14/6/21
 
 
Jorge Bateira 21/08/2015
Jorge Bateira

opiniao@newsplex.pt

O discurso do medo é a confissão da derrota

Os países que não se integraram na cadeia de valor da indústria alemã não beneficiam da sua dinâmica e ainda têm de competir com os salários da Ásia

No Facebook, alguém resumia assim o estado de alguns países após a saída do euro: “moedas sem valor no mercado internacional, inflação galopante, extrema pobreza, sistema bancário de rastos, corralito e corralón, incapacidade de as empresas se financiarem e consequente desemprego, inexistência de meios para importar produtos de necessidades básicas, etc.” De facto, com desemprego em massa pior que o actual, inflação galopante e dificuldade em importar alimentos, medicamentos, etc., temos a combinação perfeita dos males que convém associar à saída do euro.

Quando os argumentos chegam a este nível, isso tem um significado político: a UE dos “amanhãs que cantam” já não convence, pelo que apenas resta a estratégia do medo para controlar o povo.
Repare-se que este quadro negro da saída do euro é inspirado pela realidade que hoje estamos a viver. Nos países mais frágeis da zona euro, já temos desemprego de massa que, no caso da Grécia, é idêntico ao da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Tudo o que a Grécia já sofreu com a política de austeridade, além de cruel e ineficaz, é muito superior ao que teria de suportar se tivesse saído do euro em 2010. O mesmo se poderia dizer de Portugal.

Evidentemente, os partidários do euro a qualquer preço ignoram que um governo com moeda soberana tem autonomia e recursos para promover o pleno emprego. Ignoram que o Banco Central cria dinheiro “a partir do nada” quando credita a conta do Tesouro para que este possa financiar um programa de criação de empregos socialmente úteis, em colaboração com as autarquias locais e agências de desenvolvimento. Ignoram também que o actual modelo de crescimento da Alemanha, gerador de excedentes e do correspondente crédito externo, é intrinsecamente gerador de tensões à escala internacional – as exportações de uns são as importações de outros – e é absolutamente insustentável no contexto da zona euro. Os países que não se integraram na cadeia de valor da indústria alemã  não beneficiam da sua dinâmica e, ao mesmo tempo, têm de competir com os salários da Ásia. Esses países europeus, economicamente frágeis, necessitam da política cambial para travar o assédio dos bancos dos países excedentários que oferecem crédito para as importações. Quem defende a manutenção da Grécia, Espanha ou Portugal dentro do euro não diz como se paga a dívida externa privada que se acumulou desde a entrada no euro, nem como se evita a acumulação de nova dívida. Com a austeridade praticamente suspensa em Portugal, na falta de uma desvalorização que torne as importações relativamente mais caras, o défice externo reapareceu e, para o financiar, a dívida externa aumentou. Como se sai disto permanecendo no euro?

A inflação que decorreria da desvalorização da nova moeda tem sido outro espantalho usado para meter medo. Importa lembrar que um país com controlo dos movimentos de capitais tem margem de manobra para gerir o ritmo de desvalorização da sua moeda. Por outro lado, o impulso dado às exportações leva a uma maior procura da moeda, decorrido aproximadamente um ano, pelo que a taxa de câmbio estabilizará num valor compatível com o equilíbrio comercial do país, o que assegura que as exportações geram as divisas necessárias às importações. Ao contrário do que se costuma dizer, o impacto sobre os preços no consumidor é muito inferior ao da percentagem da desvalorização (40% desvalorização x 30% importações no cabaz de consumo = 12% inflação ao fim de dois anos, com tendência a descer). 

Com isto, não pretendo dizer que a saída do euro não tem custos. A saída o euro é uma condição necessária ao desenvolvimento do país, mas não suficiente, e tem custos temporários. Um governo preocupado com a justiça social deve endereça-los às classes mais abastadas e aos cosmopolitas que só pensam em si quando invocam os incómodos do câmbio e os custos agravados (ou mesmo o racionamento) das suas viagens ao estrangeiro. O que pretendo dizer é que não há qualquer teoria económica credenciada, nem qualquer precedente histórico de abandono ou de desmantelamento de uma união monetária que dê suporte empírico ao discurso do medo. Basta de ignorância e manipulação.


Economista
Co-autor do blog Ladrões de Bicicletas
Escreve quinzenalmente à sexta-feira


Especiais em Destaque

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×