunidades e verificar os desenvolvimentos do sector. E não falha os dois importantes encontros alargados com as equipas do Grupo Pestana: a festa de Natal, em que aproveita para fazer discursos inspiradores e transmitir mensagens de motivação, e a Reunião Anual Pestana, em que estão presentes cerca de 150 quadros médios e superiores dos 16 países onde o grupo está presente.

Apesar de ter entrado na área da hotelaria por emoção, como costuma dizer, é a razão que lhe guia os passos e o faz olhar a longo prazo para os investimentos que estuda. Seguro, decidido, cuidadoso, arguto. E, claro, envolvido – sim, é mesmo possível encontrá-lo a fazer sugestões de decoração ou utilização de materiais nas unidades do grupo, além de ser visto muitas vezes em obras a discutir directamente os projectos em construção.

Mas desengane-se quem olha agora para o império Pestana e acha que o crescimento foi rápido e sem dificuldades. Senão vejamos: entre a década de 1970 e o final da década de 1990, o grupo dedicou-se aos hotéis de cinco estrelas em Portugal – que tinham, então, a marca Carlton. A marca cresce, mas, durante os primeiros 20 anos, Dionísio dedicou-se a perceber como funcionava a actividade e de que forma a podia tornar rentável e sustentada.

Em 1998 é dado o primeiro passo fora do país, com a concessão da exploração do Hotel Rovuma, em Maputo, Moçambique. Situado no antigo Prédio Funchal – uma das apostas imobiliárias do pai de Dionísio, em 1961, onde durante décadas houve apartamentos para alugar, lojas e escritórios –, marcou o início de uma era. Nos primeiros anos da década de 2000 o grupo Pestana adquire a Enatur, à qual pertenciam as Pousadas de Portugal, entra no Brasil, na Argentina, na Venezuela e em Londres. Abre uma unidade hoteleira por ano, em média, e torna-se o maior empresário do ramo da hotelaria em Portugal, na mesma altura em que completa 40 anos de actividade, corria o ano de 2012. 

Mas nem as quatro décadas de trabalho constante o fazem abrandar o ritmo. Dionísio Pestana continua a apostar na antecipação. J

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