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Mário Cordeiro 25/08/2015
Mário Cordeiro

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Uma questão perfumada...

O tipo e a qualidade de apoio que uma sociedade dá às pessoas com deficiência é um espelho directo do grau de civilização e humanismo dessa sociedade

“Reparei que pões perfume à tua filha.” A pergunta caiu assim, de repente, e a mãe da Vera ficou surpresa. “Porque não?”, retorquiu. “Não pões à tua?” As duas crianças, de dois anos de idade, estavam frente a frente, nos respectivos carrinhos de passeio, a Francisca agitando-se, rindo, fazendo caretas para a Vera. Esta, com paralisia cerebral, emitia sons e tentava libertar-se da cinta que a mantinha na posição de sentada.
“Sim, ponho, isso é um facto... mas a Francisca é normal, quer dizer, a Vera, como é assim, não deve dar muito por isso… foi por isso que achei original.”

A mãe da Vera disse, com um tom calmo: “Sabes que a Vera, por ser ‘assim’, como tu dizes, tem algumas funções muito desenvolvidas, como é o caso do olfacto. E pondo-lhe um perfume bom estará também protegida quando encontra pessoas rançosas e mentalmente malcheirosas. Percebes a ideia...”
E enquanto a conversa terminava logo ali, a Francisca despedia-se da Vera acenando-lhe um adeus e a Vera tentava sorrir, mesmo que com muita dificuldade.

Foi decidido! Hoje ninguém anda de óculos. É, leitor, quer ler o i, procurar um livro na sua livraria preferida ou até escolher um CD para ouvir em casa? Paciência. Queria ir ao banco e acabou no sapateiro… azar! E… cuidado com essas escadas. Ui! Deve ter doído, esse trambolhão. Não sabe onde está o seu carro? Nem sabe ler as matrículas? Ah! Já nem reconhece os seus filhos entre as várias crianças que estão na escola. Pois é… tudo isto porque hoje não o deixaram usar os seus óculos, você, um deficiente que sem a sua prótese ocular se transforma numa pessoa com handicap.
Agora imagine que este sonho (pesadelo, leia-se) é real para muitos e que estes ainda são desconsiderados pelos outros, que se julgam superiores na escala humana? 

Ainda não nos convencemos de que o caminho não é “integrar”, ou seja, dar umas benesses aos “pobres desgraçados”, mas construir uma sociedade e um meio ambiente onde todos possam estar. Todos temos deficiências, só que algumas são aceites e outras não. O que é injusto. O que não é decente. O que fere os valores fundamentais da humanidade!

Mesmo com enormes melhorias e avanços, há ainda que lutar para que as pessoas portadoras de deficiência, seja qual for o seu grau de handicap, vivam plenamente a cidadania. A variedade do tecido social é a sua maior “mais-valia”. Aliada a esta concepção do mundo está a questão da qualidade de vida e de como este conceito, associado aos conceitos de felicidade, auto-estima, respeito por si e pelos outros e participação, constitui os objectivos individuais e sociais, ao nível dos diversos ecossistemas, numa perspectiva solidária e complementar da sociedade. Uma sociedade onde todos possam, se quiserem, “usar perfume”, pesem ainda as muitas barreiras, obstáculos e dificuldades que se colocam no quotidiano da pessoa com deficiência e da sua família.

A sociedade é composta por diversas matizes e cada um de nós, mesmo vendo-nos a nós próprios como “sem deficiência”, temos também uma série de “fraquezas” e mesmo handicaps, os quais muitas vezes nos causam até maior impacte social e relacional do que as consideradas deficiências “tradicionais” – veja-se a timidez, por exemplo. A complementaridade do tecido social e a participação de todos na vida comum é a única maneira de potenciar toda a riqueza da espécie humana.

É por isso que a mãe da Vera lhe põe perfume, tal como a mãe da Francisca… todavia, na atitude preconceituosa da mãe da segunda é que reside a diferença conceptual e civilizacional.

Pediatra
Escreve à terça-feira 

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