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Grécia. Costa tenta equilíbrio entre duas frentes no PS
Líder do PS tem ouvido posições divergentes dentro do partido sobre resposta à crise grega

Grécia. Costa tenta equilíbrio entre duas frentes no PS

Líder do PS tem ouvido posições divergentes dentro do partido sobre resposta à crise grega Bruno Simões Castanheira Rita Tavares 30/06/2015 09:00

PS entre culpar Syriza e apoiá-lo. Alegre não quer “meias-tintas” e Cravinho atira ao FMI. Passos já diz que “ninguém é imune” a uma saída do euro.

Quem é mais radical: oSyriza ou as instituições europeias? Os dois, disse ontem António Costa, o líder do partido que nos últimos meses tem visto desfilar opiniões divergentes sobre a crise grega. Os socialistas são quem tem tido maior dificuldade em colocar-se de um lado da barricada e voltou a acontecer nos últimos dias. Tanto que ontem, o histórico Manuel Alegre veio recusar “posições de meias-tintas” e João Cravinho disse ao i que “isto não é um problema grego, mas das instituições europeias”. 

Nem todos alinham com a distribuição de responsabilidades pelos dois lados. Para Cravinho, ex-ministro e dirigente do PS, “há um desprezo absoluto pela democracia. OFMI arroga-se do direito de dizer, dentro de cada país, quem deve ser aliviado de impostos e quem deve ter maior carga”. “Nem a Inglaterra vitoriana, no auge do seu poder, ousou ser tão imperial como o FMI”, atira o socialista, recusando aceitar que só se atribua radicalismo ao lado da Grécia. 

Manuel Alegre também falou ontem e na mesma linha:“A Europa está a transformar-se numa ditadura da finança e as posições dos seus responsáveis fazem-nos lembrar a doutrina Brejnev [antigo presidente do Soviete Supremo e chefe de Estado da União Soviética] sobre soberania limitada, disse o socialista à Lusa. Mas Alegre disse mais, mostrando-se desconfortável com as posições na sua área política até aqui: “Gostaria de ver os socialistas europeus com uma posição mais firme. Uma situação destas não pode ser abordada com posições de meias-tintas.” 

Nem mesmo as últimas propostas do governo grego à troika não são consensualmente tidas como radicais no PS. Ao i, numa primeira reacção na semana passada, João Galamba considerava que aquele não era o plano “ideal, mas o possível” e, no sábado, na sua página no Facebook, Sérgio Sousa Pinto escrevia que “melhores ou piores, as propostas gregas poderiam ter sido apresentadas por qualquer partido social-democrata ou democrata cristão. Foram recusadas por razões políticas idênticas às que ditaram várias inaceitáveis intromissões anteriores na política interna democrática dos estados”. O secretário-nacional do PS ainda reconhecia mérito aos gregos em “fazer algo em que são reconhecidamente bons: sacudir o jugo externo”.

Quadratura Posições menos extremas para a proposta do Syriza do que a que o presidente do partido, Carlos César, colocou em cima da mesa no sábado ao desejar que “não triunfem nem os radicalismos de algumas instituições europeias, nem da outra parte”, o Syriza. E defendeu “uma via entre a austeridade excessiva e um radicalismo inconsequente, improdutivo, destruidor da unidade europeia e destruidor das economias nacionais como, por exemplo, o que é seguido pelo novo governo grego”.

César foi bem mais duro com o Syriza do que António Costa, na nota que fez publicar ontem sobre a situação grega, mas o objectivo é o mesmo: fazer a quadratura entre as posições mais próximas do governo grego e as que o condenam na gestão desta crise.

No jornal digital do partido, Costa escreveu ser “urgente substituir o confronto entre posições radicais por uma negociação construtiva” entre Bruxelas e Atenas. António Costa não diz de que lado está no referendo de domingo, mas exorta a Europa a respeitar a decisão: “Não é a primeira vez que um Estado-membro recorre ao referendo para decidir questões com a UE”. “Decisivo é que, qualquer que seja o resultado do referendo, com este ou outro plano, seja garantida a integridade da zona euro, o financiamento das economias e uma política económica que permita o crescimento, a convergência e a criação de emprego”, escreveu o secretário-geral do PS.

Passos e o contágio Os socialistas encontram-se mais no ataque ao governo, que teve uma postura “imprudente”, segundo Costa, e “vergonhosa”, nas palavras de Alegre. O primeiro-ministro falou ontem para admitir de forma clara que o contágio da situação grega não é uma coisa estanque na Europa. “Ninguém pode dizer que está imune ao que possa vir a acontecer”, disse Passos Coelho: “Ninguém pode dizer, em questões económicas, que os eventos são estanques, que não se propagam de uma economia para a outra”.

Logo de seguida avançou com o exemplo de um passado... de contágio. “Só podemos fazer comparações com o que se passou em 2010- 2011”, disse recordando o resgate à Grécia que acabou seguido de um resgate à Irlanda e a Portugal, mas para a seguir acrescentar que “nessa altura Portugal estava muito vulnerável e precisou de pedir ajuda”. “Não é assim que estamos hoje. Não estamos tão vulneráveis, nem tão expostos à situação grega”. Quanto aos “cofres cheios” para responder a uma eventual crise na zona euro passaram a ter uma referência temporal:“Durante vários meses temos capacidade para enfrentar esse tipo de volatilidades, do ponto de vista do Estado.”

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