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Ana Markl 11/07/2015
Ana Markl

opiniao@newsplex.pt

Casamento

Quando João César das Neves escreve sobre casamento homossexual lembra-me aqueles putos que quando perdem um jogo ficam amuados a tentar inventar regras que provem a injustiça da sua derrota. Escreveu ele depois de o casamento homossexual ser legalizado em todos os estados norte-americanos: “Antes todos os cidadãos estavam na mesma circunstância perante a lei, pois nenhum, homossexual ou heterossexual, podia casar com alguém do mesmo sexo; agora qualquer cidadão, heterossexual ou homossexual, o pode fazer.” Que retórica enternecedora. Estou morta para que se celebre o primeiro casamento entre um heterossexual e uma pessoa do mesmo sexo.

Eu, por exemplo, não tenciono casar-me com ninguém, nem do mesmo sexo nem do sexo oposto. Mas só me dou ao luxo de dizer que não quero porque posso mudar de ideias. Posso, de repente, querer celebrar o amor ou simplesmente desfrutar do estatuto legal. Podemos todos. Mas, se João César das Neves mandasse nisto tudo, a cidadã Ana Markl não poderia casar porque o objectivo que a move a cada relacionamento é amar profundamente o objecto do seu amor e não necessariamente constituir família – isso pode ou não ser uma consequência. João César das Neves deve achar que isto é só parvo, como se eu me quisesse casar com o meu frigorífico ou assim.

Uma vez ouvi um padre no sermão de um casamento dizer: “Não é o amor que sustenta o matrimónio, é o matrimónio que sustenta o amor.” Ah, se fosse assim tão fácil assinar um contrato vitalício com a felicidade conjugal que nos permitisse desresponsabilizar o coração... Para a cidadã Ana Markl, eterna pessimista romântica, o amor é que sustenta o amor – e olhem que é um jenga bastante difícil de equilibrar.

Conheço muita gente que se casou pela razão certa – por amor –, mas pessoas como João César das Neves e o padre do sermão dão mau nome ao casamento. Se me perguntarem qual foi a experiência mais próxima do matrimónio que já tive, parece-me uma heresia falar dos grandes amores que já vivi. Vem-me apenas à cabeça o dia em que comprei dois anéis numa feira de artesanato: um para mim e outro para um rapazinho americano que só conhecia via internet mas que considerava ser o meu namorado.

Guionista, apresentadora e porteira do futuro
Escreve à sexta e ao sábado


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