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Ana Markl 25/07/2015
Ana Markl

opiniao@newsplex.pt

Chatices

Estava, portanto, no início dos anos 90 a estudar para ser a melhor secretária dos anos 70.

No oitavo ano, ninguém acredita, mas tive uma disciplina chamada Práticas Administrativas (e outra chamada Hortofloricultura e Criação de Animais, em que aprendi o que é uma cloaca, mas isso fica para outra crónica). As pessoas perguntam-me se frequentei alguma escola estranha, eu respondo que apenas fiz escolhas estranhas na normalíssima Escola Secundária D. Pedro V.

Nada na minha memória – nem mesmo a iogurteira ou a faca de pão eléctrica – se tornou tão obsoleto como o que aprendi naquelas malditas aulas: escrever à máquina, passar cheques ou preencher facturas fazendo bom uso dessa velha modernidade que é o papel químico. Estava, portanto, no início dos anos 90 a estudar para ser a melhor secretária dos anos 70.

Lembro-me muitas vezes do tempo que perdi a aprender Práticas Administrativas quando me vejo obrigada a crescer para perceber alguma coisa de finanças e Segurança Social. Isso sim, devia ter sido ensinado aos adolescentes dos noventas: Desenrascanço para Futuros Precários, uma disciplina que eu teria odiado – e a que provavelmente teria chumbado –, mas cujo domínio daria muito jeito a toda uma geração relutante que ignorou estas chatices durante demasiado tempo e agora se vai apercebendo de que está a ser enterrada viva.

Chamem-me mimada, mas eu tenho pânico a qualquer tipo de burocracia. É tudo demasiado nebuloso para me fazer sentir confiança nas minhas decisões. Há muita coisa que, mesmo que tivesse sido ensinada, nunca perceberia – porque, na sua génese, estou em crer que não façam grande sentido. Mas, tal como tenho pânico da burocracia, tenho ainda mais de ser enterrada viva, daí esta fantasia de me ensinarem a ser adulta na escola, em vez de me ensinarem a fazer uma circular (ou o que é uma cloaca).

Vejo demasiadas pessoas a perder a batalha do achar injusto e não querer saber e penso no banqueiro anarquista do Fernando Pessoa: é preciso termos (ou, neste caso, sabermos) para não precisarmos, para não nos sujeitarmos, para podermos desprezar. Ou, vá, no mínimo para não sermos sodomizados.

Guionista, apresentadora e porteira do futuro
Escreve à sexta e ao sábado


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