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Rui Miguel Tovar 17/07/2015
Rui Miguel Tovar
Desporto

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@ruimtovar

Qual é o clube de Omar Shariff: Al Ahly ou Zamalek?

Uma semana no Cairo e não se vê uma escola de condução. Desconhece-se até a existência de aulas de código. Há 16 milhões de habitantes e 10 milhões de carros. Desses, 2 milhões são táxis. 

Não há nada tão difícil no Cairo como atravessar a rua. Diz--me Manuel José, o maior de todos. “Atravessar a rua no Cairo é das actividades mais perigosas que há. Uma vez, um canal televisivo convidou-me para ir a um programa e lá fui. Cheguei dez minutos antes da hora, ao outro lado da rua. Acredita que estive dez minutos sem conseguir passar para o lado de lá? A televisão telefonou-me e justifiquei-me. Passados uns minutos chegou um polícia sinaleiro, requisitado pelo canal televisivo, que mandou parar os carros, e enfim pude entrar no edifício e ser entrevistado.”

Pois... Estamos na capital de um dos mais ocidentalizados países islâmicos. Nas avenidas largas do Cairo é cada um por si e não há outra lei que não a da selva. À hora de chegada, já de madrugada, está escuro como breu e só a espectacular luminosidade dos elegantes palácios e das trabalhadas mesquitas serve como ponto de referência. De manhã a história é outra, mais intensa, barulhenta, mas igualmente bela. Intrigante. E desastrosa.

Uma semana no Cairo e não se vê uma escola de condução. Desconhece-se até a existência de aulas de código. Há 16 milhões de habitantes e 10 milhões de carros. Desses, 2 milhões são táxis. Nenhum deles respeita o que quer que seja. É o típico deixa andar. Diz-se do Cairo, a título anedótico, que as intermináveis buzinas são uma espécie de terceira língua, que os condutores estão preparados para qualquer circuito de F1 e que um peão é até capaz de se esquivar de tiros de snipers.

Aí está o Cairo. Fascinante. Apaixonante. Excitante. Em todas as ruas há uma preciosidade a céu aberto. Seja de dia seja à noite. Como o rio Nilo. Majestoso, enorme, a serpentear por toda a cidade com uma elegância principesca. Depois o Museu de História. Enorme, majestoso, a serpentear por 89 salas em dois andares e uma colecção de 136 mil antiguidades. Quando se sai de lá, até parece que nos desembrulham de um sarcófago. Estamos zonzos com tanta história. Vamos às pirâmides de Giza? Siiiiim.

Ou então não. Os egípcios não sabem dizer “não sei”. São duas palavras muito complicadas. Diríamos mesmo que não entram no dicionário deles. Ah e tal, daqui às pirâmides é longe ou muito longe? Perguntamos a cinco pessoas, temos cinco respostas. Estamos mais confusos do que quando saímos do sarcófago. É uma situação usual por aqui. A não ser...

A não ser que aterre no bairro Zamalek, o mais chique de todos, onde moram Manuel José e Omar Sharif, e caia na tentação de perguntar qual o clube do Dr. Jivago. Aí é diferente. Se perguntar a cinco pessoas, tenho duas respostas. A dez, as mesmas duas. A 20, sempre duas. Só há mesmo duas hipóteses: Al Ahly ou Zamalek. E o curioso é que ninguém me sabe dizer. Agora (dez anos depois) muito menos. O homem morre aos 83 anos, de Alzheimer.

Para trás, um espantoso registo como actor galardoado e uma série de viagens ao Hotel Estoril-Sol para jogar brídege à séria. Pois é, a partir de 10 de Julho (o dia da sua morte), o que há de mais difícil no Cairo é descobrir qual é o clube de Omar Sharif.

Editor de desporto
Escreve à sexta e ao sábado

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