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Assis Costa. “O animal mais estranho que já atendi foi uma tarântula"

Assis Costa. “O animal mais estranho que já atendi foi uma tarântula"

Jornal i 01/08/2015 18:58

Um problema muito curioso: o dono, que a tinha há pouco tempo, entrou aqui e disse que a tarântula tinha um problema de pele. Eu olhei para ele, sorri e disse-lhe: “A sua tarântula não tem nada um problema de pele. Está a mudar de pele".

Aos 63 anos, Francisco Assis Costa é um dos veterinários mais respeitados de Portugal. Director da Clínica João XXI – que tem instalações na Avenida João XXI, em Algés/ Miraflores e na Amadora –, trabalha quatro dias por semana a um ritmo intenso de 16 horas por dia. Aos fins-de-semana, normalmente retira-se para a propriedade que herdou do pai no Alentejo, onde produz agricultura biológica e vinho orgânico.

Nascido em Mértola, onde os pais tinham um negócio, confessa: “Ainda hoje tenho saudades dos cães da minha infância.” Aos 19 anos foi para Lisboa estudar Medicina Veterinária e, concluído o curso, enveredou pela carreira militar. A recruta, em Santarém, foi “dura”. “Fazíamos marchas de 30 e 40 quilómetros e coisas desse tipo. Aquilo não é para maricas.”

No seu gabinete, situado por cima da clínica onde dá consultas há mais de 40 anos, há um ecrã com imagens de câmaras de vigilância para onde dirige o olhar a todo o instante. “Para ver se entram urgências ou não”, justifica. E se entrassem? “Ia imediatamente para baixo e pedia-lhe desculpa por ter de interromper a conversa.”

Recorda-se do seu primeiro animal de estimação?
Recordo. Era um épagneul bretão chamado Rouen. Eu tinha três anos quando o meu pai o adquiriu e viveu até aos meus 16 anos. Era quase uma pessoa de família.

Esse cão teve influência na escolha da sua carreira?
Sempre quis enveredar pela medicina. Mas houve um acontecimento familiar que me levou a tomar esta opção. Quando tinha 14 anos, o meu pai adoeceu durante três meses e faleceu. Isso marcou-me muito e, no momento de decidir, levou a que eu receasse ter insucessos profissionais. Como gostava de medicina e da natureza, acabei por enveredar pela veterinária.

Existe uma parte do curso de Veterinária que é comum à medicina humana?
Com excepção de Anatomia, os três primeiros anos de Medicina e Medicina Veterinária têm as mesmas cadeiras. Sabe qual foi a minha primeira hipótese de emprego quando me formei? Foi ir trabalhar para Santa Maria. Na altura, o 10.o andar da ala sul era uma clínica veterinária onde os médicos acompanhavam cirurgias para treinarem a mão.

Um veterinário está habilitado a tratar de um paciente humano?
Numa situação de emergência, sim. Aconteceu-me muitas vezes. Desde clientes que desmaiam até pessoas das proximidades que têm um problema traumático urgente e entram pela porta adentro.

Durante o curso dissecam-se animais?
Fundamentalmente, ovelhas e cavalos.

Deve ser impressionante abrir um cavalo…
Não é nada de especial. Se fosse um elefante era pior [risos].

E como se aprende a tratar um elefante, por exemplo?
Temos livros de consulta e cursos de pós-graduação. É rigorosamente como na medicina humana: o estudante tira o curso básico e depois vai para a especialização. Claro que quem quer tratar animais selvagens tem de ir para sítios onde isso se faça. Pode ser o Jardim Zoológico ou uma das muitas faculdades especializadas que há por esse mundo.

Normalmente, os primeiros animais que as pessoas têm em casa são peixes. Os peixes não contam para a sua profissão, ou contam?
Contam. Até o Oceanário da Expo ter a sua enfermaria, muitas vezes operámos peixes de lá. Vinham em tanques e eram anestesiados aqui. 

Como se faz a anestesia de um peixe?
É um anestésico próprio que se põe na água e, em contacto com as guelras, vai adormecendo o peixe.

O peixe é operado em seco?
A parte da cabeça fica dentro de água e a parte a operar fica de fora. Normalmente usa-se laser ou o electrobisturi, que permite que o corte coagule de imediato, o que não acontece com o bisturi normal. Chegámos a operar diversos peixes e até cetáceos aqui na clín ica, tal como chegámos a operar lobos da Tapada de Mafra. O lobo era adormecido, entrava já meio grogue, era operado e depois regressava ao seu habitat.

Como é um lobo visto de perto?
É quase como um pastor-alemão. Mas maior. Chegámos a operar aqui lobos de 70/80 quilos. Enormes. Eles são maciços e muito robustos.

Qual foi o animal mais estranho que atendeu?
Que eu atendi? Uma tarântula.

E como se lida com uma tarântula?
Com pinças, para não ser com as mãos, com instrumentos que não traumatizem e com muito cuidado.

Qual era o problema dessa tarântula?
Um problema muito curioso: o dono, que a tinha há pouco tempo, entrou aqui e disse que a tarântula tinha um problema de pele. Eu olhei para ele, sorri e disse-lhe: “A sua tarântula não tem nada um problema de pele. O que acontece é que as tarântulas, como as víboras ou as cobras, mudam de pele uma vez por ano. A pele nova está a empurrar a antiga e está a torná-la caduca.”

Teve de ir ver aos livros ou já sabia que as tarântulas trocam de pele?
Já sabia. Também recebemos iguanas…

E cobras?
Algumas. Com problemas oftalmológicos, como cataratas, infecciosos… O que calha.

Não sente repugnância por esses animais?
Tem de ver uma coisa: os mecânicos pensam que mexem em porcaria porque não conhecem a vida dos médicos. A profissão mais bonita, mas simultaneamente mais suja, é a do médico. Há sangue, há feridas, há pus, há objectos contaminantes. Portanto, a medicina, apesar de linda, é uma ciência suja.

Os animais não falam. Isso dificulta o diagnóstico?
Não. É muito mais fácil.

Mas não podem dizer que lhes dói aqui ou ali.
Isso tem uma vantagem: não se queixam do que não têm. Mas hoje já ninguém trabalha sem bases de diagnóstico concretas. Faz-se radiografias, ecografias, análises de todo o tipo.

Também recebe cães atropelados?
Se mos trouxerem, sim.

É muito impressionante?
Não! Há fracturas expostas, há esmagamentos... o normal.

Já vi que não se impressiona facilmente.
Nada, senão não estava nesta vida há tantos anos.

Nunca houve uma situação em que, apesar dessa frieza, ficasse impressionado?
Não diga frieza que não é frieza. É profissionalismo e habituação. Desde os 19 anos que trabalho 16 horas por dia e com o tempo vamo-nos habituando a ver coisas. Quando as pessoas falam de cansaço, admiro-me como é que alguém a trabalhar sete ou oito horas pode andar cansado, quando eu trabalho há 40 e tal anos 16 horas por dia e nunca tive um mês de férias na vida.

Já alguma vez deu por si a imaginar o que vai na cabeça dos animais?
Os animais têm mais memória do que raciocínio. É natural que pensem dentro das suas limitações. Há testes psicológicos e de comportamento muito curiosos feitos com cães. Um pastor-alemão adulto ensinado conhece o vocabulário e executa as tarefas de uma criança de cinco anos.

Os cães sonham?
Claro que sim.

Com quê?
Provavelmente com o que mais os estimula durante o dia. Mas além do sonhar, certos reflexos involuntários enquanto dormem terão a ver com o sono agitado que é característico de algumas doenças.
Há pouco, na sala de espera, um cão de colo começou a ladrar para um doberman. Costuma ter aqui escaramuças?
Não. Na casa de um ou outro, isso podia dar origem a uma situação perigosa. Num terreno neutro, como é o caso da clínica, estão sempre inibidos.

Tem opinião formada sobre cães perigosos?
Tenho. O cão é um animal hierárquico. Se ele está numa família em que não reconhece um líder acima de si, ele próprio se impõe como líder. E aí invertem-se os papéis: o dono cinofiliza-se e o cão humaniza-se. E aí acontecem as desgraças. Durante mais de dez anos chefiei todo o serviço médico veterinário da GNR, em que tinha sob minha responsabilidade mais de 400 cães e 700 cavalos. E nunca tive conhecimento de qualquer problema com esses cães. Porque os tratadores eram indivíduos experientes e competentes. Por isso, diria que não há cães perigosos. O perigoso está na ponta da trela: é o dono, não é o cão.

Mas se um dono perigoso tiver um caniche, o cão nunca fará grandes danos…
O cão pequeno morde em repetição. Parece uma máquina de costura: tac-tac-tac-tac-tac. O pitbull, quando morde, o músculo mastigador, que se chama músculo masséter, fica espasmado, e nem o próprio cão, se quiser, consegue abrir a boca. Por isso é que tem de haver uns ganchos para a abrir.

Já presenciou uma situação dessas?
Graças a Deus, não.

E já foi atacado por algum animal?
Não. Por uma razão: tenho belíssimo pessoal de enfermagem. Sabemos mexer-lhes. E os animais sabem quem tem medo deles através do cheiro da adrenalina e da noradrenalina. Tal como um cavalo. Quando alguém sobe para cima dele, imediatamente o cavalo sabe se a pessoa o domina.

Há quem gaste rios de dinheiro com os seus animais?
No estrangeiro, talvez. Aqui não.

Qual é o preço de uma cirurgia das mais complexas?
Dessas não posso dizer. Posso dizer uma média. Andará nos 200-250 euros, preço final.

E poderá chegar a que valores?
Imagine uma ortopedia. Pode custar 700 euros, mas tem lá dentro 300 ou 400 euros de próteses. É caro? Não é.

Ganha-se muito dinheiro na medicina veterinária?
Esse tempo já lá vai. Hoje há excesso de locais de atendimento e os impostos são brutais. Por isso, é uma actividade que não aconselho a ninguém jovem.

Mas já foi altamente lucrativa.
Altamente. Repare: quando eu me formei, há 43 anos, Lisboa e arredores tinham oito clínicas. Hoje ultrapassam as 900. Num raio de 5 km à volta do sítio onde nos encontramos há 62 locais de atendimento. Você não encontra isso em país nenhum do mundo. Portugal tem sete faculdades de Medicina Veterinária – para toda a Grã-Bretanha, há três. A maior parte da malta que se forma monta clínicas com o dinheiro dos pais. Há gente de porta aberta a fazer uma ou duas consultas por dia. Depois entra um cão ou um gato com a unha partida e dizem que tem de ficar internado uma semana em vez de fazerem um penso e mandarem para casa. A isto chama-se exploração e prostituição profissional.

Quais os erros mais comuns que os donos dos animais cometem?
Pouca obediência e asneiras alimentares, fundamentalmente.

Havia aquele anúncio: “Restos não são uma alimentação saudável”…
Isso é um bom exemplo. Os animais não podem ser os aproveitadores do que sobra da mesa dos donos. São muito mais saudáveis a ingerir alimentos pré--confeccionados de boa marca.

Não se torna monótono comer todos os dias aquela ração?
O cão tem um belíssimo olfacto, mas não tem paladar.

Porque gostam tanto de certas guloseimas?
Porque cheiram bem. O que os desafia é o olfacto, não é o paladar.

E em termos de visão? O cão vê como nós?
Não. Todos os animais, com excepção dos primatas, são daltónicos. Um boi, nas touradas, investe na capa não é por ela ser vermelha nem às riscas. É porque mexe. Vermelho é para quem está na plateia, não é para o touro. E, com excepção do cão d’água português, todos os cães são míopes. O cão d’água foi sendo seleccionado ao longo de milénios por pescadores que ficavam com os cães que, ao longe, viam melhor barcos, terra e cardumes de peixes. Houve uma selecção darwiniana.

Alguma vez os donos de um animal o responsabilizaram por coisas que não correram bem?
Não me lembro de nenhum caso concreto, mas todas as profissões são feitas de sucesso e insucesso. Até no jornalismo, senão não havia jornalistas em tribunal.

Já o puseram em tribunal?
Não, graças a Deus não. Nem diga isso!

Qual foi o momento mais difícil da sua vida profissional?
Todos nós que fazemos clínica sabemos o que é assistir politraumatizados, situações como uma pancreatite, que pode matar em duas ou três horas. Ou uma torção de estômago, que não chega a horas. A medicina também é feita destas agruras.

O que é uma torção do estômago?
Quando um estômago fermenta um alimento ou enche demais, deixa de ter aquele formato de feijão grande para se tornar esférico. E aí pode rodar sobre o esófago e sobre o jejuno e fazer o estrangulamento da circulação do pâncreas. Se não se opera nas duas horas a seguir, não há sobrevivência.

Também pratica eutanásia?
Não é diário, nem sequer mensal. Mas não há nenhum médico veterinário no mundo que não as tenha feito. Eu não sou capaz de fazer eutanásias de animais assistidos por mim desde pequenos. Peço a quem trabalha comigo que o faça. A parte afectiva existe, tal como na medicina humana. Não há nenhum cirurgião pediátrico que consiga operar o filho. Opera pais, irmãos, mulher, mas o filho não. Ninguém corta um filho. 

E partos, também faz?
Com certeza. E cesarianas.

A natureza não se encarrega disso?
É como a medicina humana. Os filhos podem ser maiores do que o canal obstétrico. Podem vir de pés, de cabeça, de lado ou de frente, de maneiras que não conseguem sair, portanto temos de estar preparados para resolver o que a natureza não resolve.

Tem ideia de quantos animais já lhe passaram pelas mãos?
Não sei quantas dezenas de milhares.

Dezenas de milhares?!
Sim. Outro dia fiz uma estatística de quantas cirurgias teria feito na vida e, que me lembre, estejam registadas na minha base de dados, ultrapassavam as 16 mil. Cirurgias.
Não estamos a falar de consultas.
Isso não conta. Não sei quantas dezenas de milhares ou centenas de milhares, não faço ideia. 

Viveu muitos momentos gratificantes aqui no consultório?
Graças a Deus.

Diga-me um caso recente.
Uma cadela labradora que entrou em risco de vida porque já não comia nem bebia nem evacuava há quatro dias. Tinha engolido uma rolha de garrafão e a rolha estava a fazer uma obstrução intestinal. Já tinha o intestino em necrose. Foi um caso bonito. E bonito porquê? A rolha não é visível por nenhum meio de diagnóstico. O raio X não diz que ela está lá, a ecografia não diz que ela está lá, vê-se uma coisa estranha mas não se sabe o que é. Só há uma coisa a fazer, que é abrir, ir às cegas ver o que se passa. E quando se chega e se vê aquilo fica-se todo contente. Tira-se e fica resolvido.

Os cães engolem muitas coisas que não devem?
Já tirei de dentro de um cão tudo o que você possa imaginar: peças de lego, caricas, biquínis, slips, meias, molas de roupa… uma cassete de áudio. Um bocado da cassete estava preso no último dente e o resto aparecia no ânus. Esse cão demorou seis horas a ser operado. Teve de ser aberto no estômago e sete vezes no intestino, para ir tirando as fitas magnéticas aos bocados. Era um cocker e ainda hoje está vivo. Há casos lindos, não é?

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