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Economia. Guerra de espelhos na leitura das estatísticas
O debate faz--se ao ritmo do INE ou do Eurostat

Economia. Guerra de espelhos na leitura das estatísticas

O debate faz--se ao ritmo do INE ou do Eurostat Shutterstock Humberto Costa 15/08/2015 12:57

A pré-campanha eleitoral parece ter entrado no delírio dos números e da estatística.     

Há sempre uma perspectiva de copo meio cheio e outra de copo meio vazio. E estará ele meio cheio ou meio vazio? Esta é a pergunta para a qual há sempre respostas diferentes. Depende do ângulo, e esta semana política foi exemplar.

Vejamos os dados de ontem do INE sobre o crescimento da economia portuguesa no segundo trimestre do ano. Trata-se de uma estimativa rápida, isto é, são dados ainda provisórios, mas que apontam para um crescimento do PIB de 1,5% no segundo trimestre de 2015 relativamente ao mesmo período do ano passado, e de 04% relativamente ao trimestre anterior. 

Não foi preciso muito tempo para que se abrisse o champanhe do lado do governo. “Francamente positivo”, diria Pires de Lima, ministro da Economia, que aclamaria um Portugal que “cresce há sete trimestres consecutivos em termos homólogos (…) mais do que o espaço económico em que estamos incluídos.” E o ministro do CDS prosseguia: “Boa recuperação do investimento (…) boa evolução gradual do consumo privado (…) forte dinâmica das exportações” e, para concluir: “Creio que esta tendência de crescimento se pode acelerar ao longo do segundo semestre, mas 1,5% é bom.” 

Ora, para além de bom é “consistente, sólido e coerente”, diria em reacção o CDS, pela voz de Cecília Meireles, que acrescentaria: “Manifestamente se enganam aqueles que falavam da recessão ou do crescimento frágil.” 

Já para o PS, pela voz de João Galamba, o crescimento é “anémico e medíocre”. E disse porquê: “Numa altura em que a Europa acelera o seu crescimento, sobretudo Espanha, que quase duplica o seu crescimento e cresce a 3%, a Grécia cresce a 1,4%, todos os países da convergência aceleram o seu crescimento e em que os países do leste da Europa aceleram o seu crescimento, Portugal é o único país de todos estes que mantém o crescimento inferior.” 

Explicada a “anemia”, Galamba justifica a “mediocridade” do crescimento por assentar na “procura interna que cresce e o comércio externo pesa negativamente, com uma deterioração significativa do nosso saldo comercial” e acusa o governo de não estar a tirar partido “das condições externas benéficas”. 

Jorge Pires, pelo lado do PCP corrobora: “Insuficiente” e “anémico (...) assente nos baixos salários”, um desempenho da economia que, segundo o dirigente comunista, se deve ao “contributo negativo significativo da procura externa líquida, verificando-se uma aceleração das importações de bens e serviços a um ritmo superior ao das exportações de bens e serviços.” 

 Ora, apetece lembrar a rábula de Ricardo Araújo Pereira sobre as intervenções do professor Marcelo Rebelo de Sousa: é verdade que a economia cresceu relativamente a período homólogo? É! E é verdade que é o crescimento é “anémico” relativamente, por exemplo, ao de Espanha, que foi de 3%? Também é! Como se vê, bem se pode dizer uma coisa e o seu contrário que os números assentam sempre que nem uma luva.

guerra das estatísticas Falemos agora de um outro frente- -a-frente, entre governo e oposição, a propósito de estatísticas. Desta vez sobre os números do INE sobre o desemprego, que suscitaram polémica acesa e, mais uma vez, reacções díspares em função de leituras diferentes.

A taxa de desemprego estimada para o segundo trimestre de 2015 foi de 11,9%, inferior em 1,8 pontos percentuais relativamente ao trimestre anterior e em 2 pontos percentuais em relação ao trimestre homólogo de 2014. Foram este os dados que geraram a controvérsia.

Não tardou que o ministro Pedro Mota Soares viesse a terreiro falar em “sinal de confiança e esperança”. Uma “boa notícia”, diria Mota Soares. “Portugal deu a volta”, acrescentaria, para rematar: “A tendência de desemprego é de descida e isso é francamente positivo.”

“Apelamos a um debate sério sobre esta realidade dura do desemprego em Portugal”, ripostaria o vice-presidente da bancada parlamentar do PS. Pedro Nuno Santos avocaria a este debate dos números do desemprego a “destruição líquida de 210 mil postos de trabalho” e alertaria para os 160 mil portugueses que frequentam programa ocupacionais, mais 250 mil que desistiram de procurar emprego e ainda os 500 mil que saíram do país. E, de repente, a guerra do desemprego muda para a emigração.

“Mistificação”, acusa Marco António Costa. “O PS construiu a narrativa de que a emigração nasceu a partir do momento em que o governo tomou posse.” 

A controvérsia gerada pelas estatísticas parece não ter fim. Vão pingando os números, INE, Eurostat, desemprego, crescimento económico, e lá vem conferência de um lado e reacção do outro, e até os dados da produção industrial tiveram direito a conferências de imprensa.

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