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Madjer. Nascido para o Futebol de praia

Madjer. Nascido para o Futebol de praia

Jorge Garcia 29/07/2015 19:00

Muitas das estrelas que passaram pela modalidade, quando tudo começou, procuravam uma maneira de matar o bichinho e continuar a dar uns toques na bola. 

Foi assim com artistas como Zico, Romário e Cantona. Mas com Madjer foi diferente. O capitão da selecção nacional tornou-se um ídolo no mundo inteiro com uma carreira construída apenas nos areais, onde os seus pontapés acrobáticos não deixaram ninguém indiferente ao longo de quase 20 anos.

João Vítor Tavares Saraiva nasceu em Luanda a 22 de Janeiro de 1977 e apenas três meses depois veio morar para Portugal. Muito cedo criou uma empatia fora do comum com a bola de futebol, o que levou os seus amigos de infância a atribuírem-lhe a alcunha com que hoje é conhecido no país e um pouco por todo o mundo, especialmente nos areais: Madjer.

E porquê Madjer? Esta pergunta nem direito a brinde dá. Vá, se for da geração Z, aquela definição sociológica que engloba os jovens de hoje, talvez se arranje qualquer coisa. Madjer é Madjer pelas semelhanças com a estrela argelina do FC Porto das décadas de 80 e 90. Rabah Madjer foi um dos grandes jogadores da história do FC Porto, e o melhor africano em 1987. Nesse ano, Madjer tornou-se imortal com um golo de calcanhar na final da Taça dos Clubes Campeões Europeus, frente ao Bayern Munique. Não contente com isso, ainda assistiu Juary para o 2-1, dois minutos depois, num dos mais bonitos golos da história da competição. E como se não bastasse, em Dezembro desse ano ainda marcou, no prolongamento, o golo que daria ao FC Porto a conquista da Taça Intercontinental. Mas deixemos para os relvados o que a eles pertence.

O Madjer português é outra conversa, com muita areia. Para começar é do Sporting, e para finalizar nunca passou das camadas jovens no futebol de 11. Madjer começou a jogar futebol nas camadas jovens do Estoril-Praia, mas um grave acidente de moto com direito a 80 pontos na perna, quando tinha 17 anos, obrigou-o a ficar parado durante dois anos, o que dificultou o seu regresso aos relvados. Acabou por ser convidado a experimentar o futebol de praia, algo que ao princípio ainda rejeitou, por não saber sequer que a modalidade existia. Foram Carlos Xavier e Sotil que acabaram por convencê-lo, e não foi preciso muito tempo até Madjer chamar a atenção de João Barnabé, o primeiro treinador de Luís Figo no Sporting e, na altura, seleccionador nacional de futebol de praia.

O futebol de praia dava os primeiros passos e João Barnabé viu em Madjer um projecto de grande jogador. Não se enganou. Depois de hipotecar uma possível carreira no futebol, Madjer estava prestes a entrar directamente para a selecção nacional de uma variante diferente do desporto mais apreciado no país. Uma agilidade fora do comum para alguém com 1,94 metros, um remate fortíssimo, e uma incrível capacidade para fazer golos de todas as formas e feitios tornariam Madjer num dos jogadores mais temíveis dos areais.

O sucesso de Madjer com a camisola da selecção nacional foi imediato. Porttugal aproveitou a sua relação especial com a praia e tornou-se instantaneamente numa das potências da modalidade, juntamente com o Brasil. E em pouco tempo os torneios de futebol de praia foram sendo cada vez mais. Em 1994 aconteceu o primeiro Mundialito, no ano seguinte o início daquilo que seria o Campeonato do Mundo, e em 1998 a estreia da Taça e da Liga Europeia. Madjer apareceu em 1998, com o futebol de praia ainda pouco desenvolvido, e foi fundamental para a notoriedade da modalidade em Portugal e no resto do mundo.

Portugal teve grandes jogadores ao longo da sua história na modalidade, mas as estrelas maiores sempre foram Madjer e Alan Cavalcanti, o pequenino número 6, que foi recrutado no Brasil para vir representar a selecção nacional. O que distingue os dois canhotos, além do talento, é a longevidade na modalidade. Madjer com 38 anos e Alan com 40 dão espectáculo no futebol de praia desde os anos 90 até hoje. A primeira conquista da dupla chegou na Taça Europeia, em 1998, onde, sem o Brasil, Portugal apenas tinha de se preocupar com a Espanha. 

Entre muitas conquistas, Madjer, Alan e os restantes chegariam ao céu em 2001, quando, pela primeira vez, uma selecção que não o Brasil, e logo a portuguesa, venceu o Mundial de futebol de praia. Nesse ano Alan foi o melhor marcador, com 10 golos, e Hernâni o melhor jogador. A brincadeira de Madjer não aparecer destacado na lista dos melhores começou e acabou ali. Por essa altura, o sucesso dos dois jogadores era tão grande que chegaram a fazer treinos de captação em equipas de futebol 11. Madjer no Paços de Ferreira e no Vitória de Guimarães e Alan apenas na capital do móvel. E essas não seriam as últimas incursões de ambos num relvado.

Entretanto o futebol de praia cresceu e Madjer, tal como todos os outros, passou a ter uma equipa onde jogava quando não estava ao serviço da selecção. Madjer agradeceu, percorreu o mundo, e aproveitou para coleccionar troféus. Jogou muitos anos em Itália, onde foi campeão pelos Cavalieri del Mare, seguindo-se incursões pelo Brasil, Rússia,  Turquia, Dubai e de novo em Portugal, tendo vencido o campeonato em todos os lados menos no país irmão. Actualmente representa duas equipas, o Al Ahli do Dubai e o Sporting, onde também desempenha funções administrativas para o desenvolvimento da modalidade no clube.

Mas as competições de selecções não pararam e Portugal tinha em mente voltar a conquistar o Campeonato do Mundo, especialmente a partir de 2005, quando a FIFA começou a tomar conta da modalidade. No Mundial desse ano, o primeiro com as insígnias da FIFA, Portugal vinha de dois terceiros lugares, em anos em que o Brasil tinha sido campeão, sempre às custas da Espanha. Nesse ano, a Espanha acabou por cair cedo e Portugal cruzou-se com o Brasil nas meias-finais. Era uma final antecipada, em plena Copacabana, que Portugal acabaria por vencer nos pénaltis, depois de um jogo incrível em que se registou um empate a seis bolas, com Madjer a contribuir com quatro golos.

Na final Portugal defrontaria França e poucos acreditavam noutro desfecho que não o segundo título Mundial para Madjer e companhia. Mas a França estragou tudo nos pénaltis, depois de um empate a três bolas, em que Portugal não viu coroado o esforço de marcar dois golos em cima do final do encontro.

Passados seis mundiais, num espaço de oito anos, Portugal nunca mais regressou a uma final. Muitos anunciavam o fim de uma geração de ouro da modalidade, com os títulos nos restantes torneios a aparecerem cada vez menos vezes. Pelo meio, em 2013, Madjer foi operado à coluna, e correu o risco de ter de acabar a carreira. Falhou o Mundialito desse ano, pela primeira vez desde que chegou à selecção, mas acabou por recuperar e voltar em força.

NOVAMENTE CAMPEÃO
O ano de 2015 seria novamente de Mundial, pela primeira vez disputado em Portugal, em Espinho. À entrada para a competição, Madjer recordou aquela final perdida em 2005, confessando que foi um enorme revés, e que daria todos os títulos individuais pela conquista do Mundial. Estava na altura de fazer história. Portugal foi avançando na competição, mesmo com uma derrota inesperada frente ao Senegal ainda na fase de grupos. Com a modalidade mais desenvolvida, o perigo já não era apenas o Brasil, mas também a Rússia, bicampeã mundial. Os russos acabaram por eliminar os brasileiros e marcaram encontro com Portugal nas meias-finais. Portugal não tremeu e, mesmo sem nenhum golo de Madjer, venceu por 4-2. Mais uma vez Portugal estava na final, e novamente como favorita, desta feita frente ao Taiti. Não houve surpresas e Portugal venceu por 5-3, sagrando-se campeão mundial pela segunda vez. Madjer seria apenas o segundo melhor marcador da prova e o terceiro melhor jogador, mas estava mais feliz do que nunca: afinal ele dava todos os títulos individuais por voltar a levantar a taça de campeão do mundo.

Em matéria de conquistas é muito difícil superar Madjer. Com a camisola de Portugal, constam no currículo de Madjer dois mundiais, quatro ligas europeias, seis taças europeias, quatro mundialitos e ainda uma taça latina. Foi graças aos seus pés que muitas destas conquistas foram possíveis, e o currículo individual do número 7 fala por si. Nos vários torneios de selecções que já disputou, foi 15 vezes eleito melhor jogador da competição, incluindo em dois mundiais (2005 e 2006). Quanto aos golos, o seu registo é ainda melhor. Em mundiais, foi por quatro vezes o melhor marcador isolado. Seguiram-se ainda seis títulos de artilheiro em ligas europeias, quatro em taças europeias e cinco em mundialitos. Para a história ficam os seus 21 golos no Mundial de 2006, um registo quase impossível de igualar, num ano em que Portugal foi apenas quarto classificado. Desde que a FIFA apadrinhou o futebol de praia, em 2005, Madjer disputou 44 jogos e marcou 94 golos, o que o torna no melhor goleador de sempre da competição. 

O que ainda há para conquistar não depende muito de Madjer. Depois da inclusão do futebol de praia nos I Jogos Europeus, onde Portugal conquistou a medalha de bronze, ficam a faltar os Jogos Olímpicos. Ainda nada está decidido, mas sabe-se que há uma hipótese de o futebol de praia ser a modalidade teste no Rio de Janeiro, em 2016. Seria uma bonita maneira de entrar num dos eventos desportivos mais importantes do mundo, especialmente em pleno Rio de Janeiro, na cidade onde a modalidad nasceu. Nessa altura Madjer já terá 39 anos, mas para quem ainda não pensa na reforma 2016 está já ao virar da esquina. 

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