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Caldas da Rainha. O café de esquerda onde vive o unicórnio de Júlio Pomar
Foi o local de conspiração política e terá escondido Soares

Caldas da Rainha. O café de esquerda onde vive o unicórnio de Júlio Pomar

Marta F. Reis 30/07/2015 16:47

Obra assinada pelo pintor em 1955 convive hoje com os gelados de Luísa Pião, com sabores na moda como a ginja e pêra rocha. Mas há mais história no Central das Caldas: foi local de conspiração política e terá escondido Soares.

O que faz um unicórnio desenhado por Júlio Pomar na parede de um moderno Café Central nas Caldas da Rainha? Luísa Pião, a actual proprietária do café, lembra que mal viu o painel soube que tinha uma relíquia a preservar, tal como fez com o lambrim de madeira escura e o desenho do chão, que restaurou com lioz de Vila Viçosa. 

Estávamos em 1995 e tinha regressado com o marido de Genebra, pronta a abrir um negócio. Inicialmente pensou numa agência de seguros – a área em que tinha trabalhado na Suíça. Mas o espaço no centro das Caldas e a história que foi descobrindo fê-la decidir-se por uma área nova. 

Abrem em Maio de 1996. O Café Central funcionara ali pelo menos desde o início do século e Luísa decidiu mantê-lo com esse nome, descobrindo depois que naquele local terá surgido um dos primeiros cafés das Caldas ainda no século XVIII. Nos anos 30 chamavam-lhe Café Galinha, por causa do dono Franklin Galinha, homem à frente do seu tempo que um dia colocou à porta um autofalante a gritar música e notícias.

É de uma época mais moderna, contudo, que há mais pormenores. Nos anos 50 o café passa para as mãos de uma família caldense conhecida, os Maldonado Freitas. Luísa sabe que Pomar seria amigo da família e o painel estava pronto para a inauguração da nova gerência em 1955, mas que há mais a dizer sobre a obra?

De Caxias para as Caldas Pegue-se no telefone, que a história se não for sendo contada perde-se. Júlio Pomar, de 89 anos, não conhece o café como está hoje. Lembra o painel e esteve lá antes da abertura em 1955, já que foi feito no local, mas não tornou a visitar a sua obra. “Conheci o Maldonado Freitas no Forte de Caxias”, ambos presos políticos do Estado Novo. 

A família é grande por isso precisamos de pedir ajuda à genealogia. Pomar fala de Custódio Maldonado Freitas, membro do PCP já falecido e filho do velho Custódio Maldonado Freitas, conhecido nas Caldas como “Sr. Freitas da farmácia” e pela actividade política na I República e contra Salazar. Foi este Custódio pai que comprou o café no final dos anos 40, ampliando o seu já grande património na cidade. “Eles eram uma família democrática e o Custódio (filho) era daqueles estudantes crónicos de Medicina que nunca mais acabavam o curso, não sei se ainda existe disso hoje”, sorri Júlio Pomar. Quando a família assume o café, encomendam-lhe a decoração, tão simples quanto isto. Mas porquê um unicórnio, alguma simbologia política? Longe disso, arte pura. “Não houve um motivo especial, quis fazer algo figurativo”, diz o pintor. 

Há mais história nas paredes que Luísa Pião foi restaurando ao longo dos últimos 20 anos. A família Maldonado Freitas tornou o Central das Caldas símbolo da oposição a Salazar, o que contrastava com o café Zaira, na mesma praça. “Quando chegámos ainda havia o estigma de ser um café de esquerda”. Conta-se que Mário Soares, amigo da família (terá estado preso com o pai Custódio no Aljube) chegou a esconder-se por ali e noite dentro havia tertúlias e conspirações contra o regime, intercalados com jogos de damas, xadrez e bilhar francês na cave.

E a PIDE não sabia? Um dos clientes antigos do café ajuda a juntar mais umas pontas: o velho Freitas, também pai do advogado e dirigente socialista António Maldonado Freitas (avô da mulher de António José Seguro e grande amigo de Soares, falecido em 1975) tinha, além do café, um armazém de medicamentos e várias farmácias. Até por motivos profissionais, era amigo de um Sr. Pompílio, proprietário da farmácia de Peniche. Este homem era pai do então director da prisão, o que levava a que de vez em quando o poder fechasse os olhos. 

Luísa não é muito dada à política e hoje o café não é de esquerda nem de direita. Mas é certo que continua a ser frequentado por políticos. Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite, Nuno Melo e Assunção Cristas são algumas das figuras que nos últimos tempos lá passaram. 

Os atractivos de hoje em dia estão longe de outros tempos: nos primórdios iguarias como a lagosta suada, nos tempos mais revolucionários os bifes. Luísa está a par das modas e tranformou a cave política num laboratório de gelados caseiros que aprendeu a fazer em Rimici, perto de Milão. Pêra rocha com mel de sabugueiro e ginja de Óbidos, sabores típicos da região, são os seus favoritos. 

Luísa é natural de Santarém e conta que ao início demorou a conquistar a confiança dos caldenses. Quando se divorciou e ficou sozinha a tomar do negócio sentiu ainda mais a intriga de estar numa “cidade-província”, mas também isso passou. O que tem custado a ir embora é a crise, que fechou universidades nas Caldas, levou os jovens para fora e fez disparar o IVA na restauração para lá do que é viável no negócio. “Há três anos que não temos margens, trabalhamos para pagar contas.” E o céu continua carregado. “Ainda hoje me perguntaram se vendia meia bola de gelado, como o posso fazer?” Aos 58 anos, dá-lhe alegria ser a alma da casa, que trouxe para o futuro à sua medida, e espera que alguém continue o caminho, sem esquecer o passado. Fique o contributo. Passam 60 anos e Júlio Pomar diz que não tornou a pintar unicórnios. Pode ser que ainda aconteça, mas por enquanto o único pode ser visto neste café no coração das Caldas, n.º 69 da Praça da República. 

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