25/05/2022
 
 
Isabel Stilwell 08/08/2015
Isabel Stilwell

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“Aguentar as Férias” para Homens

Dizem-se injustiçados. Os homens, claro, os homens que ficaram sem “Guia para Aguentar as Férias”. Leia esta crónica, mas peço-lhe que a esconda da sua mulher.

Protestaram, e entendi o protesto. Diziam que a crónica da semana passada via as férias apenas pelo ponto de vistas das mulheres. Que fazia delas as heroínas da História, como se também eles, pobres coitados, não sofressem.

Considerei a queixa, e dei-lhes razão. Vivo há tempo suficiente comigo mesma, para saber que (nem sempre) somos criaturas fáceis de aturar. Sendo assim decidi avançar. Sondei homens novos, velhos e assim-assim, mas sobretudo falei com elas, porque são os segredos delas que podem ajuda-los a dar a volta ao texto. Quer dizer às férias. Aqui fica o resultado.

Não argumente contra as queixas. É a regra número 1. Ou seja, não caia na asneira de se justificar, e ainda menos de contra-argumentar as lamúrias da sua querida cara-metade. Se ela diz que é a única que faz alguma coisa lá em casa, se resmunga que só ela toma conta dos filhos, só ela se recorda das datas de namoro e casamento, só ela, só ela e só ela, por favor não se ponha a enumerar a lista de tudo o que também você, disse e fez. Em lugar disso, concorde, dizendo-lhe o que ela realmente quer ouvir: que é extraordinária, a super-mulher, e sobretudo que a admira mais do que nunca, e sobretudo, mais do que todas as outras. Em lugar de a besuntar com protetor solar, unte-a com lisonja. Face a tanto reconhecimento, ela redobrar-se-á em afinco para lhe garantir umas férias únicas. 

As mulheres das outras são... Compreende-se a crueldade de colocar homens em férias ao lado das amigas da mulher, e das amigas das amigas da mulher, simultaneamente impedindo-o de as apreciar devidamente, proibindo-lhe sequer um comentário e, claro, de tentar a sorte. Talvez ajude a suportar o suplício, e a não meter a pata na poça, se souber que, na verdade, estão todas combinadas entre si, numa versão “armadilha para apanhar maridos ingénuos”. E ingénuo é o adjetivo mais suave para aquele que se esquecer que é exatamente frente às outras, que a esposa estará mais sensível do que nunca a comparações! Mas afinal não estavam feitas umas com as outras?!? Não faça perguntas difíceis, e trate mas é de comprar uns óculos escuros bons, e pratique a técnica de ver sem voltar a cabeça. É claro que ter filhos pequenos, ajuda: não o vão poder acusar de estar a observar modelos de bikini, quando tudo o que pretende é garantir a segurança do seu querido menino. Ou podem?!? 

O pai precisa de descansar... É claro que tem azar em ter nascido num tempo em que lá em casa ninguém manda as crianças falar baixo, porque o pai precisa de descansar, mas por muito injusto que lhe pareça, a tese vigente é a de que os homens devem partilhar tarefas domésticas e cuidar dos filhos. Cinquenta, cinquenta. Por isso, se quer umas férias mais descansadas, avance já com uma proposta de “partilha” do dia, que lhe permite ficar com a melhor parte. Que tal: “Fico com eles à hora da sesta?” Ou, se forem adolescentes, “Sou eu que os levo”, deixando-lhe a ela as madrugadas em claro.

É apenas um “empregado”. Esta crónica só vai ser lida por homens, certo? É que elas matavam-me se soubessem que vos conto que mais do que homens a partilhar as tarefas, com iguais responsabilidades, as mulheres querem, vá lá, “quadros superiores”. Ou seja maridos e pais de filhos que cumpram ordens, e aceitem ser fiscalizados: “Levas a toalha? E o balde? E o chapéu?”; “Não vejo creme neste braço? Tens a certeza que lhe puseste o protetor em todo o lado?”, “Sabes que ela não pode comer bolasdeberlim, quantas vezes é que é preciso dizer-te?!? És pior do que ela.”, etc., e etc. e tal. Por isso, a bem da Nação, aprenda a responder a todas estas questões em piloto automático. E, já agora, ponha a questão na agenda das coisas que quer (tentar) mudar em 2016. Porque há controlo e controlo!

Ouvidos de mercador. Para a maioria dos pais as férias tornam evidente o choque do “modelo de educação” da mãe e o modelo do pai. E, por vezes até, a ausência de qualquer modelo de educação: que o digam os vizinhos do toldo! O que isto significa, na prática, é que enquanto o pai diz “Pode”, a mãe grita “Não Pode”, enquanto o pai diz “Faz” a mãe esganiça um “Coitadinho!”, e quando o pai diz “É perigoso”, a mãe argumenta com um “Queres fazer dele um piegas?”.

Os efeitos de tudo isto nas férias da pobre criança são evidentes, mas nas suas também, por isso, das duas uma, ou decidem previamente como gerir os pontos mais quentes ou... faça ouvidos de mercador. A escolha é sua, as consequências também. 

Socorro! As irmãs juntaram-se... Se a Liga das Irmãs se reúne em Assembleia Geral ininterrupta nas férias, aconselhava-o a comprar já uma prancha de paddle ou uma canoa e a fazer-se ao mar. Primeiro, porque ninguém lhe vai prestar a mais pequena atenção, segundo, porque é provável que os seus cunhados se tenham baldado, e o seu sogro se cole a si como uma lapa, e terceiro porque quando, finalmente, o meeting acabar, vai encontrar-se face a face com uma mulher de energia e auto-estima renovada, pronta a exigir de si o que as manas lhe garantiram que era o mínimo que merecia de um homem... 

Se somarmos a tudo isto a falta de jogos de futebol, que sempre lhe davam direito a umas horas de sossego em frente da televisão, e os almoços de trabalho substituídos por umas sandes manhosas, o cenário não é animador, mas para o ano pode fazer como 48% dos portugueses e escapar a férias de Verão. 
 
Jornalista e escritora
Escreve ao sábado 

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