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João Lemos Esteves 14/07/2015
João Lemos Esteves

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Tsipras: o confronto com a verdade

Os líderes políticos da União Europeia têm o dever de seguir uma política de rigor e de verdade. Verdade para com os cidadãos. Só assim poderá a união entre os povos europeus ser uma realidade.

1. A União Europeia confronta-se actualmente com a ameaça mais pungente à sua solidez, e mesmo à sua sobrevivência, desde a sua criação: o risco iminente de insolvência da Grécia, na sequência da inflexibilidade do governo do Syriza nas negociações com os seus parceiros europeus. 

Não deixa de constituir uma ironia a União Europeia estar em risco devido a problemas suscitados, não pela união política ou económica, mas sim pela união monetária: é a instabilidade provocada pela saída da Grécia da zona euro que poderá ditar a derrocada do projecto político de união entre os estados da Europa.
Os líderes políticos da União Europeia têm o dever de seguir uma política de rigor e de verdade. Verdade para com os cidadãos. Só assim poderá a união entre os povos europeus ser uma realidade. Não a política da ilusão e da mentira. 

2. Expoente máximo da mentira e da ilusão política – para não dizer mesmo da cegueira e da loucura ideológica – é o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, e o seu governo de extrema-esquerda. As proporções que a crise financeira e social na Grécia tomou são em grande medida fruto de um governo que descura o interesse do povo grego e exclui qualquer programa de acção político razoável para que os idosos, as crianças, os jovens e os trabalhadores gregos possam viver melhor.

3. O que quer afinal Alexis Tsipras? Apenas uma coisa: criar condições para que o seu partido de extrema-esquerda se mantenha no poder por muito tempo. Tsipras não quer converter a Grécia num estado equilibrado e sustentável – prefere que seja um estado falhado, em que o caos impere, para sorrateiramente ir colocando os seus camaradas de partido na máquina do Estado. Tsipras quer chantagear os seus parceiros europeus invocando factos históricos e o seu amor ideológico pelo presidente russo, Vladimir Putin, para mostrar que quem manda é o Syriza. Tsipras quer acabar com a democracia liberal – e reerguer, em pleno espaço geopolítico da União Europeia, uma “democracia popular”. 

4. Como é possível Merkel, Hollande e os outros líderes políticos europeus não desmascararem Tsipras e o Syriza? Porque falta coragem política e convicções, as quais foram substituídas por cenários macroeconómicos. A discussão vai muito além das finanças gregas: é preciso denunciar o projecto de poder absoluto do Syriza. Coragem, felizmente, não faltou ao eurodeputado Guy Verhofstadt: este, num discurso brilhante, incisivo e esclarecedor, fez o retrato perfeito do que tem sido o governo do Syriza. 

O Syriza fala de acordo e reformas – mas ainda não apresentou nenhuma proposta concreta de racionalização do Estado; o Syriza critica o clientelismo do PASOK, mas afinal nomeou 13 directores do Ministério da Educação, 12 dos quais militantes do Syriza. Tsipras tem a lição marxista (ou neomarxista) bem estudada: o primeiro passo para a perpetuação no poder é partidarizar a administração pública. 

Só Guy Verhofstadt formulou com verdade o dilema da Grécia de Tsipras: ou ficar mais pobre, enredando-se definitivamente na miséria, ou proceder às reformas estruturais necessárias para assegurar a manutenção do Estado. Tsipras tem negociado, gritado, insultado, vendendo a imagem de que é um Che Guevara europeu. Infelizmente para o povo grego, Tsipras só é incapaz de governar. Aquela singela e tão importante tarefa para a qual foi eleito. 

5. O discurso de Verhofstadt merece ser ouvido e ouvido, e ouvido outra vez, para se perceber o destino trágico de Tsipras. A comunicação social entendeu por bem esconder – mostrando uns parcos 30 segundos – a intervenção do belga Guy Verhofstadt, preferindo dar largos minutos à irrelevância chamada Alexis Tsipras e às suas utopias socialistas. Porque será?

* As opiniões veiculadas são da responsabilidade do autor.

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