25/05/2022
 
 
Isabel Stilwell 04/07/2015
Isabel Stilwell

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Gratos por termos nascido

Andamos sempre a pedir desculpa aos nossos filhos. Como se a vida que receberam não fosse uma dádiva só por si. Sim, apesar dos dias maus.

De cada vez que oiço um adolescente responder torto aos pais, naquela atitude do “toda a gente me deve qualquer coisa”, irrito-me contra quem teve a triste ideia de andar por ai a dizer que devemos tudo às crianças, coitadinhas, porque as pobrezinhas “não pediram para nascer”. 

Recuso a ideia de que viver possa ser mais duro do que nunca ter nascido, convicta de que a vida é uma bênção pela qual devíamos estar gratos todos os dias. É claro que há dias maus, e há outros que são piores do que maus, mas tenho para mim que, mesmo em condições extremas, viver trunfa não ter nascido e é infinitamente melhor do que morrer. 

Quando, já há uns tempos, ouvi em Lisboa o filósofo Alain de Botton dizer que ser feliz, hoje, era muito mais difícil do que há uns séculos atrás, tive de parar para pensar. E consegui olhar as coisas pelo seu ponto de vista: mesmo os pobres dos pobres, os infelizes dos infelizes, os massacrados pela fortuna ou pela angústia existencial tinham na ideia do Paraíso e de uma vida eterna gloriosa a certeza de uma recompensa. Aliás, segundo os ditames das diferentes religiões, que nessa consolação são comuns, quanto mais dura a vida, maior o prémio. E, como todos sabemos, a dor com sentido é infinitamente mais suportável. Mas há mais: ao acreditar na sorte que definia destinos, quem não conseguia o percurso ascendente do vizinho do lado atribuía a culpa a um “agente” exterior e não a si mesmo. Uns eram bafejados pela fortuna, outros não, mas mais tarde as contas seriam feitas, e quem tinha recebido menos veria então as suas contas saldadas.

E agora, que tantos acreditam só com meio coração, ou não acreditam de todo, agora que a recompensa tem de ser obtida em tempo real, nos dias de uma existência limitada? Alain de Botton – e qualquer pessoa que saiba somar dois mais dois – deixa claro que nestas circunstâncias a depressão e o desânimo são muito mais prováveis. Mais certos ainda, diz o filósofo, quando os “casos de sucesso” que os media veiculam parecem de gente tão banal, tão igual a nós, que conseguiu, no entanto, vencer todos os obstáculos e chegar onde sonhávamos chegar, o “porquê eles e não eu” transforma-se tantas vezes numa inveja rancorosa que corrói a alegria. 

Mas as coisas podem piorar ainda. Num tempo em que o trabalho é supostamente uma das maiores fontes de satisfação pessoal, como se sente quem odeia o que faz? Alain de Botton gracejou: “As pessoas acreditam que podem ser felizes no trabalho e no amor, simultaneamente. Não sei o que se passa convosco, mas eu nunca consegui acertar com as duas coisas no mesmo dia.” 

Com expectativas tão altas, com esta corrida individual a que se roubou, muitas vezes, o sentido da obrigação de trabalhar para um bem comum, é fácil que a viagem se torne solitária e amarga.

Se calhar, nós. pais, temos culpa. Se calhar premiamos demasiado as notas, os resultados finais, e de menos a alegria, o prazer da viagem. Se calhar, estivemos tão entretidos a pedir desculpa e a correr como baratas tontas para lhes dar tudo o que imaginamos precisarem que não fomos capazes de lhes ensinar, sobretudo pelo exemplo, a apreciar a dádiva que é estar vivo. Parar para respirar fundo e sentir o ar a entrar nos pulmões, cruzar o olhar com um desconhecido e sorrir, perceber a luz da manhã nas folhas das árvores, sentir o toque da mão de um bebé na nossa, sim, eu sei, parece piroso, porque só os verdadeiros poetas conseguem dizer estas coisas sem soarem foleiros. Por isso acabo aqui. Na certeza de que estou grata, profundamente grata, por ter nascido.
 
Jornalista e escritora
Escreve ao sábado 

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