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Rui Patrício 22/08/2015
Rui Patrício

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Bukharin em Paris

Os que melhor conhecem o medo são os que melhor sabem jogar com o medo dos outros, e não ganha quem tem menos medo, mas sim quem melhor sabe lidar com ele

Se o ódio é uma doença que ataca muita gente e é difícil de curar, o medo pode atacar universalmente e é uma doença crónica. E se é certo que ambos podem ser filhos da tentativa vã de iludir a morte, não é, também, menos verdade que podem provocá-la. Mas um é – sempre e em tudo – mais poderoso do que o outro. O destino de Nikolai Bukharin, em Paris, no inverno de 1936, jogava-se entre um e outro. De um lado, o ódio de Estaline, do outro o medo de Bukharin. Apesar de progressivamente caído em desgraça e cada vez mais diminuído, Bukharin foi enviado por Estaline para adquirir documentos de Marx e Engels que o Pai dos Povos desejava acrescentar ao acervo do Instituto que tinha o nome daqueles, bem como o de Lenine. Depois de um périplo por várias cidades europeias, Bukharin encontrava-se em Paris, a negociar a compra dos documentos. Mas, subitamente, Estaline mandou-o interromper as negociações e regressar a Moscovo. Bukharin – que era há muito uma vítima propícia (apesar dos seus silêncios e das cambalhotas que foi dando, e até da traição a Zinóviev e Kámenev) – compreendeu logo que o que o esperava não era bom e, se não fosse a morte, seria pelo menos a conclusão do seu processo de queda em desgraça e a prisão ou o gulag.

Foi aconselhado por alguns a não regressar, e poderia não ter regressado, tanto mais que tinha com ele a sua jovem mulher, Ana Lárina, grávida de meses. Poderia ter empreendido uma jornada de exílio como Trotsky, de país em país e de cidade em cidade, de recusa de asilo em recusa de asilo, contando cada dia como mais uma dádiva ou apenas como um adiamento. Mas Bukharin decidiu regressar a Moscovo, e, como terá confidenciado, fê-lo essencialmente por medo. Medo de viver como um pária, como Trotsky, medo de não resistir às pressões, medo de não pertencer a nenhum lugar (o que aterroriza mesmo um internacionalista), medo de que em cada dia ou no seguinte um punhal, uma pistola ou uma porção de veneno lhe acabassem com o exílio e com a vida, medo de arrastar os seus para os abismos da fuga e da incerteza. Talvez também um pouco de esperança, esperança de que pudesse não ser morto em Moscovo ou até de que a prisão não fosse muito longa, ou esperança de pelo menos salvar os seus. Mas foi essencialmente por medo, foi mais por medo, sempre o medo. Estaline sabia isso e, antes de o matar, jogou com ele ao gato e ao rato, e jogou eximiamente.

Aliás, os que melhor conhecem o medo são os que melhor sabem jogar com o medo dos outros, e não ganha quem tem menos medo, mas sim quem melhor sabe lidar com ele. No inverno de 1936, em Paris, o destino de Bukharin foi decidido pelo medo. Mas não apenas pelo seu. Também, ou sobretudo, pelo de Estaline, pois por detrás do seu ódio, da sua doença, do seu sadismo e da sua paranóia havia, e houve sempre, um medo imenso. A violência é, muitas vezes, filha do medo. E não é o poder que corrompe, mas sim o medo de perder o poder. E o medo de perder o poder absoluto corrompe absolutamente.

Advogado

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