21/10/21
 
 
Ana Sá Lopes 29/07/2015
Ana Sá Lopes
Política

ana.lopes@ionline.pt

Legalizar a tortura das mulheres que querem abortar

É como pôr militantes antivacinas nos centros de saúde a darem aconselhamento psicológico aos pais das crianças.

Declaração inicial de derrota: fui ingénua quando pensei que a maioria PSD/CDS, ao propor taxas moderadoras para a interrupção voluntária da gravidez e ao chamar-lhe “acto médico”, tinha evoluído anos-luz relativamente às suas anteriores posições. Na realidade, achei que a esquerda tinha sido exagerada ao recusar as taxas moderadoras: não há, na minha opinião, nenhuma razão lógica para que o acto médico do aborto não fique sujeito às mesmas medidas que qualquer outro acto médico. Idealmente, não haveria taxas moderadoras para nenhum tratamento. Não é assim o sistema.

Infelizmente, como alguns logo suspeitaram, a ideia não era apenas cobrar impostos no acto médico. Era ceder aos sectores mais conservadores da sociedade, que gostariam que o aborto fosse proibido e que as clínicas caseiras e clandestinas continuassem a fazer a fortuna de alguns e a miséria de outros.

Não tendo coragem para chegar ao ponto da “repenalização” do aborto, a maioria PSD/CDS introduziu um mecanismo iníquo na nova lei: as mulheres que querem abortar ficam sujeitas a um “aconselhamento psicológico” que pode ser feito por médicos que sejam objectores de consciência. O que isto significa é que num dos momentos mais terríveis da vida de uma mulher, ela passará a ser sujeita não só ao seu próprio transe emocional resultante de uma tomada de decisão íntima e dura como à tortura psicológica daqueles que consideram o aborto um acto criminoso.

É como pôr militantes antivacinas nos centros de saúde a darem aconselhamento psicológico aos pais das crianças, ou os crentes que são contra as transfusões de sangue a fazerem “aconselhamento” junto dos médicos do serviço de urgências.

Passos Coelho, que defende a despenalização do aborto, esqueceu-se que esta matéria já é consensual na sociedade portuguesa. A cedência aos radicais é incompreensível do ponto de vista moral e, se o objectivo for eleitoral, é tão triste e absurdo que até faz pena.


Especiais em Destaque

×

Pesquise no i

×