17/11/18
 
 
Tiago Rodrigues. Um dia à boleia do senhor director
Na sala da direcção artística, Tiago e Magda acertam a vida da companhia para os próximos anos

Tiago Rodrigues. Um dia à boleia do senhor director

 Chegámos cedo, tinha de ser, para acompanharmos o trajecto do director artístico durante um dia de trabalho.

É Agosto e os residentes do Largo de São Domingos não tiram férias. Ali ao lado, na Rua das Portas de Santo Antão, já se sabe, qualquer hora é boa para ser invadido com propostas para almoçar – ainda que sejam 10h e o café da manhã se misture com o cheiro a fritos, das chamuças e dos rissóis. Tiago Rodrigues, tal como nós, fica-se pela cafeína, salvadora de qualquer cérebro com constrangimentos matinais, ligar a máquina nem sempre é tarefa fácil. Declaramo-nos culpados nesse sentido – redactor e fotógrafa são morcegos de profissão, a claridade é tramada –, ao mesmo tempo que invejamos a energia do director artístico do Teatro Nacional D. Maria II enquanto nos segura a porta dos artistas, em jeito de boas-vindas. 

Pode não parecer, mas tal como as suas imediações, o Teatro Nacional não mete folga – há toda uma rentrée a preparar –, como podemos comprovar no trajecto que cumprimos até à sala da direcção artística. Uma vez aí chegados, a realidade muda. Magda Bizarro, braço-direito de Tiago, dá-nos os bons dias enquanto responde a uma lista interminável de emails. As paredes preenchem-se com papéis, fotografias, como se da genealogia de um crime se tratasse, ainda que estejamos perante a organização das três tragédias gregas – “Ifigénia”, “Agamemnon” e “Electra” – que Tiago Rodrigues está a encenar para se estrearem em Setembro, na Sala Garrett. Ele que em Janeiro tomou posse como novo director do teatro e agora nos recebe para um dia connosco às costas. Há que prosseguir.

futurologia Depois de umas questões pendentes que se resolvem com Magda Bizarro e Tiago Rodrigues nas suas secretárias, a dupla une-se na mesa comum para discutir datas de digressão e estratégias de programação. Outros tempos urgem. 

E não falamos do passado. Aqui, ao som de Gabriel Ferrandini e de “outros filhos de JohnColtrane” – comoTiago nos confirma, processo de escuta para achar a música que vai servir as tragédias –, vive-se no futuro. Um caderno para cada ano, agendas mais ou menos provisórias, em papel ou no computador, excel ou rascunho, referentes a 2016, 17, 18. “Sim, é um bocado estranho, mas temos de planear ou perdemos o comboio”, avisa Magda. Entre o diálogo lá surge a chuva de pedidos via email. “Ri-me bastante com este”, afirma Magda. Falava-se de um espectáculo para o público infantil sobre como ensinar as crianças a lavar os dentes, a sensibilização para o tema, no fundo. A resposta de Tiago serve-se fria: “Responde que agradecemos, mas explica que não se enquadra na programação, desejamos o maior sucesso.” 

A nós, já no segundo café do dia em pleno Salão Nobre, o dramaturgo confessa--nos que esse género de propostas são recorrentes. “Já quiseram alugar o teatro para dar uma festa. Não é que não tenha essa valência, mas a nosso ver tem de ter algo a ver com teatro ou não faz sentido.” 

reunião gastronómica Em plena varanda do Salão Nobre, “a melhor esplanada de Lisboa”, pelo menos para Tiago Rodrigues, perguntamos o que se segue. Há um reunião com o ateliê de design R2, responsável pela nova imagem do D.Maria II, a ser revelada em Setembro. A fome aperta e Tiago descansa-nos: “A reunião deve meter almoço, não te preocupes. Eu devo sair antes do final do almoço, para não chegar atrasado ao ensaio, odeio chegar atrasado. E lá está, há muitos dias em que não dá para almoçar. Às vezes almoço, é mais isso.” 

Regressamos à Rua das Portas de Santo Antão, mais precisamente ao Restaurante O Churrasco, onde a mesa está posta para seis, até que, com a nossa chegada, passa para oito. Enquanto o couvert está na mesa, os representantes do R2 mostram um catálogo de fotografias que fizeram com o elenco fixo da companhia. 

Enquanto Cláudia Belchior e Miguel Honrado, do conselho de administração, observam o resultado final, Tiago Rodrigues solta um franzir de sobrancelhas. “Tenho alguns problemas com isto. Pensando no teatro, isto não diz muito, remete-me para muitos clichés, não tem o sabor que esperava, faz-me lembrar um book promocional de actores.” 
O ambiente podia ter ficado tenso, a sinceridade do senhor director pode ter destas coisas, mas nem por isso. Há confiança e entendimento, mais ainda quando os designers mostram outro formato que testaram, algo a que Tiago acede imediatamente: “Isto sim, aqui estamos em casa.” 

Antes disso, o cardápio já tinha corrido a mesa. Fomos uma das excepções, dos que não pediram meio frango no churrasco, mas antes um dos pratos do dia. O pato assado com laranja, com umas generosas batatas fritas, caiu bem, só podia. O único problema foi a quantidade: entrámos de imediato naquela moleza pós-almoço que trama qualquer bom garfo – isso e as altas temperaturas, combinação terrível. 

digestão helénica Quando concluímos a refeição, já Tiago Rodrigues tinha seguido para o palco, onde o elenco de “Ifigénia” o esperava. Uns deitados – inveja a nossa, que bem queríamos estar no seu lugar e dar descanso a esta barrigada –, outros sentados, todos com o texto à frente e uma caneta na mão, escutavam as indicações do encenador para aquele que foi o primeiro ensaio em palco, depois de semanas em preparativos de mesa. 

Em “Ifigénia”, Tiago Rodrigues mantém a sua vontade de fazer teatro de forma descomplexada, rompendo com os cânones, bem ao seu jeito. O ensaio lá começa e o director avisa: “A única dificuldade agora é usar a profundidade, mas lá chegaremos.” Isto porque, sem querer revelar muito do que vimos, a peça acontece em todo o espaço cénico – os testes que testemunhámos podem bem não chegar à data de estreia – e os actores, nesta fase, valorizam a movimentação em palco, ganham intimidade com os elementos do cenário, alguns ainda a aprenderem o texto. 

No final, Tiago diz: “Pronto, foi uma estreiazinha. Vou-me concentrar mais na noção espacial. No geral funcionou muito bem. Amanhã às 10h. Bom descanso.” Nós partimos em seguida, que o trabalho assim o exige. São 18h e, para o director artístico, o dia está longe de acabar. Vai assumir o cargo de pai e buscar a filha à escola para lanchar. Às 21h estará de volta ao teatro para reunir com a equipa de comunicação e para decidir alguma logística em relação a “Ifigénia”. 

À despedida, saímos pela porta do fundo do palco. Tiago olha para trás e desabafa: “Esta sala é fantástica, há que tempos que ansiava trabalhar aqui, sabe muito bem.” Não esquecer, amanhã às 10h.

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