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Café Central. No Brejão, onde Amália passava férias e comia douradas

Café Central. No Brejão, onde Amália passava férias e comia douradas

Clara Silva 05/08/2015 12:45

Foi ao pai do dono do Café Central que Amália Rodrigues comprou, por 300 contos, o terreno onde iria construir a sua casa de férias.

“Como se chamarão os habitantes do Brejão? Brejeiros?”, brinca alguém no caminho para sul. Talvez tenha sido a mesma piada que Amália Rodrigues fez quando ali parou o carro pela primeira vez, no início dos anos 60, de lenço e óculos escuros num descapotável verde e prateado conduzido por um motorista. “Já não saio mais daqui”, terá dito na altura ao marido. E não saiu, pelo menos de mãos a abanar. É assim que reza a história que vai circulando de boca em boca ali para os lados de São Teotónio.

Assim que avistou um terreno junto ao mar, a rainha do fado quis contactar o proprietário, Jacome Pacheco, pai de Octávio Pacheco, o actual dono do Café Central do Brejão, que lhe poderá contar a história melhor que nós, numa altura em que não esteja muito ocupado atrás do balcão. O terreno de nove hectares terá sido vendido por 300 contos e foi aí que Amália construiu a sua casa de férias e uns degraus para uma praia, a praia da Seiceira, que acabou por ficar conhecida como praia da Amália até aos dias de hoje.

Se ainda não tentou desbravar os caminhos para a praia da Amália, entre estufas de morangos, um malmequer à beira da estrada que avisa que está no caminho certo e escorregadelas na lama na descida para o areal, é provável que nunca tenha passado pelo Brejão. Ou talvez sim, a caminho da famosa marisqueira da Azenha do Mar, que nesta altura do ano é mais concorrida que o Sudoeste, ali nas redondezas.

Também o Café Central se torna tão procurado no querido mês de Agosto que é difícil arranjar mesa. “Temos muitas noites com listas de espera de 60 pessoas”, conta Octávio, de 48 anos, que ali está desde os 17, quando acabou o 12.o “Mas não aceitamos reservas. As pessoas estão de férias e não vamos ser nós a dar-lhes horários. Quando chegam sentam-se.”

Nesta saga dos cafés centrais, talvez o do Brejão seja o menos… brejeiro. O espaço teve obras recentes e até tem aquilo a que numa revista de tendências se poderia chamar uma “esplanada chill out”, perfeita para esperar por mesa. Há outra esplanada menos recente, remodelada há dez anos, e lá dentro também tudo tem um aspecto moderno, com quadros “de uma amiga angolana pintora” e algumas obras de arte, como uma Amália de pedra feita por Francisca Efigénia, mais conhecida por Xica, a melhor amiga da fadista que mora ali perto.

Ao todo, o Café Central tem capacidade para 100 pessoas e é mais um restaurante com boa fama que propriamente um café da terrinha para ler o jornal e passar o tempo. “Tem evoluído ao longo dos anos”, continua Octávio. “Temos feito sempre obras e está muito diferente do que era. Estamos a falar de há 30 anos [o café foi inaugurado em 1972], quando o Brejão não tinha ninguém, era só o pessoal da terra e o café adequava-se à altura, era uma coisa pequena.”

Com as unidades de turismo rural na zona “a brotarem como cogumelos”, o café tornou-se paragem obrigatória. E ganhou fama graças a vários pratos, como o arroz de tamboril (16 euros por pessoa) ou os muito elogiados linguadinhos fritos com migas de ovas. “A especialidade são coisas do mar, percebes, navalheiras, sargos, robalos...”, enumera Octávio. No Verão são três as cozinheiras. Em época baixa é só uma e o restaurante costuma fechar durante três meses para se preparar para a avalanche que está agora a receber.

Se tem dúvidas quanto ao prato a escolher, peça o mesmo que Amália: “Ela comia sempre peixe, normalmente dourada se houvesse.” Quando estava no Brejão de férias, em Julho ou Agosto, a fadista costumava passar pelo Café Central umas “duas ou três vezes por semana”. “Pedia-me sempre a sala de dentro e uma mesa específica”, recorda Octávio. E ainda se lembra da noite em que, quando Amália se preparava para sair do restaurante, que por sinal estava cheio como sempre, todos os clientes se levantaram para a aplaudir. Aplauda também a comida daqui.

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