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Café Central de Mirandela. Bacalhau e um favaios para começar o dia

Café Central de Mirandela. Bacalhau e um favaios para começar o dia

Marta Cerqueira 27/07/2015 18:19

Em terra de enchidos e bom vinho, um pequeno-almoço de café e pão seria um desperdício de recursos. No Central 
de Mirandela, são as pataniscas e as tacinhas de tinto a dar força para mais um dia 

Ainda mal tínhamos aquecido o lugar ao balcão do Central, já à nossa frente estava um shot de favaios. “Beba, que disto não encontra lá por Lisboa”. Encarámos o líquido alaranjado, damos um golo por simpatia, disfarçamos o impacto do álcool e fingimos que este trago não caiu directamente sobre o pequeno-almoço tomado há meia-hora. Esta é só a primeira vez que o ambiente do café nos faz ir ao relógio confirmar se são realmente dez da manhã. 
Quem, como nós, vem de fora da cidade, atravessa a ponte medieval sobre o Tua para se aproximar do centro. Existem farmácias, escolas, padarias e papelarias como em qualquer outro centro urbano, mas passam rapidamente para segundo plano face às montras vizinhas. Porta sim, porta não, as montras enchem-se de patas de presunto empilhadas, alheiras entrelaçadas, queijos e garrafões de azeite. No meio deste deleite para os sentidos, nem estranhamos que com os passos a aproximarem-se de um café, o cheiro seja a comida acabada de fazer.
Com a quinta a marcar o dia de feira, a circulação nas ruas nota-se mais agitada e dentro e fora do Central o espaço livre é pouco. Quem preferiu ficar à porta, vai intercalando um cigarro e outro com um bolinho de bacalhau numa mão e um copo de tinto na outra. Para quem teve a sorte de arranjar uma cadeira vazia no interior, a mudança está só conforto, porque os petiscos e a bebida são comuns a todas as mesas. Ou quase. Maria de Fátima conversa animada com Umbelina. A primeira veio de Valpaços ao médico, já a sua comadre veio de Murça “dar só uma voltinha”. Apesar do encontro ir já longo, à sua frente só se vêm os sacos de quem aproveitou a vinda a Mirandela para umas compras. “Ainda não pedimos nadinha e também já não vou pedir”, conta Fátima, entre risos. A assistir a tudo do balcão está Carlos, que encolhe os ombros em tom de resignação.

 Pegou no Central há seis anos, mas a sua experiência vem de uma vida dedicada à restauração e à agricultura. “Se pudesse dedicava-me só aos campos, à vinha, mas não dá”. Para já consegue conciliar os dois trabalhos, com a ajuda de uma funcionária que faz parte do serviço no café e da mulher, que antes de entrar ao serviço noutro restaurante tem tempo para encher a montra do Central. “É uma cozinheira daquelas”, diz Carlos orgulhoso, com o polegar e o indicador a apertar a orelha. A velocidade com que as pataniscas, as iscas de fígado e o bacalhau frito saem das travessas de barro para a boca dos clientes fazem deste o segundo momento em que olhamos para o relógio e confirmamos que a hora de almoço ainda está longe. Mas é de uma dessas bocas cheias que ouvimos a frase do dia. “Não há hora marcada para as coisas boas”, lança José Gonçalves, enquanto sobe para o banco livre que o eleva ao nível do balcão. Para empurrar a patanisca que traz na mão pede uma mistura que até Carlos questiona. “Mini preta e moscatel? Essa é nova”, exclama Carlos. “Aprende comigo que eu não duro sempre pá”, diz enquanto enche um só copo com a mistura das duas bebidas.

O negócio Da parte de trás do balcão vão saindo copos de bagaço, moscatel, favaios, mas é em cima da pedra de mármore que divide clientes e patrão que encontramos a principal fonte de rendimento do café. Uma cuba de alumínio personalizada com o logótipo escolhido por Carlos dita o nome do vinho que produz: Azevinho. “É o meu orgulho”, diz Carlos. Por dia vende umas 250 tacinhas. “Parece muito não é? Mas a 30 cêntimos cada uma...”, e deixa a frase no ar. Contas rápidas feitas de cabeça apontam para uns 75 euros diários com que Carlos vai “remediando”, apesar da cara feia que faz quando perguntamos pelo futuro do negócio. “Isto não fecha”, garante José, fazendo uma pausa no petisco, “mas o dia que o Sr. Carlos saia é o dia que eu saio também”. Fala das suas experiências com a autoridade de um conhecedor da restauração e lança uma pergunta, que se vislumbra retórica. “Só frequento coisas com bom ambiente ou o que é que pensa?”. Carlos ri-se, mas não abandona o ar de preocupação. Já esteve na iminência de fechar quando, para se dedicar à agricultura, entregou o Central nas mãos de “uma rapaziada” que quase o obrigaram a fechar portas. “Não vendiam nada, o café estava todo sujo, perdi muito clientes nessa altura”. Quando voltou, conseguiu levantar o negócio e, para isso, acabou com o fiado. “Quem não tem dinheiro não tem vícios”.
Talvez por já ser conhecedor das regras de Carlos, Francisco Ferreira, que desde que está desempregado, assume sem rodeios que passa o dia no Central, aproxima-se já com as moedas na mão. “Hoje é um fino” e põe em cima do balcão algumas moedas pequenas. “Olha que é um euro”, avisa Carlos. “Ui, isso é muito. Dá-me antes o habitual”. Carlos abre a torneira do Azevinho e enche mais um taça. “E para comer, nada?”, pergunta Carlos. O genérico do final do programa da manhã substitui mais um desvio de olhar para o relógio que está na parede. Agora sim, é hora de almoço mas no Central já é hora de voltar a encher as travessas.  

 

Ficha do Café Central
Ano: 1948 
Dono: Carlos Teixeira
Especialidade: Bacalhau frito de cebolada
Preço do café: 0,60 € 
Preço da imperial: 0,80 €
Clube de futebol do dono: FC Porto

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