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Lousã. Uma casa com alicerces
Francisco e Glória estão no café há quase 40 anos

Lousã. Uma casa com alicerces

Francisco e Glória estão no café há quase 40 anos Marta F. Reis (Texto e Fotografias) 06/08/2015 19:20

O Central da Lousã tem 80 anos e está há 37 nas mãos de Francisco e Glória. São um casal unido que continua a ter gosto em estar atrás de um balcão que já serviu 400 cafés por dia e agora vê menos de 50. “Para nós chega bem”.

Chegaram a trabalhar 20 horas seguidas, com os dois filhos pequenos. Abriam  às 7 horas da manhã e só fechavam de madrugada. Iam umas três horas à cama, se tanto. Além das bicas e das bebidas, vendiam letras, selos fiscais. E depois os presentes que os homens que trabalhavam na indústria das redondezas – a Fábrica de Papel do Prado ou as alcatifas Robilon – começaram a encomendar para levar às mulheres ao final do dia: alfinetes de peito, bibelôs e perfumes.

Tudo o que lhes pediam eles arranjavam. Isto, claro, quando as Finanças ainda eram o Tesouro da Fazenda Pública e as declarações na internet eram uma miragem. E antes de abrir o Intermarché, de virem as lojas dos 300 e do chinês.

Desses tempos agitados só restam Francisco e Glória atrás do balcão do Café Central da Lousã, no coração das aldeias do xisto. A casa tem 80 anos de história e está na mão deles desde 1978.Chegaram a servir 400 cafés por dia e hoje, com a diminuição da população e o fecho de muita indústria – mas também com a crise –, são menos de 50.

Mas para eles, que nos primeiros cinco anos conseguiram construir uma casa e deram mais do que alguma vez tiveram aos filhos, o que tiram hoje continua a chegar, diz Francisco, de 64 anos. “Arriscámos muito quando nos metemos nisto mas valeu a pena.”

Geração desgraçada

Se o café os estafava, a vida nunca foi fácil para este casal. “Somos de uma geração desgraçada, sobretudo para quem estava em zonas pobres do Interior.”

Francisco começou a trabalhar aos 11 anos numa serração como aprendiz de marceneiro e Glória não muito depois. “Todas as semanas ganhava 60 escudos. Chegava a casa e punha-os em cima da mesa para ajudar”, conta Francisco. Só havia descanso ao domingo e o pai dava--lhe 5 tostões, com os quais o rapaz pagava umas horas de televisão no café da aldeia onde nasceu, Cadaixo, no concelho vizinho de Miranda do Corvo. A luz só chegou à aldeia quando Francisco já tinha dez anos e fez os trabalhos até à quarta classe sempre à luz da candeia.“Quando um irmão precisava de luz, ficava-se no escuro com os cadernos.”

Os pais eram agricultores e nem a história da sardinha a dividir pelos seis havia naquela casa.“Era sopa e broa e era bem bom. Quando havia a apanha da azeitona enchiam-se uns potes e era o nosso segundo todo o ano.” 

Francisco gostava de ter estudado mais, mas isso era só para famílias com estabelecimentos ou empregadas na Companhia Eléctrica das Beiras – a CEB, nacionalizada em 1975 e no ano seguinte integrada na EDP –, que na altura já garantia os estudos aos filhos dos funcionários. “Se há coisa que lamento é ter visto irem para médicos pessoas mais burras que eu”, sorri. Mas o certo é que houve um professor que o quis mandar estudar para um seminário em Fátima e ele estudou até os pais o livrarem dessa sina.

E ainda bem, porque conheceu Glória, quando a rapariga passava por ele a caminho do trabalho numa fábrica de óculos. Estão casados há 40 anos e não precisam de dizer que são um casal unido – vê-se na forma como ele insiste que tirem uma fotografia juntos, porque foi juntos que aguentaram o barco do café. O negócio surgiu por acaso, quando se mudaram para a Lousã para Francisco aproveitar o emprego na casa de uns cunhados. “O café estava a trespasse e pedimos um empréstimo para o comprar. Não tínhamos nada e ao fim de um ano estava pago.”

Da história antiga há pouca lembrança. Sabe-se que terá sido o primeiro café da vila, erguido a pedido de ilustres locais como Pedro Mascarenhas de Lemos, então presidente da câmara, ou do carismático lousanense José Carranca Redondo (1916-2005), pai do Licor Beirão, produzido ali perto na Quinta do Meiral, em plena serra da Lousã. 

Republicanos, consta que chegou a haver ali alguns encontros mais políticos, mas a certa altura o dono da casa terá visto que o negócio não descolava só com a elite da terra e começou a deixar entrar mais gente. Os senhores não gostaram e arranjaram forma de abrir ao lado da Leitaria Império, para poderem tomar o seu garoto e ter reuniões longe dos ouvidos da terra. E o Central fez o seu caminho como ponto de encontro, despartidarizado e sem classes, com mesas de bilhar e mercearia. 

Hoje o café mantém o aspecto antigo, as madeiras originais, o bilhar. Têm canais e jornais desportivos que ainda atraem alguns clientes, mas Francisco desfez-se há uns tempos do “Correio da Manhã”, que é um homem sentimental e não aguentava mais o terror das notícias, do homem que engoliu os pregos na serração ao pai que se deita ao poço com o filho. Não tem muita esperança no futuro da terra, nem nos políticos. Nunca foi militante mas gastou o seu tempo com os socialistas e ainda foi a uns comícios. Mas nunca pensou que Sócrates fosse o que dizem e hoje está mais inclinado a confiar em Passos Coelho, que lhe parece um homem justo.

“Se isto ainda funciona é porque temos bons alicerces”, diz Francisco, que tem os seus clientes favoritos e é amigo dos amigos, ouve os lamentos de todos e diz as verdades, mesmo que custe. Tem a sua opinião sobre o ponto a que as coisas chegaram: “Diz-se que a construção foi o motor, mas para mim foi o fim. Quando toda a gente quis ter casa e se meteu em empréstimos, deixou de haver dinheiro para consumir. Mas sabe que é instinto difícil de contrariar: querer encontrar conforto, um lugar para ser feliz, e com eles não foi diferente. Construíram o deles ali.

Café Central de Lousã

Ano: 1935
Dono: Fernando F. Rodrigues
Especialidade: Licor Beirão, ou não fosse a terra dele (cálice pequeno 1,5€; cálice grande 2,5€)
Preço do café: 0,55€
Preço da imperial: 0,80€
Clube de futebol do dono: Benfica

 

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