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“El Chapo”. Quando o fora-da-lei impõe a sua
Guzmán cresceu no seio de uma família de agricultores pobres

“El Chapo”. Quando o fora-da-lei impõe a sua

Guzmán cresceu no seio de uma família de agricultores pobres Diogo Vaz Pinto 20/07/2015 21:57

Os cartéis de droga mexicanos são hoje multinacionais que não operam apenas à margem da lei, mas acima dela. Levaram o crime para o século XXI e estão mais próximos na sua organização da Al-Qaeda que da Cosa Nostra. No centro desta evolução está Joaquín Guzmán. Com o pragmatismo de um administrador de empresas, reescreveu o manual dos traficantes de droga e, depois de se ter evadido pela segunda vez de uma prisão de máxima segurança, é novamente o criminoso mais procurado do mundo.

Jesse James, John Dillinger, Al Capone, Pablo Escobar... O crime tem a sua própria galeria de heróis, mais ou menos infames, mitos e lendas que seguem vivas no folclore de um povo. São muitas vezes os persistentes ícones da sua intrepidez, encarnando os secretos anseios de tantas vidas prostradas ao trabalho e demais virtudes sociais, vidas honestas que, quando ninguém está a olhar, chegam a sentir nas mãos o peso de uma pistola fumegante e esse fumo a desenhar um enorme ponto de interrogação – um “e se” que abre espaço às nossas mais perversas fantasias. A vida em toda a sua vertigem, desesperadamente livre, ainda que reduzida a um instante de vingança imaginária sobre as nossas frustrações.

No retrato de cada era têm destaque não os homens de grande sucesso, mas os grandes fora-da-lei. O que é um Rockefeller ou um Ford no imaginário popular ao lado de um Billy the Kid? Nos dias que correm, quando a desconfiança face ao poder volta a ser mais que muita, é curioso como a fronteira entre os homens de poder, tantas vezes corruptos, e os criminosos volta a parecer muito ténue. Isto só ajuda a que os criminosos “honestos” surjam a uma luz mais favorável. É o que se passa com a grande figura do crime dos nossos dias: “El Chapo”. A menos que deixemos o mito de lado e observemos à luz crua dos factos aquele que é o mais poderoso e perigoso narcotraficante de sempre.

A dimensão da lenda que se gerou em torno de Joaquín Guzmán Loera ganhou novas proporções ao saber-se como, no fim-de-semana passado, escapou da prisão mais segura do México através de um túnel que se estendia por quilómetro e meio, uma proeza tremenda do cartel que lidera, o Sinaloa, e que não vem apenas deitar por terra mas enterrar as ilusões de que o governo do presidente Enrique Peña Nieto estava a ganhar terreno na longa e sangrenta guerra contra o narcotráfico.

Não foi sequer a primeira vez que o homem que deve o seu nome de guerra (o baixinho) ao seu metro e meio – 1,55, para sermos precisos – escapou de uma prisão de máxima segurança. Fê-lo pela primeira vez em 2001, da cadeia de Puente Grande, e como agora de novo se suspeita, contou então com a colaboração dos guardas. Mas dessa vez fê-lo de uma forma mais convencional, menos aparatosa: escondido dentro de um carrinho de lavandaria, escapou à vigilância e saiu da prisão vestido de guarda. Desta vez saiu pelo próprio pé através de um túnel com ventilação e iluminação que, naturalmente, não foi construído da noite para o dia. Foi um trabalho de meses, resultado de um detalhado plano que não permitia margem para surpresas. 

A humilhação para as autoridades, desta vez, é total. A prisão de Altiplano, nas imediações da capital (Cidade do México), é provavelmente o destino com a melhor colecção de líderes do crime desta geração. Uma antecâmara do inferno onde se concentram os responsáveis por um estilo de criminalidade empresarial que tem cada vez menos em comum com as clássicas organizações mafiosas do século passado e mais se assemelha a redes terroristas de estrutura difusa, como a Al-Qaeda. Com uma diferença: estão muito mais integrados nos países em que actuam e nas suas administrações, o que faz com que os inimigos dos cartéis tenham todas as razões para alimentar as piores paranóias. Nas celas de Altiplano estão vários líderes do Sinaloa, mas também altas patentes do Tijuana, do Golfo ou dos terríveis Los Zetas.

3,5 MILHÕES DE EUROS DE RECOMPENSA
Desta vez, Guzmán não teve de esperar muito para se pôr ao fresco. Pouco mais de um ano se passou desde que a sua captura foi alardeada pelo governo como uma vitória cheia de simbolismo. Foi considerado o maior golpe infligido ao narcotráfico em dez anos. Basta dizer que, após a captura de Osama bin Laden, foi o baixinho quem subiu ao topo da lista dos criminosos mais procurados do mundo. A recompensa para quem tiver cojones para denunciá-lo são agora 3,5 milhões de euros; a dificuldade maior será ter, depois, disposição e um corpo intacto para gozar essa fortuna.

“El Chapo” fugiu da prisão que conta com a maior e melhor colecção de criminosos desta geração 

Uma lição que aprendemos esta semana com Donald Trump, o multibilionário que se candidatou à nomeação republicana para as presidenciais norte-americanas a enxovalhar os imigrantes mexicanos, é que o dinheiro e a fama podem dar a alguns homens a sensação de que são deuses neste mundo, mas só até se meterem no caminho de um verdadeiro senhor do submundo. Ora, Trump foi a correr para o Twitter para dizer que já tinha avisado que aquilo iria acontecer [a fuga do barão da droga] e que “El Chapo” e os cartéis estão a usar a fronteira norte-americana como um aspirador, “sugando drogas e morte para os EUA”.

O patrão das celebridades estava a crescer, como é seu hábito, a fazer-se de duro, questionando se passava pela cabeça a alguém que os seus rivais na corrida à Casa Branca, Hillary Clinton ou Jeb Bush, teriam estofo para negociar com o maior narcotraficante do mundo. No luxo sublimado de uma das suas torres, por um minuto Trump ter-se-á sentido intocável, indo ao ponto de escrever um tweet a desafiar “El Chapo” para um “mano a mano”. Foi então que uma conta associada a Guzmán deixou claro que o rei dos reality shows americano vai engolir cada uma das suas palavras. Um banho de realidade depois, Trump achou prudente comunicar a ameaça ao FBI.

Para a agência norte-americana que combate o narcotráfico, a DEA (acrónimo de Drug Enforcement Administration), não há dúvida de que, à frente do Sinaloa, “El Chapo” ultrapassou o grande barão colombiano da droga na década de 1980, Pablo Escobar, não só na escala da sua operação como até a nível de notoriedade.

Segundo apurou o Departamento do Tesouro, a organização controla uma rede de 288 empresas com milhares de funcionários em dez países, tendo estendido os seus tentáculos à Europa e à Ásia, com as ordens de Guzmán a serem seguidas por um exército de assassinos que não só é uma ameaça ao Estado mexicano como conseguiu infiltrar-se em toda a sua linha. Ele é directamente responsável pela morte de milhares de pessoas e, indirectamente, de dezenas de milhares. O seu alcance e influência são de tal modo evidentes que, desde 2009, “El Chapo” comparece na lista da “Forbes” dos homens mais poderosos do mundo.

Os especialistas calculam que os lucros anuais do Sinaloa excedam os 3 mil milhões de dólares, sendo o grupo responsável por, pelo menos, um quarto de todas as drogas que entram ilegalmente nos EUA a partir do México. Nas ruas de Chicago (onde centra a sua operação do outro lado da fronteira), estima-se que 80% do tráfico seja controlado pelo cartel – o que levou a cidade, em Fevereiro, a dar o título de “inimigo público número um” a “El Chapo”, título que ficou vago desde os tempos em que Al Capone fez da cidade o seu reino. Quanto à sua fortuna pessoal, a “Forbes” estimou-a em cerca de mil milhões de dólares.

Aos 58 anos, diz-se que Guzmán tem mais pessoas nos seus bolsos do qualquer outro criminoso. A simpatia do mundo tem um preço, e El Chapo nunca se fez rogado na hora de o pagar. As autoridades mexicanas recusaram-se a extraditá-lo para os EUA – onde enfrenta acusações em pelo menos sete tribunais federais –, referindo que se tratava de uma questão de orgulho, de “soberania nacional”. Mas alguns especialistas têm lembrado que um dos receios de que “El Chapo” fosse interrogado em solo norte-americano era virem a público os podres de vários altos funcionários mexicanos. 

Guzmán assumiu um tal prestígio que, para boa parte da população, não provoca apenas temor, mas também admiração. O estado de Sinaloa, onde o cartel tem origem e foi buscar o nome, é bastante pobre e o seu anterior governador, Juan Millán, estimou a certa altura que 62% da sua economia esteja ligada aos narcodólares. É ao cartel que as pessoas recorrem em situações de desespero.

“El Chapo” e os outros barões da droga investem uma parte significativa dos seus lucros na compra de negócios legítimos, desde restaurantes a centros de dia, unidades industriais ou estádios de futebol. É natural, por isso, que existam músicas em honra de Guzmán, narrando os seus feitos, abrilhantando o mito do homem que se preocupa com o povo, que desafia as autoridades corruptas e faz mais que elas pelo bem da comunidade. Goza a glória de um Robim dos Bosques moderno e uma tal lealdade que, das inúmeras vezes em que as autoridades estiveram prestes a caçá-lo ao longo dos 13 anos que esteve fugido, houve sempre quem o informasse, o que lhe permitia levar a sua vida com relativa descontracção.

VIAGRA COMO REBUÇADOS
Com origens humildes, crescendo no seio de uma família de agricultores pobres que tiravam um extra plantando e vendendo drogas, Guzmán deve à sua astúcia e sentido prático o império que ergueu e estruturou de uma forma celular, com grande autonomia – uma complexa rede que se distribui e opera de forma similar à Al-Qaeda.

Com os anos, aprendeu a cultivar gostos refinados, sendo um fã de cozinha ultra-sofisticada e um mulherengo que se casou três vezes, manteve inúmeras amantes e nunca deixou de torrar fortunas por noites com acompanhantes de luxo. O seu apetite sexual é um dos pontos fortes da lenda, tendo um agente da DEA chegado a referir-se ao seu prodigioso consumo de Viagra, garantindo que tomava os comprimidos azuis como se fossem rebuçados.

Foi descrito como o maior barão da droga de sempre e a agência norte-americana que combate o narcotráfico diz que “El Chapo” lidera hoje uma organização criminosa com maior influência e alcance que a chefiada por Pablo Escobar

Mais que um homem com um plano, o que parece fazer dele um dos grandes génios do crime está em linha com a sua abordagem hedonista da vida. É reveladora a forma como os oito anos que passou atrás das grades – entre 1993 e 2001, na prisão de Puente Grande, no estado de Jalisco – foram decisivos para a construção não só do império como da sua reputação. “El Chapo” tinha todo o pessoal da prisão, incluindo o próprio director, na sua folha de pagamentos.

Desfrutou ali de uma vida de relativo luxo, conduzindo os seus negócios através do telemóvel, e com direito a visitas regulares de prostitutas. Chegou a organizar festas em que os prisioneiros que caíam nas suas graças tinham acesso a álcool, lagosta e filet mignon. No fim, a teia de corrupção que montou a partir da prisão era de tal modo vasta que não lhe foi difícil deixar a meio a pena de 20 anos a que fora condenado.

Mas tentemos perceber o que fez Guzmán distinguir-se e revolucionar o modelo de operação do tráfico de droga, aquilo que lhe valeu a designação de CEO (director-executivo) do crime organizado. Há uma lógica empresarial na sua abordagem. Nos primeiros tempos, ainda antes da temporada que passou em Puente Grande, o seu talento revelou-se na forma como fez evoluir as práticas através de tácticas criativas, dando passos imaginativos que viriam a ser copiados e a definir a actual dinâmica dos cartéis.

Não devia ser tão grande motivo de surpresa que desta vez tenha usado um túnel para fugir da prisão. Os túneis que atravessam a fronteira entre o México e os EUA tornaram-se o grande pilar do tráfico de drogas. Todos os anos as autoridades descobrem uma série deles – em tudo semelhantes ao que foi aberto entre um edifício em construção e a zona dos chuveiros de Altiplano, por onde Guzmán desapareceu. Túneis com mais de um quilómetro de comprimento, com ar condicionado, electricidade, sofisticados sistemas de drenagem, trilhos para que as pesadas cargas do contrabando sejam transportadas em carrinhos... Quem é o responsável por esta inovação? O baixinho, pois claro.

Guzmán cresceu no seio de uma família de agricultores pobres que vendiam droga para sobreviver

Há um quarto de século foi ele quem se lembrou de chamar um arquitecto, Felipe de Jesús Corona--Verbera, e pedir-lhe que projectasse uma mercearia que servisse de fachada, um pequeno e insuspeito negócio ligado por um túnel a um zoológico privado, em Guadalajara, onde Guzmán tinha a sua colecção de tigres, crocodilos e ursos. Ali estava um empresário com um bom produto, uma procura que não parava de crescer e uma rede de produção e distribuição que ia do Afeganistão à Austrália.

O negócio ia de vento em popa e o dinheiro era tanto que se tornara em si mesmo um problema, sendo necessário construir locais só para o manter em segurança, junto com as armas e as drogas. Foi assim que Corona-Verbera ficou encarregado de projectar todo um parque secreto em que casas e estabelecimentos comerciais tinham passagens secretas e túneis subterrâneos que levavam a esconderijos. O que já era uma boa ideia iluminou na cabeça de Guzmán um objectivo ainda mais ambicioso. O grande obstáculo no caminho dos traficantes sempre foi a fronteira.

Como disse Alberto Caeiro, um homem não tem de ficar reduzido à sua altura, mas pode ser do tamanho daquilo que a sua visão alcança. Guzmán não se ficou pelo seu metro e meio e, desde que pôs a sua visão no terreno, pelo menos 90 túneis fronteiriços foram atribuídos só ao seu cartel.

Mas no fim, aquilo que faz com que o carisma do fora-da-lei não se aplique a “El Chapo” é o facto de ele se ter tornado tão poderoso que já não se limita a desafiar as autoridades. São estas que parecem um desafio ao seu poder. Podemos achar graça quando é Trump que ele manda calar e cala, mas o perigo de uma multinacional mafiosa é que este mundo está já em maus lençóis devido à ganância legal que o explora e empobrece, não precisa que com ela concorra agora uma ganância que fez da tortura e do assassinato algo tão banal que mais parece a sua forma de burocracia. 

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