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Nazaré. Mulheres destemidas, peixeiras que lutam para virar o destino da tradição do carapau seco

Nazaré. Mulheres destemidas, peixeiras que lutam para virar o destino da tradição do carapau seco

24/07/2015 10:52

As ondas gigantes surfadas por Garrett McNamara deram fama mundial à Nazaré, atraindo hoje muitos turistas. Se aí chegam na expectativa de serem surpreendidos por uma onda gigante, a não acontecer, são surpreendidos por mulheres destemidas e garridas que mostram a sua arte, lutando destemidamente para virar o destino da tradição do carapau seco.

Uma arte visível através dos “estindartes”, chamados na Nazaré de estendale. Não são mais que rectângulos de madeira e rede, inclinados e virados para sul, onde peixe é colocado para secar ao sol. Uma tradição que começou, não se sabe exactamente quando, como forma de preservar o peixe, em tempos de maior dificuldade, garantindo que haveria comida para os dias em que os homens não podiam ir ao mar. 

Nesta tradição, ainda que seja o carapau o mais emblemático, secam-se diferentes peixes, do cação à petinga e da sardinha ao polvo. Destes, os pequenos nem precisam de ser escalados.

Despois é uma questão de técnica e saber: abrir cada peixe, tirar-lhe a tripa, escalá-lo à mão, fazendo correr o dedo junto à espinha, sempre debaixo de água corrente e, por fim, passá-lo por duas ou três salmouras. Dizem que importante, é tirar completamente o sangue, porque é este que atrai as moscas, um dos maiores perigos para a iguaria. Quanto ao tempo de exposição ao sol, um carapau seco deve ficar uns dois a três dias ao sol, dependendo das condições atmosféricas e da temperatura e pode ser comido cru e desfiado ou cozido e regado com azeite, vinagre ou sumo de limão e alho picado. O carapau a que chamam “enjoado” fica apenas um dia, ou algumas horas ao sol, passa por uma salmoura menor e é geralmente grelhado. 

Esperançosas estão as mulheres que preservam a tradição, dizem com sorriso rasgado que há sinais de futuros. A razão é que se está a reinventar o carapau seco nas cozinhas. Até já se encontram pizzas e pastéis de peixe seco à venda!

E se mais ou menos seco, certo é que o carapau seco é um dos bilhetes-postais da Nazaré, vale a pena ir à origem e ser abordado ou abordar uma das peixeiras que desde madrugada já terão corrido a pitoresca vila, primeiro a comprar o peixe na lota, depois a vendê-lo ainda fresco e por fim a abrir o restante, a passá-lo na salmoura e a pô-lo ao sol.

É o que faz, todos os dias, a D. Francelina, a tal mulher destemida e garrida que, como muitas outras, luta para virar o destino da tradição. Com as suas sete saias, sentada na sua ferrugenta e descolorara cadeira de praia, coberta com o seu “cach'né” para resguardo do vento e do sol, apregoa com tom agudo o seu carapau seco, de costas para o mar.

Também a D. Adélia que deu seu próprio nome a um estabelecimento, hoje um restaurante de referência na Nazaré, na rua da traineira, faz parte destas mulheres. Começou a vender petiscos, apenas para as gentes locais, entre eles o peixe seco, com honras ao carapau, que assado na brasa era regado com azeite e alho e guarnecido com uma bela batata cozida ou com um pedaço de broa. Ainda hoje assim é!

O estabelecimento é que mudou, as comodidades são outras, a decoração foi melhorada e adaptada aos novos tempos mas sempre a fazer lembrar as gentes, a terra e o mar. Cadeiras forradas com padrão das camisas dos pescadores e toalhas de mesa com padrão fino das camisas das peixeiras. A adornar um barquilho aqui e ali entre os vinhos da garrafeira e a lembrar Portugal um grande painel de azulejos.

E para que não se esqueçam as raízes uma parede que lembra a casa de um pescador com porta e janela em azulão vivo e frisos amarelos. Nesta, por cima da porta pode ler-se Picó, o nome de família da D. Adélia, a senhora que ainda é a alma, que ainda dita ordens mas que deixa a gestão do negócio nas mãos de filha e genro, a Vanda que é a cozinheira e o Marco que recebe os clientes.

Verdade ou não as ondas trouxeram gente à vila, a procura foi crescendo e o menu do estabelecimento da Tasca da D. Adélia também, deste fazem parte camarão cozido, percebes, petingas fritas e saladinha de polvo para abrir o apetite para outros pratos como o arroz de peixe e outros tão frescos que apenas pedem brasa, ou para uma bela caldeirada ou massada de robalo. Tudo preparado na hora e com os peixes escolhidos pelo cliente. Uns maiores outros menos mas todos de olhos bem claros e sangue na guelra, sinal de que foram pescados há poucas horas.

Entretanto, e sem conta do tempo passar, chega rápida a caldeira, com cheirinho a pimento e tomate, alho e cebola a estalar. Ainda a fumegar, certo é que vai queimar quem se apressar a provar!

E o robalo? Esse sim de comer e chorar por mais! Um modo de fazer e servir único. É assado em separado mas chega à mesa com uma tigela de caldo de massada que traz no fundo uns cotovelinhos cozidos al dente. O caldo é para partilhar e cada um retira o que quer, depois é colocar em cima o robalo assado que se afoga no prato de caldo despido de espinhas. 

Artigo escrito ao abrigo da parceria entre a Aptece com o Jornal i.

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