11/4/21
 
 
Mário Cordeiro. "Os pais têm medo de educar e traumatizar"
“As crianças precisam de sentir que há alguém que sabe pilotar o barco se houver tempestade”

Mário Cordeiro. "Os pais têm medo de educar e traumatizar"

“As crianças precisam de sentir que há alguém que sabe pilotar o barco se houver tempestade” Ana Brígida Marta F. Reis e Vítor Rainho 18/07/2015 13:18

A segunda parte de uma conversa de Verão entre o pediatra e o i.

Essa desumanização da medicina resulta de quê? De as notas pesarem mais na entrada para o curso do que a vocação?

Serão vários motivos. Um é esse: alguns vão para Medicina pela nota e depois 10% desistem – era o que eu via na Faculdade de Ciências Médicas e com pena, pois, se calhar, tinham tirado a vaga a outros com vocação. Mas acho também que o ensino da Medicina continua muito centrado na doença. Aliás, começa nisto de falar das pessoas que vão ao médico como doentes mesmo quando estão óptimas de saúde. É totalmente errado. Pode estar-se doente mas não se deixa de ser pessoa.

O que propõe?
Utente, paciente, a pessoa, cliente. Não sei, há tantos termos... Seria preciso inventar algum. Chamar doente expressa já uma relação de poder, de superioridade. A medicina continua muito arrogante nesse sentido. Sem emitir juízos de valor, eis o que se passa: um animal doente, neste caso em particular um ser humano ainda para mais capaz de racionalizar, sente-se mal. De imediato surge o medo da morte. É só um espirro, mas o Zé também espirrou e era um cancro. Depois, passa a possibilidade de se arranjar sozinho. Já tomou a aspirina e não resultou e os amigos também não ajudaram. É aí que, com um grande ponto de interrogação por cima da cabeça, se vai procurar o médico.

E é um confronto?
Nesse momento já está a jogar fora de casa, no campo do adversário. Chega-se lá e encontra pessoas completamente à vontade, que usam bata branca e outras coisas assim, quase a dar um ar de seres imaculados, de anjos salvadores. Que por vezes tratam com displicência e que sabem coisas que o próprio não sabe. E informação é poder. E depois há outro factor...

O suspense?
Sim, olhar para radiografia ou exame dizer “humm... tem aqui uns valores fora do normal, mas pode ser uma variante.” Instala-se a dúvida e o ser humano dá-se muito mal com as situações ambíguas: quer o sim ou sopas. Mas há mais pormenores nos hospitais que reforçam essa relação desigual. Porque é que as luzes são brancas? As luzes brancas amedrontam quem está deitado a olhar para elas.

Não é para os médicos verem melhor?
Quando isso é preciso mete-se um foco maior e geralmente até é amarelo. A luz branca não faz sentido. Justifica-se num quartel de bombeiros pelo estado de alerta em que têm de estar. Agora numa situação de doença, a restituição de cor é fundamental para a pessoa se sentir bem e aquela luz branca do hospital faz a pessoa sentir-se mais verde. O doente que já está anémico e a sentir-se mal ainda se sente pior, mais cadavérico. Depois está deitado, que é uma posição de fraqueza. Qualquer animal de pé tem superioridade. Se o Mike Tyson estiver deitado o primeiro murro é meu, mesmo que seja só o primeiro. Mas a despersonalização nos hospitais chega a pontos inadmissíveis.

O que o incomoda mais?
Tira-se o nome à pessoa, é o doente da cama 53. E não é o doente Há o reforço da situação de acamado. A cama é que é a entidade, quem lá está é indiferente – hoje é o Manuel, amanhã o José. E finalmente há o retirar dos pertences e da roupa para se usar as batas hospitalares, que geralmente até são ridículas. Uma pessoa até fica meio exposta. É uma atitude de despersonalização exactamente igual ao que se faz em Guantánamo, nos campos de concentração ou o Estado Islâmico com as fardas cor de laranja. 

Mas é propositado para reforçar essa relação desigual?
É um hábito em já devíamos ter evoluído. Mal a pessoa entra tira os brincos e o relógio. Porquê? Não interessa se os brincos valem milhões ou não. Se a pessoa os usa e leva terão um significado. Acho esta despersonalização terrível, sobretudo quando os estudos até dizem que a roupa hospitalar tem muito mais bactérias patogénicas e multirresistentes do que a nossa.

É visto como um alien por ter estas opiniões?
Se calhar. Já comprei algumas guerras, mas não me inibo de dizer aquilo que penso. Podem demonstrar-me que estou errado, mas até lá acredito que há um juramento por parte dos médicos que passa por defender as pessoas e não cultivar um lugar de poder e aquela coisa um bocado medieval de que somos uns alquimistas. É chegar ao ponto de, como alguém afirmou, dizer que a diferença entre Deus e os médicos é que Deus não é médico. Para mim, somos apenas uns profissionais que aprendem umas coisas sobre uma máquina e desconhecemos outras. Não somos delegados de Deus na Terra.

O que tem de mudar?
Tem de haver um exercício de humildade – e é preciso dizer que muitos já o fazem – e ver a medicina como negociação. Um médico que tem uma ruptura de um cano em casa, chama o canalizador e pergunta qual é o problema, quanto custa, qual é a solução e o canalizador não responde “esteja quieto enquanto eu tomo conta disto”. Se isso acontece, o médico chama outra empresa. Tem de haver a obrigação de explicar o que vai fazer, porquê e quais são os efeitos secundários. Não é por acaso que muitas vezes um doente hospitalizado sente mais proximidade com os auxiliares de limpeza e com os enfermeiros do que com os médicos.

A tecnologia agravou esta desconsideração?
Acho que a Medicina tem vindo a perder com o aumento das ferramentas. Os médicos ainda não perceberam que a tecnologia devia fazê-los mais humanos e não transformá-los em robôs. Estou agora a rever um livro que fiz com biografias de médicos, desde o Imhotep no Antigo Egipto a Carlos Paião. No fundo são pessoas que foram mais do que médicos e têm em comum essa atitude de dedicação aos outros além do rigor e interesse científico. O meu avô também tem uma história incrível: uma vez numa dessas escaramuças com as tropas de Paiva Couceiro ouviu um raspanete do chefe que lhe disse que ele era médico e por isso tinha de ficar na retaguarda. Ele respondeu: precisamente por ser médico tenho de estar na linha da frente. Ainda levou com um processo mas o ministro da guerra da altura viria a transformá-lo num louvor.

Os pais devem assistir aos partos?
Costumo dizer que não devem assistir, pois devem participar.

Isso não se tornou também quase uma obrigação?
Acho que faz sentido vivenciarem esse momento, no sentido de serem tão progenitores como a progenitora. Tento desmistificar um pouco, por exemplo, o receio de que vão ver sangue e cair para o lado. Não vão ver sangue algum. Vão sentir a transcendência do nascimento.

Mas não há casais que perdem o desejo sexual por causa disso?
Sim, mas isso é porque se assiste do lado errado. Isso, as câmaras a registar tudo e as selfies dá-me um bocado urticária. O que se passa do lado de lá do pano, nos bastidores, compete à equipa médica. Mesmo isso de cortar o cordão umbilical acho um pouco esdrúxulo, mas quem quiser que corte. O que acho importante é partilhar aquele momento de choro, que não é bem choro, mas uma explosão de vida.
 
Esteve presente no nascimento dos seus cinco filhos?
Sim e emocionei-me de igual forma em todos. No quarto e quinto, gémeos, foi como se fosse o primeiro. Não consigo arranjar adjectivos.

Foram os momentos mais emocionantes da sua vida?
É difícil comparar momentos. Há várias latitudes de sentimentos. É como perguntar-me qual foi o melhor livro ou o melhor filme. Mas definitivamente foram momentos transcendentes. A morte dos nossos pais e o nascimento dos nossos filhos são talvez os momentos em que nos sentimos mais no centro do epifenómeno que é a vida, que ao mesmo tempo sabemos cada vez menos o que é.

Como se consegue distanciar de uma criança que está a sofrer muito e acaba por morrer?
Sofre-se muito mas temos de ter consciência em que há situações em que não conseguimos fazer nada. Quando comecei 90% das crianças com leucemia morriam e hoje 90% curam-se, isto em 30 anos. A medicina avança com passos de gigante mas ainda há casos incuráveis em que o médico pode fazer muito pouco.

Estas situações vão com o médico para casa? 
Claro. Como não trabalho há muitos anos no hospital, não tenho muitos casos desses. Agora acho que uma pessoa nunca se habitua... Fica sempre a dúvida: será que poderia ter feito alguma coisa? E foi isso se calhar que me fez entrar pelos caminhos da prevenção, pensar se poderia ter feito alguma coisa para evitar ter ali aquela criança politraumatizada.

Disse que os pais sabem mais, não são também mais stressados?
Têm mais informação – o doutor Google sabe tudo – mas também stressam mais. Não é necessariamente mau, pois mostra preocupação em relação aos filhos. Mas noto que os pais hoje se sentem também muito culpabilizados por trabalharem, sem razão porque sempre trabalharam. A grande questão era não ser contínuo: trabalhavam mas estavam por ali. Hoje uma mãe sai de casa e está não sei quantas horas ausente. Feitas as contas, as horas de trabalho até podem ser as mesmas, mas é uma organização da vida diferente e isso faz com que as mães sintam que abandonam os filhos, o que é mentira.

Como se resolve?
Entendendo que desde o corte do cordão umbilical se inicia uma relação de autonomização. Que não é independência, mas interdependência. Ser mãe é uma das peças da vida da mulher, uma naturalmente importante, mas não é a única peça. Uma coisa para a qual incentivo muito os pais é para não ficarem claustrofóbicos em relação às crianças. Têm de ter vida conjugal, saírem para jantar, ir ao cinema, terem vida própria.

Vai fazer 60 anos. Tem energia para três filhos ainda relativamente pequenos?
Os gémeos fazem 12, o outro a seguir tem 13. Acho que sim. Tentamos educá-los para terem responsabilidade e serem autónomos. 

Fez algum ajuste em relação aos primeiros filhos?
Quando tive o primeiro tinha 23 anos, com estes tinha 46 e 48. No essencial acho que não mudei muito. A minha vida mudou, claro. No primeiro estava a começar a carreira e nestes não digo que vou no fim, mas está mais adiantada. Mas em relação às tecnologias e tudo isso, a política tem sido semelhante. E gosto de ver o meu filho mais velho que tem três filhas, e a minha filha, com dois, seguirem um modelo educativo com muitas semelhanças ao que usei com eles. Isso dá-me alguma satisfação.

Ler Mais


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×