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Paula Lobo Antunes. “Eu era muito cerebral e tive de aprender a ser mais emocional”

Paula Lobo Antunes. “Eu era muito cerebral e tive de aprender a ser mais emocional”

António Pedro Santos Raquel Carrilho 04/07/2015 19:43

“Consoante o país que vou mostro o passaporte dos EUA ou de Portugal. 

O apelido denuncia-a: Lobo_Antunes. Paula, a actriz, é filha do neurocirurgião João e sobrinha do escritor António. Nasceu e cresceu no meio da excelência e isso fez de si uma perfeccionista. Não porque sinta o peso de um apelido, mas porque a ensinaram a querer ser melhor. Estudou Biologia Médica, mas soube sempre que seria actriz. Estava certa.

A última vez que falámos, sentámo-nos na mesa de um café e acidentalmente derrubou o saleiro. Logo de seguida, pegou num pedaço de sal e lançou para trás das costas. A superstição faz parte do seu dia-a-dia?

Faz parte de mim, foi a minha avó que mo passou. São essas pequenas idiossincrasias que acho graça e que gosto de manter. Não sou muito tradicional. Tenho as minhas tradições. E essas superstições fazem parte de mim e das minhas tradições. Não exijo que as outras pessoas também o façam. Acho que, hoje em dia, se calhar, faço muitas dessas coisas mais por graça do que por medo.

Muitas vezes se calhar nem se apercebe que as faz.

Sim. Passo num cemitério e benzo-me. E não sou propriamente católica, sou baptizada e tenho a primeira comunhão, mas não sei se acredito em Deus. Mas benzo-me, não sei porquê. Não passo debaixo de escadas, nem mesmo das escadas rolantes. Não abro o chapéu-de-chuva dentro de casa, não ponho o chapéu em cima da cama, quando faço um brinde não cruzo as pernas, não ponho as facas cruzadas... Estas coisas têm todas significados e normalmente têm a ver com coisas antigas. O espirro, por exemplo, quando se diz “santinho” é para não deixar o diabo entrar no corpo.

Essas explicações recebeu-as da sua avó?

A minha avó materna simplesmente dizia que era assim porque era assim. Mas eu queria aprofundar. Lembro-me que, na escola, todas as semanas tínhamos direito a ir à biblioteca e levar livros para casa, e eu levava sempre livros místicos. E também comprei vários.

Mas cresceu numa família muito ligada à ciência, além de se ter formado em Biologia. Dá por si a analisar essas superstições à luz da ciência?

É um contraditório, porque tenho um lado muito científico e outro muito esotérico. E o lado científico vai contra esses pensamentos esotéricos. Mas há coisas que não têm explicação e uma pessoa tem apenas que aceitar. As coisas acontecem porque têm que acontecer. Há coisas que não conseguimos explicar. Uma das minhas melhores amigas morreu quando eu tinha 18 anos. Foi a primeira vez que me questionei.

Até então a sua educação religiosa era inquestionável?

Sim. Mas aí lembro-me de a minha mãe me ter dito que, às vezes, Deus quer as pessoas próximas dele. E eu ter pensado que, se Deus existisse, jamais faria uma coisa tão cruel E foi aí que disse, “para mim, não existe Deus!”. Lembro-me que fiquei uma semana de cama. Estava zangada. Hoje em dia, quando essas coisas acontecem, é porque tinha de ser. Sinto-me mais em paz com essa maneira de pensar. Fico triste, obviamente, mas acho que há certas coisas que têm de acontecer. Nós não temos respostas para tudo.

Quão pesado é o apelido Lobo Antunes?

Essa deve ser a pergunta que mais me fizeram em toda a minha vida. Tanto que já perguntei ao meu pai o que devia responder. Ele disse-me: “Então, Paula, é um nome como outro qualquer, é o nome de uma família que tem o seu mérito e… pronto, é o seu nome.” É um bocado isso: é uma família que é mais conhecida porque vários Lobos Antunes são conhecidos, em áreas diferentes. Pode-se chamar peso, mas acho que é mais reconhecimento. Tenho muito orgulho no meu apelido.

Leu algum livro do seu tio António?

Li, tenho alguns, folheio-os. Também do meu pai [João] e do meu tio Nuno. Leio excertos, volta e meia vou lá ver. Mas lembro-me sempre de quando era pequena e via o meu tio a escrever à mão, com um grande calo no dedo, rodeado de papéis, e ele dizer-me: “Não leias nada disto, isto não é para a tua idade!”. Somos assim. Da mesma forma, se perguntar ao meu pai o que é que ele já viu meu, não sei. Já foi ao teatro, mas televisão… Por acaso há pouco tempo estava a passar outra vez a novela “Flor do Mal” e ele disse-me: “Agora vejo-a à tarde, quando estou a fazer a ronda aos doentes”. E ainda hoje me ligou porque estava numa consulta com um doente que tinha levado a filha e queria que eu falasse com a miúda.

Da mesma forma que há esse orgulho, ao crescer sentiu a pressão de querer estar ao mesmo nível?

Não tem nada a ver com isso. Nós todos temos uma maneira de estar e de ser muito exigente. Muito competitiva. Desde pequeninos jogávamos ao Trivial Pursuit, ou o meu avô fazia perguntas de cultura geral ou punha um disco e perguntava “quem é que sabe de quem é isto?”. Sempre fomos assim. Sempre foi uma família de competição saudável, de querermos ser bons – não melhores uns que os outros, mas bons. E sem nos compararmos com os meus pais ou os meus tios. Cada um tem o seu mérito.

Isso fez de si uma perfeccionista?

Sim, e contribuiu completamente para o meu sucesso pessoal e para não me sentir defraudada. Não há nada pior do que uma pessoa que faz uma coisa e fica a meio caminho. Sou daquelas pessoas que, mesmo que não esteja feliz, tento ser a melhor. Por mim. Agora, por exemplo, quando faço curtas-metragens, em que não recebo dinheiro... Faço exactamente da mesma maneira como faço uma protagonista de uma novela. Chego lá, a horas, sei o meu texto. Não sou estrela ou diva, mas sou profissional.

Há quem veja o seu profissionalismo como arrogância...

Sim, porque as pessoas nem todas pensam da mesma forma. Por exemplo, nesta novela, “Mulheres”, chego a horas, sei o meu texto, faço as coisas da melhor maneira que sei. No mínimo, espero que os outros façam o mesmo, o que muitas vezes não acontece.

E quando isso não acontece, reage?

Já reagi mais. No início, ficava zangada, desesperada. Já gritei por silêncio algumas vezes em plateau. Hoje em dia faço-o de uma forma mais ponderada. Se vir que o plateau está um bocadinho desordenado, levanto-me e vou lá fora beber água. Tento sempre fazer o meu melhor, sem falhar. E tento passar isso a quem está a trabalhar comigo. Às vezes também vou trabalhar chateada, mas vou com um sorriso. Gosto que as pessoas trabalhem com alegria. Posso ser exigente, mas também me divirto e divirto as pessoas à minha volta, até porque sou uma palhaça. Sou a primeira a rir de mim e a fazer rir os outros.

Ainda há espaço para esse lado humano, quando a máquina das novelas se tornou exactamente nisso, uma máquina gigante?

Tenho sempre de ter isso. Tenho de saber o nome dos câmaras, o nome do estagiário que faz adereços, o nome da assistente do guarda-roupa... Tenho de saber o nome de toda a gente com quem trabalho. E tenho de poder falar com eles, como meus colegas. E trato-os todos por igual, seja a Eunice Muñoz, o Nicolau Breyner ou a senhora da limpeza... Estamos ali todos juntos a trabalhar.

Nunca se sente saturada do formato novela?

Sim. Neste momento vou começar a fazer teatro, no final do Verão. E depois há outras coisas que consigo fazer para me renovar, quando não estou a fazer novela, como workshops. Não tenho feito tanto cinema quanto gostaria, mas agora vou preparar uma curta. Até agora tinha contrato com a TVI, e agora já não tenho, por isso estou um bocadinho mais livre.

E mais assustada, também?

Nada. Continuo a trabalhar com a TVI. Continuamos com uma relação muito boa. Sei que eles gostam do meu trabalho. E eu sou muito poupada (risos). O contrato dá obviamente alguma estabilidade, mas também pode estagnar um bocado. Fica-se tranquilinho. Agora tenho de procurar trabalho. Mas tenho de estar confiante que o meu trabalho durante este tempo todo na TVI serviu para alguma coisa. Fez-me a actriz que sou.

É fácil imaginá-la a tentar a sua sorte fora de Portugal, até porque viveu no estrangeiro muitos anos e é bilingue. É uma hipótese?

Sim, mas isso exige outro tipo de trabalho, outro tipo de contactos. Se calhar agora está na altura de começar a investir. Quando vivia lá fora era mais uma entre milhares. Sem experiência, sem currículo, sem nada. Agora já tenho algum currículo. Quando fui aos EUA há dois anos, fui fazer vários castings e conheci vários agentes, que validaram muito o meu trabalho. Disseram-me para não me preocupar por viver em Portugal porque hoje em dia toda a gente faz castings via Skype. Sinto que já não sou uma miúda sem experiência. E há outra coisa: o actor não tem validade. Hoje já vejo séries protagonizadas por actrizes de 40 anos.

Sendo que a Paula tem um factor que a ajuda: parece muito mais jovem do que é.

Estou a começar a parecer mais da minha idade (risos). Esta novela que estou a fazer, foi a primeira depois de uma pausa de dois anos, porque fui mãe. De repente, quando olhei para o ecrã… (suspiro profundo) já pareço uma mulher! Já não parecia uma miúda! Foi estranhíssimo ver! Parecia que tinha envelhecido dez anos, quando foram só dois.

Dá por si a pensar que para o ano faz 40?

Vejo isso com graça. A minha filha faz-me sentir jovem e isso faz com que fisicamente também me sinta melhor. Com mais ou menos rugas, isso não há nada a fazer. Quer dizer, há. Pode-se fazer botox e não sei quê, mas isso logo se vê depois dos 40!

Nasceu em Nova Iorque e viveu na cidade até aos cinco anos. Guarda muitas recordações?

Várias. Da nossa casa, dos Natais, da escola, de aprender a andar de bicicleta sozinha, do meu filme favorito, o “Grease”, e de me querer vestir como a Olivia Newton John. Os meus pais trabalhavam no Presbyterian Hospital e vivíamos mesmo no centro, em Manhattan, mas depois fomos para New Jersey para uma casa com jardim, éramos três irmãs. E lembro-me do dia em que a minha mãe pegou em mim e na minha irmã João e viemos para Portugal. Foi uma enorme tristeza vir-me embora. Durante muitos anos não percebia porquê… Quer dizer, percebia: os meus pais divorciaram-se. Acho que foi por isso que me agarrei tanto às memórias. Era muito feliz em Nova Iorque e quando vim para Portugal era muito infeliz. Não falava a língua e não queria estar cá. Fomos para uma escola americana, mas nos primeiros anos não falava português. E quando falava gozavam muito comigo. Ainda hoje gozam. Chamam-me bifa ou camone.

Tem dupla nacionalidade?

Tenho. Tenho passaporte dos EUA e de Portugal. Consoante o país que vou mostro um passaporte ou outro. Mas só tive passaporte português aos 30 anos. Cada vez que entrava em Portugal chateavam-me na alfândega. Sempre viajei muito. Sou um bocadinho de todos os sítios onde já vivi.

Porque é que não teve passaporte português antes?

Eu não queria ser portuguesa. Não me identificava… não me identifico a 100%. Não quero ser mal interpretada… Mas parece-me que os portugueses que querem ser inovadores e ter sucesso vão para fora. Em Portugal é tudo muito deixa andar e isso enerva-me e entristece-me.

Os EUA não têm coisas que a enervem?

É óbvio que nos EUA há do bom e do mal, mas acho que existe um fio condutor. As pessoas aspiram a ser melhores. Aqui não têm essa aspiração de quererem ser melhor e quando têm, emigram. Ainda mais como o país está. As mentes brilhantes vão-se embora. Porque cá não se sentem reconhecidas.

Nos EUA há os problemas com as armas...

Também acontece cá. Também tive amigos que morreram porque estavam a brincar com as caçadeiras dos pais. Eu tinha armas em casa, porque as pessoas iam à caça à rola, e ia para a varanda e disparava para dentro da piscina. Mas isso de uma pessoa pegar numa arma e matar não sei quantas pessoas não é uma questão de civismo, é uma questão psicológica, é um psicopata. Cá as pessoas bebem e conduzem.

Esse carinho pelos EUA é o seu subconsciente a revisitar uma fase feliz da sua vida?

Acho que sim. Sempre que lá vou sinto-me bem e sinto que sou dali. As pessoas ali não julgam tanto.

Também tem a ver com o facto de lá ser uma desconhecida.

Obviamente. Aqui nunca mais vou conseguir entrar numa loja ou num restaurante sem o risco de alguém me reconhecer. Mesmo no estrangeiro já acontece. Quando estava grávida, eu e o Jorge [Corrula] fomos atravessar os EUA. Estivemos imenso tempo em Yellowstone e quando chegamos a Las Vegas, estávamos na piscina do hotel e reparámos num casal a olhar para nós. Quando fui à água percebi que eram portugueses. Sabe bem quando vamos viajar para sítios onde não nos conhecem. Mas é óbvio que o carinho das pessoas é muito bom.

Qual foi o momento mais marcante com o público?

Sou embaixadora da Make a Wish e realizei o desejo de uma miúda que fazia 16 anos e queria ter um tratamento VIP durante um dia. Ficou hospedada numa suite do Tivoli, depois foi fazer maquilhagem, cabelo… Entretanto eu apareci e fomos almoçar juntas, sempre de limousine. Fomos às compras, havia um fotógrafo a fazer de paparazzi atrás dela… Uma coisa de estrela. No final do dia perguntaram-lhe qual tinha sido o momento de que tinha gostado mais e ela disse que tinha sido ter-me lá. Num dia tão importante na vida de uma rapariga que estava a sofrer horrores há muito tempo, uma doente oncológica, ela dizer isto foi dos maiores elogios que alguma vez que recebi. Ela morreu uns meses depois.

O facto de o Jorge também ser actor aumenta a pressão?

Já aumentou, no início da nossa relação, para aí há oito ou nove anos – nós não contabilizamos datas! Nessa altura foi mais duro, porque nem eu nem ele sabíamos como lidar com isso. Éramos os dois muito inexperientes, deixámos que as coisas de fora nos minassem. Depois tivemos um hiato sabático e quando voltámos a estar juntos estávamos muito mais fortes. Agora estamos muito mais maduros e mais habituados. Somos um casal muito reservado. O que expomos sobre nós são coisas pontuais. Proteger-nos é algo orgânico. Não abrimos a porta de nossa casa.

O seu pai é neurocirurgião e a sua mãe é anestesista. Crescer com duas pessoas da área da saúde fez com que fosse uma “casa de ferreiro, espeto de pau”?

Sim! Não ligavam a absolutamente nada. Nunca fui a uma ginecologista, até viver sozinha no Reino Unido, porque era obrigatório. O National Health Service mandava uma carta para casa a dizer que tinha de ir à ginecologista. Nunca fui a um pediatra. Em casa, se me doíam os ouvidos, a minha mãe dava-me um antibiótico, se precisava de fazer análises, a minha mãe tirava-me sangue em casa, antes de ir para a escola. O meu pai, então, nunca dizia nada. Se me queixava de uma dor, ele respondia “Isso já passa”.

E eles falavam muito de trabalho consigo?

Sim. E muitas vezes levavam-me. Quando os filhos estão doentes, os pais levam-nos para o trabalho, e o trabalho dos meus pais era ir para o hospital. Às vezes ficava no gabinete, mas se tinham uma operação lá arranjavam um fato e ia para o bloco. Mas só quando os doentes já estavam anestesiados que era para não ficarem assustados, do género: “Está aqui uma criança, porquê?” (risos)

Há algum momento que recorde particularmente?

Recordo-me da primeira vez que vi uma operação ao coração. Devia ter uns 11 ou 12 anos. Só vi uma operação do meu pai. À cabeça ou à coluna, é tudo muito tapado, não é como ver o tórax aberto. Ver abrir o tórax com uma serra e ver o coração a bater, impressionou-me. Mas não desmaiei.

E depois queria saber o que acontecia àquelas pessoas que tinha visto operar?

Sim, vi uma senhora idosa com uma hérnia muito grande e quis saber como é que ela tinha ficado. E uma miúda de 13 anos, mais ou menos da minha idade, com uma apendicite. E houve uma vez que estava no hospital e aparece um homem num táxi a gritar, “Socorro! Socorro!”, tipo filme. Puseram a senhora numa maca e uma médica em cima dela começou a fazer massagem cardíaca, ainda no parque de estacionamento. À noite quis saber o que tinha acontecido e a senhora tinha morrido. Pela primeira vez na minha vida pensei que não conseguiria ser médica.

Até aí estava tudo preparado para ser médica?

Sim! Falávamos muito sobre medicina, o meu pai era professor na Faculdade de Medicina e estava a preparar-me para ser médica. Fazia-me várias entrevistas, tal como fazia aos alunos dele. Mas há uma coisa muito importante: o médico tem de ter empatia, não simpatia. E eu sentia muita simpatia pelos doentes. Mas o meu pai ainda hoje me diz: “Ai você dava uma médica tão boa!”.

Eles conformam-se com a sua mudança de rumo?

Conformam, obviamente que sim. Acho que o meu pai diz isso por graça.

A escolha do curso de Biologia Médica foi uma forma de fazer a vontade aos seus pais?

Foi uma coisa natural que aconteceu… Mas eu sempre soube o que queria fazer. Só que a minha mãe, desde os 13 ou 14 anos que me dizia: “faça um curso como deve ser primeiro e depois pode ser actriz”. Já o meu pai achava que eu faria o curso de Biologia e depois seguia para medicina. Ele tinha ligações com a Universidade de Columbia, nos EUA, só que lá não se pode entrar directamente do liceu para medicina, por isso Biologia seria um pre med.

Acabou por ir estudar para Edimburgo. Viver sozinha aos 18 anos foi uma festa?

Não. Comecei a sair muito cedo. Os meus pais deram-me muita responsabilidade desde muito cedo. Lembro-me de ir para o Coconuts com 14 anos. Nunca fui desvairada, não me drogava. Por isso, quando chegou a altura de ir para fora, não foi a histeria total. Lembro-me que tinha amigas que nem sabiam que era preciso lavar a roupa da cama. A única coisa que não sabia e que fiz mal nos primeiros tempos, foi gerir o dinheiro. Logo no início fiquei uma semana a comer torradas.

Trabalhou?

Sempre que geria mal o dinheiro, ia trabalhar. Não tinha coragem de dizer ao meu pai. Obviamente que os meus pais me ajudaram, tive esse privilégio. Depois, quando fui tirar o curso de teatro em Londres, também foi assim. Não gosto de abusar. No último ano de teatro, comecei mesmo a trabalhar. Trabalhei em restaurantes e discotecas, call centers, fiz figuração, distribui panfletos, vendi publicidade, vendi Barclays cards… Fiz um bocadinho de tudo.

Ainda durante o curso de Biologia confirmou que aquele não era o seu caminho. Mas não desistiu.

Porque, se estou a fazer uma coisa, tenho de a fazer da melhor maneira possível para não me desiludir. Não é por mais ninguém, é por mim.

Não sentiu que estava a perder tempo?

Nunca senti isso. Em tudo o que faço tento aproveitar o que estou a fazer. Quando entrei para o curso de teatro, era das mais novas. Tinha 22 anos. Mas entrei com a maturidade e a certeza que era mesmo o que queria fazer. Sabia que era aquilo que queria fazer, nem que tivesse de morrer à fome. Parte da disciplina e da metodologia que ganhei no curso de Biologia serviram-me para a vida.

No entanto, no curso de teatro, diziam-lhe para se afastar dessa metodologia…

Diziam-me que tinha de reprogramar o meu cérebro. Eu era muito cerebral e tive de aprender a ser mais emocional. Sofri muito! Diziam que tinha um véu a tapar-me e que tinha de tirar esse véu e expor-me. Sou muito tímida. Quem vive à frente da câmara não sou eu, são as personagens. Quando acabo uma cena e vou para casa, sou eu, não sou uma personagem. Até posso ter estado a chorar imenso, mas quando corta, corta. Não acho que seja correcto levar as personagens para casa. Mas quando ouvia algumas das coisas que me diziam na escola era horrível, questionava-me se teria talento. Isso ajudou-me como actriz. Comecei muito tímida e reservada e acabei a ser escolhida para protagonista da peça de fim de curso. Ainda hoje, sinto-me sempre insegura.

E gosta de se ver?

Às vezes. Vejo-me sempre, faço questão. Para não me perder. Um actor nunca se pode perder, porque se se perde fica egocêntrico e acomoda-se.

Inscreveu-se em teatro às escondidas?

No último ano na Escócia, quando a ideia de prosseguir para Medicina estava mais próxima, candidatei-me a vários cursos de Teatro. E passei o verão a ler as obras de Shakespeare para preparar as audições. Quando disse à minha mãe, ela ficou contente, porque cumpri o que tinha dito, que faria o curso antes. O meu pai é que não sabia de nada. Quando fui aceite em Londres liguei-lhe e ele desligou-me o telefone na cara. Mas depois voltou a ligar e perguntou-me qual é que seria o meu nome artístico. Optei por Paula Plantier.

Porque mudou depois?

Não fui eu, foi a imprensa. O meu primeiro contrato, para fazer a série “João Semana”, diz: “Actriz Paula Lobo Antunes, de nome artístico Paula Plantier”. Mas no primeiro dia de rodagem, alguém comentou com a imprensa que eu era Lobo Antunes. Não foi uma decisão minha.

Depois de acabar o curso o que foi fazer?

Fiquei em Londres uns anos, a trabalhar como actriz. Fiz muito teatro, sobretudo infantil. Eram coisas muito low key. Nessa altura vim a Portugal fazer o “João Semana”. Mas voltei para Londres. Entretanto, o meu agora ex-marido, que fez o curso de teatro comigo, decidiu ir para Nova Iorque. Quando estávamos a fazer a mudança, recebo o telefonema para ir para o Brasil fazer a “Escrava Isaura”.

Como?

Foi muita sorte… Quando vivia em Londres, fazia muitos telefonemas para teatros e produtoras aqui. Num desses contactos, para a RTP, disseram-me que estavam a preparar uma série chamada “João Semana”, mas que tinha de falar com o Moita Flores. Deram-me o contacto, liguei-lhe e ele chamou-me para um casting. E fui escolhida. Depois, para o Brasil, não tive nada a ver. A RTP comprou a “Escrava Isaura” com a condição de incluirem uma actriz portuguesa. Fui escolhida. Adorei a experiência, mas eu queria viver nos EUA, por isso voltei. Nos anos em Nova Iorque fiz muita figuração e muitos castings. Estava à espera do meu ticket da lotaria. Entretanto os convites para trabalhar em Portugal eram cada vez mais. Quando vim fazer a peça de teatro “Felizmente não é Natal”, conheci o Jorge e fui ficando. Até porque, logo a seguir, fiz o “Deixa-me Amar”, na TVI e propuseram-me um contrato de exclusividade.

Há dois anos e meio foi mãe. Mudou tudo?

Sim e não. Tento manter a nossa vida normal. Tentamos manter a harmonia que tínhamos antes. A Be acompanha-nos muito.

É verdade que ela não teve nome nas primeiras duas semanas de vida?

Era a No Name Girl, com um cachecol do Benfica. Não concordávamos no nome. Eu queria nomes mais inglesados, e o Jorge não. Ficou Beatriz. Mas trato-a sempre por Be.

Costuma dizer que não gosta de mostrar fraqueza. Isso não mudou com a maternidade?

Acho que é de família. Ainda agora, a propósito da novela “Mulheres” perguntei à minha mãe como é que ela sobreviveu ao cancro na mama. Eu tinha 15 ou 16 anos e não me lembro de a ver chorar, de a ver sofrer. E ela olhou para mim e disse: “Eu tinha quatro filhas para criar, o que é que queria que eu fizesse?”.

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