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A barrela

A barrela

António Galamba 23/07/2015 08:00

Falhada a unidade, chegou a altura de dar corda aos sapatos para a maioria absoluta.

António Costa tinha razão. “Se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita governou.” É o que acontece com a governação no PS. Desculpa com o passado, ajuste de contas com o passado e a instalação da doutrina de que os fins justificam todos os meios. Depois do assalto ao poder no PS, ao melhor estilo do vale tudo que a direita concretizou no governo de Portugal nos últimos quatro anos, António Costa comprometeu-se a unir o PS e a obter uma maioria absoluta. Segundo ele, António José Seguro não conseguia unir o partido e as duas vitórias do PS, autárquicas e europeias, eram “poucochinho”.

A verdade é que o secretário-geral do PS acaba de falhar o primeiro objectivo, o de unir o partido, com um sectarismo que só surpreende quem não conhece o seu percurso político. Conformaram-se com a pesca à linha e o glamour efémero dos holofotes enquanto falavam amiúde sem mandato. 

Não há unidade quando só há um cabeça-de-lista (Baixo Alentejo), quando em 2011 havia nove. Não há coesão quando mais de uma dezena de deputados e apoiantes do anterior líder foram afastados das listas de deputados, alguns deles protagonistas do combate político contra a direita entre 2011 e 2014, que, depois da derrota nas legislativas e da assinatura do Memorando, pôs o PS em condições de conquistar uma maioria absoluta.

Não há renovação quando esta consiste em limpar das listas 14 deputados eleitos que apoiaram António José Seguro, substituindo-os por indefectíveis.

Não há coesão quando se ataca a direita por querer que os seus candidatos a deputados renunciem ao mandato em caso de discordância com as lideranças ou quando se articula um discurso de apelo a que os deputados do PS exercitem a divergência e depois se faz uma triagem nas listas de candidatos para que a diversidade interna seja diminuta e não chegue ao grupo parlamentar. O PS não é uma quinta em que alguém possa pôr e dispor a seu bel-prazer. Dizer uma coisa e fazer outra foi um dos pecados capitais apontados a Pedro Passos Coelho.

Alguns convivem mal com várias dimensões da democracia, embora tenham permitido, por acção ou omissão, muito do desgaste interno e mediático ocorrido desde 2011. Nesse tempo toda a liberdade de expressão era conveniente porque desgastava quem estava no poder; agora a regra é o “falaste de mais” ou “foste longe de mais”. Apesar de o PS ser o partido fundador da democracia, instalou-se um laxismo na prática democrática que se manifesta no nervosismo com candidaturas alternativas, dentro das regras instituídas. Por muito que custe a alguns, há decisões que prefiguram o delito de opinião e um mesquinho ajuste de contas com o passado. 

Frustrado o objectivo da unidade interna, proclamada sem nexo com a realidade e com o auxílio de alguns idiotas úteis, resta ao secretário-geral António Costa a concretização da segunda grande causa do impulso de 2014: a conquista da maioria absoluta. É certo que a lista de deputados reflecte pouca confiança nos resultados eleitorais, entre a garantia de colocação de pessoal político para o que der e vier e as jogadas de alguns apoiantes do secretário geral a pensar já no pós-Costa, mas, apesar das sondagens de circunstância, António Costa só pode cumprir o desígnio a que se predestinou: conduzir o PS a uma vitória nas legislativas com maioria absoluta. Afinal é o que conta para o PS e para o país. O resto serão episódios da barrela interna de António Costa. O problema é que a liberdade de expressão não é negociável e as convicções são como as nódoas do bolor. Mesmo ocultas, existem e nunca deixam de voltar.

Os apaniguados continuarão a lutar pelas suas verdades. Falhada a unidade, é tempo de dar corda aos sapatos para a maioria absoluta. Quanto há liberdade de expressão, habituem-se.

A primeira vez da maioria de Passos e Portas foi fazer o contrário do que prometeu em campanha: cortar nos salários dos portugueses. A última vez foi somar aos retrocessos económicos e sociais dos últimos quatro anos, um recuo civilizacional com a imposição de acompanhamento social e psicológico obrigatório na interrupção voluntária da gravidez.

Escreve à quinta-feira

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