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Ana Markl 07/08/2015
Ana Markl

opiniao@newsplex.pt

O que é mesmo uma selfie?

Rodrigo Guedes de Carvalho teve um dos momentos mais altos da sua carreira jornalística quando explicou cuidadosamente aos seus espectadores o que era uma selfie.

Ah, a silly season. Os noticiários ficam doidos com as reportagens sazonais sobre gelados, turistas e sunsets. Ouvi na televisão um autarca qualquer na Comporta a dizer que um dos atractivos da localidade eram os sunsets. Uau. Não há disso em muitos sítios, de facto, só mesmo naqueles onde o Sol de põe.

E quando os Fúria do Açúcar cantavam “Eu Gosto é do Verão” em 1997 talvez não imaginassem que o pôr do Sol viesse efectivamente a ser “patrocinado por uma bebida qualquer”, de preferência gin.

Mas adiante, ao que interessa: no “Jornal da Noite”, Rodrigo Guedes de Carvalho teve um dos momentos mais altos da sua carreira jornalística quando explicou cuidadosamente aos seus espectadores o que era uma selfie, já que muitos andavam a enviar para a redacção muitas selfies tiradas por outros, deturpando o sentido de uma rubrica de Verão da SIC dedicada aos auto-retratos da moda.

Ora uma selfie tirada por outra pessoa, quando muito é uma “anotherie”. Ou então é só, como dizer, uma foto. Se uma pessoa estimular outra pessoa manualmente, pode dizer-se que é masturbação? Agora pense.

E então Rodrigo Guedes de Carvalho ensinou, com o ar mais condescendente do mundo, que uma selfie é uma foto tirada pelo próprio, pegando na câmara à distância de um braço ou à distância de um pau de selfie. É o fenómeno mais intrigante, isto do pau de selfie, a começar logo pelo nome do objecto em português, que remete para coisas pouco sofisticadas (pau-de-cabinda, pau-de-cabeleira) mas junta a ambição do anglicismo (seria tudo bem diferente se empunhássemos um “pau-de-propriazinha”).

Depois é um objecto que serve o propósito do auto-retrato mas que, na verdade, nos ajuda apenas a parecermos o mais afastados de nós próprios possível. Estou confusa quanto à mensagem que o pau de selfie quer passar: por um lado, permite abarcar uma multidão à nossa volta (uma “selfie” de vários “selves”) ou apanhar os Alpes suíços lá atrás (quando o fotógrafo ia à minha escola primária usava sempre esse cenário); por outro, também nos permite registar aquele momento desolador em que sorrimos sozinhos para a câmara sem uma alminha que seja nas imediações.

Eu tenho muita vergonha de sorrir sozinha sem ter razões para isso. Mas rio-me muito sozinha quando vejo os sorrisos de selfie dos outros.

Guionista, apresentadora e porteira do futuro
Escreve à sexta e ao sábado


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